Todo dia é cansativo ser mulher de futebol, mas sair nunca foi uma opção


Até quando ser mulher no futebol vai significar se manter em constante vigilância? Até quando vai ser sinônimo de resistência? Jamais pela falta de paixão, de conhecimento ou de pertencimento, mas pela insistência de um ambiente que, ainda hoje, tenta nos convencer de que aquele não é o nosso lugar.

A sensação de não pertencimento não nasce do nada. Ela é construída aos poucos, nas entrelinhas, nos olhares, nos comentários atravessados e, principalmente, nas reações desproporcionais a qualquer tentativa de participação ativa. Toda mulher que já se permitiu viver o futebol, seja na arquibancada ou no campo, em algum momento foi levada a se sentir como uma intrusa em um espaço que sempre ajudou a construir.

Foto: Zhizhao Wu – Getty Images

E o que mais desgasta nem é a hostilidade direta que estamos expostas, porque isso a gente vive em todos os outros ambientes. O que mais machuca é a contradição. Ao mesmo tempo em que a presença feminina é questionada, diminuída ou até violentada, o próprio ambiente do futebol se mostra confortável em relativizar atitudes muito mais graves quando elas vêm de figuras masculinas.

Há uma tolerância seletiva que escancara prioridades: a opinião de uma mulher incomoda mais do que a violência cometida por um homem. Nesse contexto, decisões que deveriam ser tratadas com a responsabilidade que carregam acabam sendo reduzidas a questões puramente esportivas.

A contratação de Cuca pelo Santos Futebol Clube é um exemplo que ultrapassa o campo e se insere diretamente no debate social. Não se trata apenas de desempenho, currículo ou resultado, se formos parar pra pensar, quando foi a última vez que ele teve um trabalho que mereceu ser aplaudido? Trata-se do que se comunica quando se escolhe ignorar um passado marcado por uma acusação tão grave. O futebol, muitas vezes, não esquece, ele apenas decide o que está disposto a deixar de lado.

Esse tipo de escolha não acontece no vazio. Ela conversa com um cotidiano em que as mulheres continuam sendo mais cobradas, mais vigiadas e sempre menos toleradas. O episódio envolvendo a arbitragem no jogo entre Botafogo de Futebol e Regatas e Clube de Regatas do Flamengo, no Campeonato Brasileiro feminino, expõe com clareza essa disparidade.

O atraso, causado por um problema comum como o trânsito no Rio de Janeiro, resultou em punições severas às profissionais envolvidas. A questão que fica não é apenas sobre o erro em si, mas sobre o peso que ele assume dependendo de quem o comete.

Até porque se formos parar pra pensar, se o atraso foi tão absurdo para tais punições, por qual motivo ninguém se preocupou em comunicar às atletas o que estava acontecendo? Foi necessário que chegassem ao túnel de acesso para ouvir um “achei que ia dar tempo”?

Existe uma expectativa silenciosa de perfeição quando se trata de mulheres no esporte. Como se errar não fosse uma possibilidade legítima, mas uma confirmação de uma suposta inadequação. Como se cada falha precisasse ser exemplarmente punida para reafirmar um lugar que nunca nos foi dado com naturalidade.

Diante de tudo isso, permanecer no futebol deixa de ser apenas uma escolha ligada à paixão ou ao entretenimento. Passa a ser um posicionamento. Continuar ocupando esse espaço, consumindo, opinando ou trabalhando dentro dele é, em muitos sentidos, um ato político. E talvez seja exatamente isso que cause tanto incômodo. A permanência.

Porque, apesar de todos os sinais contrários, nós continuamos. Continuamos indo aos estádios, comentando jogos, construindo carreira, formando opinião e, acima de tudo, nos reconhecendo como parte legítima desse universo. Não porque fomos autorizadas, mas porque nunca deixamos de ser.

Por isso, a discussão já não deveria ser sobre até quando vão tentar nos tirar dos estádios, mas sobre até quando o futebol vai insistir em ignorar quem sempre esteve ali. O futebol não pertence a um gênero específico. Nunca pertenceu. Ele é, por essência, popular, coletivo e plural.

Cabe ao próprio futebol decidir se está disposto a acompanhar essa realidade ou se seguirá preso a uma lógica que já não se sustenta. Quanto a nós, a decisão já foi tomada há muito tempo: não vamos sair.

Por Rayanne Saturnino

*Esclarecemos que os textos trazidos nesta coluna não refletem, necessariamente, a opinião do Portal Mulheres em Campo


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