Internacional chega à Neo Química Arena para transformar a confiança reencontrada em classificação e provar que o desejo de seguir em frente ainda pulsa no Beira-Rio
Fora de casa, o Clube do Povo entra em campo na noite desta quinta-feira (6), para um confronto que pesa dentro e fora das quatro linhas. Na Neo Química Arena, às 20h, o Internacional enfrenta o Corinthians, pelo jogo de volta das oitavas de final da Copa do Brasil. Em disputa, está uma vaga nas quartas de final, mas também a responsabilidade de entrar em campo carregando uma história que sempre ganha novos significados quando os dois clubes se encontram.

Eu gosto de sentar para escrever sobre o Internacional como quem senta em uma mesa de bar para conversar sobre futebol. Gosto de me permitir voltar a ser aquela garotinha que aprendeu sobre o jogo com um rádio ao lado e com um pai que nunca achou que futebol era assunto que não deveria ser dividido com a sua menina. Antes da mulher que hoje escreve sobre futebol, existe essa menina que ouviu o pai falar do Colorado com os olhos encantados, com um amor que só crescia a cada conversa, e talvez seja por isso que alguns jogos carregam um peso que não cabe apenas na tabela, no regulamento ou nos noventa minutos.
A noite desta quinta-feira, às vésperas do Dia dos Pais, carrega essa mistura de sentimentos. Existe a grandiosidade de uma decisão, a força de uma rivalidade histórica e a expectativa de uma classificação importante, mas existe também a ausência de uma conversa que hoje não acontece da mesma forma. Meu pai acompanha o futebol de um lugar diferente, lá do céu, mas tudo aquilo que ele deixou continua presente na forma como eu enxergo o jogo, na forma como escrevo e na maneira como continuo amando o Internacional.
Talvez esse desabafo não explique uma escalação, não mude o rumo de uma partida e nem caiba no tamanho que eu sempre espero dar aos meus textos, mas ele carrega a verdade de quem ama um clube desde que se conhece por gente.
E talvez seja justamente por carregar esse tipo de sentimento que os últimos meses tenham sido tão difíceis para o torcedor colorado. Nós vimos o Internacional atravessar um período em que a conexão entre clube e arquibancada parecia cada vez mais fragilizada. Não porque o torcedor escolheu se afastar, mas porque em muitos momentos pareceu que ele estava sendo empurrado para longe. As dificuldades dentro de campo, os resultados que machucaram e as questões extracampo expostas fizeram crescer a sensação de que a instituição parecia distante daqueles que nunca deixaram de estar ao seu lado.
Ainda assim, o torcedor permaneceu. Porque existem vínculos que não desaparecem quando o caminho fica mais difícil e, talvez por isso, o empate contra o Flamengo tenha representado algo além de um resultado. Não era a solução para todos os problemas, não era a certeza de uma transformação completa, mas era um fio de esperança. Era a sensação de que talvez o Internacional ainda pudesse reencontrar aquilo que parecia perdido.
Esse sentimento ganhou força na noite em que o Corinthians esteve no Beira-Rio. Mais do que construir uma vantagem para o confronto de volta, o Internacional apresentou uma maneira de competir que há algum tempo o torcedor buscava reencontrar. Foi um time inteligente, que permitiu ao adversário ter a bola, que aceitou o jogo proposto pelo Corinthians, mas que soube controlar espaços, reduzir possibilidades e entender exatamente aquilo que precisava fazer. Não foi uma equipe que apenas resistiu ao adversário: foi uma equipe que escolheu como queria jogar.
É isso que o Colorado leva para São Paulo. Os dois gols construídos dentro de casa são importantes, mas no futebol todos sabem que uma vantagem pode mudar de tamanho em poucos minutos. O que acompanha o Internacional para a Neo Química Arena é algo que não aparece no placar: a confiança que aqueles noventa minutos ajudaram a reconstruir. Uma confiança que por muito tempo pareceu perdida pelos corredores do Beira-Rio, sem conseguir encontrar novamente o caminho até dentro de campo.

