Estados Unidos: O despertar do soccer 


Com grife de Pochettino e febre nas arquibancadas, EUA convocam os 26 nomes que tentarão reescrever a história em casa

A trajetória dos Estados Unidos em Copas do Mundo é bem mais antiga e relevante do que muitos imaginam, carregando uma tradição silenciosa que começou no século passado. A equipe masculina acumula 11 participações históricas no torneio antes de iniciar este ciclo de 2026. O ápice dessa caminhada aconteceu logo na edição inaugural de 1930, no Uruguai, quando os norte-americanos alcançaram as semifinais e terminaram oficialmente na terceira colocação.

Na era moderna, o maior momento da equipe aconteceu na Copa de 2002, na Coreia do Sul e no Japão. Sob a liderança do ícone Landon Donovan, os EUA bateram o rival histórico México nas oitavas de final por 2 a 0 e caíram de pé nas quartas para a Alemanha, por 1 a 0, em um jogo com polêmica sobre a linha do gol. Já em 1994, quando sediaram o torneio pela primeira vez, os donos da casa pararam nas oitavas de final contra o Brasil. Esse mesmo estágio de oitavas foi o teto da equipe em 2010, 2014 e na última Copa de 2022, no Catar, quando foram eliminados pela Holanda. Agora, a meta da seleção é romper de vez a barreira do “quase” e buscar voos mais altos diante de sua torcida.

Seleção convocada já estreou com vitória em amistoso contra o Senegal no domingo (31) — Foto: Cory Knowlton/ISI Photos/ISI Photos via Getty Images 




A febre da bola redonda

Se antes o futebol dividia opiniões e disputava as atenções de forma tímida, a febre da Copa do Mundo em casa mudou completamente o patamar do esporte no país. O esporte finalmente conquistou o público americano de um jeito nunca visto antes na história da terra do basquete.

Toda essa euforia atual é fruto de uma evolução que andou de mãos dadas com a própria história cultural do país, desde os tempos em que o esporte era visto como algo distante até o boom da Major League Soccer (MLS) nas últimas décadas. O esporte deixou de ser uma promessa para o futuro e virou o queridinho do presente.

Segundo dados de comportamento consolidados pela consultoria YouGov, a parcela da população americana que acompanha futebol de forma ativa subiu de 8% em 2022 para 12% em 2026. Entre os jovens de 18 a 34 anos — que englobam a Geração Z e os Millennials —, o engajamento com o esporte chega a impressionantes 22%, rivalizando diretamente com modalidades tradicionais. O motor desse crescimento histórico nos Estados Unidos é composto majoritariamente pela juventude e pela vibrante e gigantesca comunidade hispânica, que consome o esporte de forma apaixonada.

A intenção do público geral de dedicar tempo para assistir aos jogos praticamente dobrou em relação ao torneio do Catar. De acordo com os relatórios da YouGov, cerca de 14,4% dos adultos norte-americanos afirmam que vão parar para assistir ao campeonato de 2026, contra apenas 7,6% no ciclo anterior. O fator de jogar em casa é o principal combustível para esse fenômeno de audiência. Cerca de 43% dos fãs de esportes declaram abertamente que planejam assistir aos confrontos unicamente porque a Copa está acontecendo em solo americano.

A doutrina Pochettino e o raio-X dos 26 convocados 

No comando desse império esportivo está o renomado técnico argentino Mauricio Pochettino, contratado com status de grande grife internacional em setembro de 2024. Ele chegou com a missão de lapidar a chamada “Geração de Ouro” americana e logo impôs uma cultura de muita exigência e seriedade nos bastidores.

Ao longo de seus 19 meses de trabalho, o treinador avaliou minuciosamente mais de 70 jogadores antes de fechar a lista final. Pochettino deixou bem claro desde o primeiro dia que nenhuma estrela teria vaga garantida apenas por grife, nome ou por atuar em grandes ligas da Europa. A filosofia de trabalho do comandante foca em encontrar as peças certas e resilientes para resistirem a imensa pressão mental de um torneio deste porte dentro de casa. O foco é totalmente voltado para o coletivo, buscando fazer a equipe jogar com inteligência, personalidade e sem complacência com resultados ruins.

