Inter deixa escapar a vitória no fim e escancara um Beira-Rio cada vez mais distante
Na noite desta quarta-feira (01), o Clube do Povo recebeu a equipe do São Paulo pela 9ª rodada do Campeonato Brasileiro e, mesmo embalado por duas vitórias seguidas, viu com estranheza a ausência de sua gente dentro da própria casa. Foi uma partida fria nas arquibancadas, morna dentro de campo e que terminou com um empate amargo.
Apesar do famoso “Dia da Mentira” é com tristeza que precisamos dizer duas verdades: o 1 a 1 caiu como um balde de água geladíssima sobre o torcedor, e a frieza e o distanciamento que a torcida tem tratado o Internacional como instituição e o Beira-Rio em toda a sacralidade do seu ser, são doloridos. O público baixíssimo causa uma estranheza que chega a ser dolorosa. Como, de fato, o Inter chegou até aqui — a esse lugar dentro de si mesmo — na relação com o seu torcedor?
Quem foi, foi. Quem viu, viu. Dentro de casa, o Inter recebeu o São Paulo e reencontrou seu ex-técnico, Roger Machado, cerca de duzentos dias após a saída do treinador da casamata alvirrubra.

O começo de jogo foi de duas equipes se estudando, buscando encontrar espaços, mas com pouca agressividade. Logo aos dois minutos, o Tricolor Paulista chegou em uma trama bem construída pelo meio-campo, é verdade, mas, de ambos os lados, as oportunidades efetivas, aquelas que nos fazem reagir fisicamente de forma espontânea, seja com um olhar desesperado, com um grito ou com um xingamento preso entre a garganta e a explosão em um tom altíssimo de voz, bom, essas não aconteceram.
O Inter foi construindo espaços e ocupando campo. Assim, em uma jogada que já parecia sem muito resultado, Alerrandro foi movido pelo faro de camisa 9 e, no oportunismo, esteve no lugar exato onde a bola seria alçada, naquele centímetro em que a gente pode dizer com certeza que Damião também estaria. Aos 29 minutos da primeira etapa, já diria Lady Gaga: Alerrandro, Alerrandro!
À frente no placar, o primeiro tempo do Inter ganhou corpo e busca por melhores chances. Pouco barulhentas, assustadoras ou realmente relevantes, é verdade, mas o Colorado se mostrou mais esperto, mais bem posicionado e eficiente defensivamente — algo que sabemos ser, há bastante tempo, um baita problema por estas bandas.
Se parecia, no entanto, que no Dia da Mentira teríamos de fazer uma piada sobre a terceira vitória seguida do Inter, o próprio Internacional tratou de gastar a graça e economizar o sorriso do seu torcedor.
O segundo tempo foi de um dono da casa que buscou se poupar. O placar magro, que havia sustentado um bom fim de primeiro tempo, tornou-se uma bigorna. O São Paulo, entre o “já não tenho nada a perder” e o “olha o Internacional cedendo espaços”, foi crescendo, insistindo e teimando.
E foi exatamente aí que o jogo mudou de tom.
O Inter recuou cedo demais, passou a administrar o resultado quando ainda havia tempo demais pela frente e permitiu que o adversário crescesse no meio-campo. O empate, portanto, não nasce do acaso, mas de um roteiro que o próprio Colorado ajudou a construir.
Quando restava somente um pequeno facho de luz e já se via entrar pela Avenida Padre Cacique o apito final, Calleri foi Calleri e acertou o fundo da rede, deixando tudo igual aos 39 minutos do segundo tempo.
Mais uma vez, viram-se escapar entre os dedos três pontos que pareciam simples, palpáveis e já materializados em uma conta importante dentro do Brasileirão. A tabela começa a se mostrar mais gentil com o Inter, mas o próprio time e seu curto elenco parecem sentir um pequeno e perverso prazer em complicar aquilo que poderia ser mais leve.
O 1 a 1 dentro de campo escancara aquilo que já se vê nas arquibancadas. E, apesar de um jogo razoável, amargado nos minutos finais, há de se enxergar como parece cada vez mais distante e ausente a relação do clube com a sua torcida: uma corda tensionada, estremecida e sustentada por dois lados igualmente errôneos.
Ainda que seja o próprio Belzebu o presidente da instituição, a pergunta que fica é: em que condição o torcedor tem regrado o seu próprio amor ao clube?
Por Jéssica Salini
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