Ela ainda não chega fazendo barulho. Ela ainda não permite certezas. Ela sabe que decisões importantes exigem mais do que uma boa atuação e que a continuidade é aquilo que transforma momentos em trajetórias. Mas ela existe. E talvez esse seja o principal ingrediente que embarca com o Internacional para uma noite em que será preciso proteger aquilo que construiu, sem esquecer que futebol também é sobre buscar.
Para transformar essa confiança em atuação dentro de campo, Pezzolano também precisará lidar com uma mudança importante na equipe. O treinador não contará com o argentino Villagra, que foi vetado pelo departamento médico por dores na coxa esquerda.
O XI inicial, por sua vez, não deve carregar grandes mistérios. Com um elenco mais curto e uma estrutura de jogo que finalmente apresentou respostas depois de tantos erros, o treinador não encontra grandes margens para mudanças em uma partida que exige equilíbrio, concentração e continuidade. A tendência é que Juninho seja o escolhido para ocupar a vaga, enquanto Bruno Gomes retorna ao meio de campo.
Assim, o Internacional deve ir a campo com Matheus Cunha; Guillermo Maripán, Gabriel Mercado e Juninho; Vitinho, Bruno Gomes, Bruno Henrique, Alan Patrick, Bernabei e Matheus Bahia; Carbonero.
Mesmo sabendo que entra em campo carregando uma condição construída no Beira-Rio, acreditar que apenas isso será suficiente seria uma bobagem. Uma decisão não se vence somente pelo que foi feito nos primeiros noventa minutos, mas pela capacidade de repetir a entrega quando o cenário muda.
E talvez seja essa a principal pergunta que acompanha o Colorado para São Paulo: quanto de fome, quanto de desejo ainda existe?
A classificação às quartas de final da Copa do Brasil representa mais do que avançar em uma competição. Ela carrega uma resposta ao torcedor sobre ambição, vontade e sobre a capacidade de um time que, depois de meses difíceis, voltou a estender a mão para quem nunca deixou de estar ao seu lado. Não se trata de afirmar que tudo está resolvido, mas de entender se o Inter que reapareceu diante do Corinthians tem força para transformar um momento em uma trajetória.
Do outro lado estará um Corinthians que precisa transformar a necessidade em combustível. A Neo Química Arena será palco de uma noite de pressão, mobilização e urgência, porque o adversário precisa buscar o resultado e sabe que o ambiente também fará parte da disputa.
Mas o confronto não começou apenas quando a bola rolar.
Depois do primeiro jogo, o Corinthians passou a destacar lances específicos da partida por meio de manifestações públicas, dirigentes e redes sociais, questionando decisões da arbitragem e construindo uma narrativa em torno dos acontecimentos do Beira-Rio. A discussão deixou de ser apenas sobre os noventa minutos disputados dentro de campo e passou também para a construção do ambiente que antecede uma decisão.
No futebol brasileiro, grandes confrontos também são disputados fora das quatro linhas. Narrativas são construídas, ambientes são preparados e a pressão faz parte do jogo. O Internacional percebeu esse movimento e respondeu de forma institucional, deixando claro que acompanhava tudo aquilo que se construía ao redor da partida.
Porque antes da bola rolar na Neo Química Arena, já existe uma disputa sendo jogada. E quando o apito inicial acontecer, o Internacional precisará carregar tudo aquilo que o trouxe até aqui: a história, o sentimento, a responsabilidade, a fome e a confiança que voltou a encontrar o caminho do campo.
Na bagagem colorada viajam a confiança reencontrada, a responsabilidade de uma decisão, a memória de uma rivalidade histórica e a convicção de que a classificação não será conquistada apenas resistindo, mas tendo coragem para jogar quando o jogo pedir.
Por Jéssica Salini
*Esclarecemos que os textos trazidos nesta coluna não refletem, necessariamente, a opinião do Portal Mulheres em Campo.