O elenco final anunciado oficialmente por Pochettino trouxe um equilíbrio cirúrgico e muita harmonia para o campeonato. A lista apresenta exatamente 13 veteranos remanescentes da Copa de 2022 e 13 estreantes absolutos que estão prontos para estrear no gramado mundial. Abaixo, confira os escolhidos divididos por posição:

Goleiros: Chris Brady (Chicago Fire), Matt Freese (New York City FC), Matt Turner (New England Revolution); 

Defensores: Alex Freeman (Villarreal), Antonee Robinson (Fulham), Auston Trusty (Celtic), Chris Richards (Crystal Palace), Mark McKenzie (Toulouse), Max Arfsten (Columbus Crew), Tim Ream (Charlotte), Miles Robinson (Cincinnati), Joe Scally (Borussia Mönchengladbach), Sergiño Dest (PSV); 

Meio-campistas: Brenden Aaronson (Leeds), Cristian Roldan (Seattle Sounders), Gio Reyna (Borussia Mönchengladbach), Malik Tillman (Bayer Leverkusen), Sebastian Berhalter (Vancouver Whitecaps), Tyler Adams (Bournemouth), Weston McKennie (Juventus). 

Atacantes: Alex Zendejas (Club América), Christian Pulisic (Milan), Folarin Balogun (Monaco), Haji Wright (Coventry City), Ricardo Pepi (PSV), Tim Weah (Olympique de Marseille). 

Confira os convocados e numerações da seleção americana para o Mundial de 2026  — Foto: Reprodução: USMNT/X

Frieza digital e os grandes esnobados da lista

O anúncio oficial realizado no Pier 17, em Nova York, não veio sem a sua dose de drama, fofocas e polêmicas de bastidores. A U.S. Soccer optou por avisar os atletas sobre suas convocações ou dispensas finais por meio de e-mails automáticos enviados na sexta-feira. A atitude fria e digital da comissão técnica rendeu críticas severas e debates acalorados na mídia esportiva local.

O maior e mais contestado corte da lista foi o meia-atacante Diego Luna, do Real Salt Lake. O jovem jogador era um dos rostos principais das campanhas publicitárias milionárias da emissora FOX para o torneio, mas acabou preterido de última hora por Alejandro Zendejas. No meio-campo, as ausências de Tanner Tessmann e Aidan Morris deixaram os analistas apreensivos, pois o setor ficou com poucas opções de marcação caso Tyler Adams sofra com problemas físicos. Por outro lado, a grande surpresa foi a inclusão de Sebastian Berhalter, filho do ex-treinador da seleção, que garantiu sua vaga graças ao excelente desempenho e maestria na bola parada pela MLS.

O caminho traçado até a glória em casa

Embora os analistas e críticos mais céticos saibam que os Estados Unidos não entram na competição como favoritos destacados diante de potências tradicionais da Europa e da América do Sul, jogar em casa transforma completamente o cenário. Com o apoio massivo de milhões de novos interessados e torcedores apaixonados, a expectativa interna é de realizar uma campanha histórica.

A caminhada oficial no Grupo D começa em Los Angeles, no dia 12 de junho, contra o Paraguai, no SoFi Stadium. Na sequência, todos os fãs do país empurrarão o time contra a Austrália, no dia 19 de junho, em Seattle, fechando a primeira fase contra a competitiva Turquia, de volta a Los Angeles, no dia 25.

Torcida americana dá o tom do espetáculo e adota de vez a bola redonda — Foto: John Dorton/USSF/Getty Images  

“Por que não nós?”

O sentimento que ecoa com força total nos bastidores para este início de torneio é de pura esperança e ambição. Durante a coletiva do anúncio oficial da convocação da seleção, Mauricio Pochettino fez questão de mandar um recado direto que blindou o elenco e incendiou o orgulho do país para a disputa.

As palavras do treinador serviram como o combustível perfeito para contagiar as arquibancadas e embalar a caminhada em solo americano. Ao ser questionado sobre o tamanho do desafio que os aguarda, o técnico resumiu perfeitamente o espírito da equipe com a seguinte frase emblemática:

“Por que não nós? Povo americano, o importante é sempre sonhar, é sobre fazer o impossível”.

Por Adrielle Almeida | 01/06/2026 01h32

*Esclarecemos que os textos trazidos nesta coluna não refletem, necessariamente, a opinião do Portal Mulheres em Campo


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