Aniversário com derrota



Às vésperas dos 114 anos, América perde em Chapecó e dá adeus de vez à Copa Sul-Sudeste

Na noite do dia 29 de abril de 2026, o América confirmou o enterro definitivo de qualquer chance de classificação na Copa Sul-Sudeste. Em jogo disputado na Arena Condá, em Chapecó, às 19h30, o Coelho foi derrotado por 2 a 1, e colocou fim a uma participação que, sinceramente, pareceu nascer sem convicção, sem prioridade e sem qualquer sinal real de planejamento esportivo.

Foto: Divulgação/Chapecoense

E foi estranho. Muito estranho. O América entrou em campo com um time que, para o torcedor mais atento, parecia uma verdadeira salada de frutas. Tinha reserva de titular, jogador da base, reserva da base e atletas que, na prática, nunca haviam atuado juntos. Para completar, o técnico Roger Silva nem sequer viajou, ficando em Belo Horizonte para treinar o time principal visando o jogo de domingo pela Série B. Se a competição não era prioridade, tudo bem, que se diga. Mas entrar em campo com essa cara de improviso só reforça a sensação de que o clube tratou o torneio como um incômodo no calendário quando podia apenas ter desistido como fez o Internacional.

Os gols da partida foram marcados por Rubens, aos 3 minutos do primeiro tempo, e João Bom, aos 20’ do segundo, para a Chapecoense. Pedro Geovane descontou para o América aos 19 minutos da etapa inicial, em um dos poucos momentos de lucidez do time. E aqui fica talvez o único ponto positivo da noite: a qualidade de finalização de alguns nomes do time alternativo chamou mais atenção do que a do time titular em muitos jogos recentes. O gol de Pedro Geovane foi bonito e mostrou personalidade, algo que tem faltado demais em quem recebe mais chances.

Com o resultado, o América permaneceu com apenas cinco pontos e chega à última rodada sem qualquer chance de classificação. O Operário venceu o Sampaio Corrêa-RJ e garantiu a vaga restante, enquanto o Coelho ficou pelo caminho sem causar surpresa em ninguém. Essa talvez seja a parte mais incômoda: a eliminação não chocou. Ela só confirmou o que a postura do clube já vinha anunciando.

É claro que a Série B é prioridade. Ninguém em sã consciência discute isso. O problema é que priorizar uma competição não deveria significar transformar outra em laboratório desorganizado. Rodar elenco é uma coisa. Parecer que se juntou quem estava disponível e mandou para campo cumprir tabela é outra. O América precisa entender que camisa também se defende em competição considerada secundária, porque derrota se acumula, mau desempenho pesa e o torcedor, que já vem apanhando emocionalmente há semanas, não é obrigado a assistir a tudo como se fosse normal.

Agora, o América ainda cumpre tabela na Copa Sul-Sudeste na próxima quarta-feira, dia 6, às 21h30, contra o Cianorte, no Independência. E, sendo bem honesta, acho difícil até o torcedor mais maluco marcar presença nesse jogo. Antes disso, porém, o compromisso realmente importante é pela Série B: o Coelho enfrenta o CRB no domingo (3), às 20h30, também no Independência, pela sétima rodada. A partida terá transmissão pela ESPN, Disney+, SportyNet e X Sports. É nesse jogo que o América precisa dar resposta, porque o discurso de prioridade só se sustenta se vier acompanhado de resultado.

E, no meio desse caos, o América completa 114 anos de história. Uma história que não pode ser reduzida à má fase atual, mas que também não pode servir de escudo para tudo. O clube tem tradição, tem camisa, tem torcida e tem identidade. Justamente por isso, merece mais do que improviso, explicações vazias e atuações que fazem parecer que perder virou parte da rotina.

A torcida americana segue sendo o maior patrimônio desse clube. Entre todas as críticas que faço à direção, aos gestores atuais e antigos, aos técnicos e aos jogadores, uma coisa nunca esteve em discussão: a torcida. Ela apoia, cobra, viaja, comparece, sofre, insiste e continua carregando o América mesmo quando o próprio América parece testar diariamente os limites de quem o ama. Parabéns ao clube pelos 114 anos, mas principalmente parabéns ao torcedor americano, que sustenta essa história muito além do que se vê dentro de campo.

Que venham dias melhores, porque os atuais têm sido difíceis de defender.

Laura Assis Ferreira

Os textos publicados nesta coluna não refletem, necessariamente, a opinião do Portal Mulheres em Campo.


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