Entre a esperança e o esgotamento


Timão vira o jogo, sofre outra virada nos minutos finais e aumenta a angústia da torcida

Tem derrotas que terminam quando o árbitro apita, e tem derrotas que continuam dentro da gente muito tempo depois que o jogo acaba. A de ontem é dessas. Porque, por alguns minutos, o Corinthians fez a gente acreditar de novo. Fez a gente enxergar uma saída no meio de tanto sofrimento, sentir que talvez, finalmente, a noite terminasse com um sorriso e que pudéssemos respirar aliviados. Mas, quando a esperança parecia estar ao nosso alcance, ela escapou das nossas mãos da forma mais cruel possível. O Corinthians saiu perdendo, buscou a virada e, em questão de minutos, viu tudo desmoronar. E nós, mais uma vez, ficamos com a sensação de que acreditar está ficando cada vez mais difícil.

Reprodução

O primeiro tempo já mostrava que não seria fácil. O Corinthians saiu atrás no placar depois de uma falha defensiva e, mais uma vez, tivemos que correr atrás do prejuízo. Não era o cenário que precisávamos, não era o começo que esperávamos para uma partida tão importante. Mas o futebol ainda nos daria motivos para acreditar.

Na volta do intervalo, o Timão reagiu. Gustavo Henrique empatou, e Matheus Bidu virou o jogo. Em poucos minutos, saímos da frustração para a esperança. E não era uma esperança qualquer. Era a possibilidade de encerrar esse jejum, de conquistar três pontos fundamentais e, quem sabe, começar a mudar o rumo de uma temporada que tem sido tão dolorosa.

Naquele momento, a gente voltou a fazer o que sempre faz: acreditar. Talvez a gente estivesse precisando tanto de uma alegria que nos permitiu sonhar antes da hora. Mas como não acreditar quando o time consegue buscar a virada em um confronto tão importante? Como não imaginar que, finalmente, teríamos uma resposta dentro de campo?

Só que o Corinthians não conseguiu transformar a vantagem em tranquilidade. Com o placar favorável, o time perdeu força para manter a bola, sofreu a pressão do Vasco e não aproveitou a oportunidade de ampliar. As mudanças no meio-campo também levantaram questionamentos, porque o time precisava se defender sem abrir mão da capacidade de sair jogando. Não bastava resistir. Era preciso saber controlar a partida.E o que veio depois é difícil de explicar sem sentir novamente a frustração.

Aos 42 minutos do segundo tempo, Marino Hinestroza empatou. Naquele instante, a vitória que parecia tão próxima começou a escapar. Ainda havia tempo para tentar segurar o resultado, reorganizar a equipe e, pelo menos, sair de São Januário com um ponto. Mas, dois minutos depois, veio o golpe definitivo. O mesmo Marino marcou novamente, decretando a virada do Vasco e transformando a esperança corintiana em mais uma noite de tristeza.

Dois minutos. Foi esse o tempo necessário para que o Corinthians deixasse escapar uma vitória que parecia encaminhada. Dois minutos para transformar a alegria em desespero. Dois minutos para lembrar a nós, torcedores, que nem mesmo quando estamos na frente conseguimos ter a tranquilidade de acreditar até o fim.

E talvez seja isso que mais machuque. Não foi simplesmente perder. Foi ver o time reagir, mostrar que poderia vencer, nos dar motivos para acreditar e, depois, deixar tudo escapar quando a partida estava chegando ao fim. É a sensação de estar sempre perto de encontrar uma saída, mas acabar voltando para o mesmo lugar.

O resultado torna tudo ainda mais preocupante. Agora, o Corinthians depende de outros resultados para conseguir sair da zona de rebaixamento. Já não basta fazer a própria parte e buscar os pontos necessários. Precisamos olhar para os jogos dos adversários, torcer por tropeços e conviver com a ansiedade de saber que o nosso futuro também passa pelos pés de outros clubes.

Demorou até para que a situação da administração do clube refletisse de maneira tão evidente dentro de campo, mas parece que a conta finalmente chegou. As consequências de tudo o que acontece fora das quatro linhas não ficam isoladas nos bastidores. Em algum momento, elas atingem o futebol, o planejamento, a confiança e os resultados. E quem sente tudo isso de maneira mais cruel é quem está ali, acompanhando o time, jogo após jogo, sem poder fazer nada além de torcer.

O torcedor não merece isso. Não merece viver fazendo contas, temendo cada rodada e sentindo que uma temporada inteira pode terminar em uma tragédia esportiva. Não merece ver o próprio time desperdiçar oportunidades tão importantes e sair de campo deixando tantas dúvidas. Quem ama o Corinthians sabe que nem sempre vamos vencer, que haverá temporadas difíceis e derrotas dolorosas. Mas é muito difícil aceitar que chegamos a um ponto em que até uma vantagem no placar parece insuficiente para nos dar segurança.

Eu não sei mais o que pensar, o que sentir. Uma parte de mim quer continuar acreditando, porque é isso que fiz a vida inteira. A outra está cansada de criar expectativas e terminar as partidas tentando juntar os pedaços de mais uma decepção.

Quero acreditar que ainda dá tempo de mudar essa história. Quero acreditar que o Corinthians vai encontrar forças, que vai reagir e que ainda conseguiremos sair dessa situação. Mas confesso que, depois de ontem, falta força até para transformar esse desejo em esperança.

Não é falta de amor. Nunca foi. É o cansaço de quem ama demais, de quem sofre junto, de quem não consegue simplesmente desligar a televisão e esquecer que existe uma partida no dia seguinte. É o peso de carregar a preocupação com o clube mesmo quando a vida já nos exige tanto.

E não temos muito tempo para assimilar mais essa pancada. Na próxima sexta-feira, dia 30 de outubro, às 20h, o Corinthians volta a campo para enfrentar o Mirassol, na Neo Química Arena. Será mais uma decisão, daquelas em que não podemos pensar em outra coisa além dos três pontos. Jogaremos em casa, diante da nossa torcida, com a obrigação de dar uma resposta e tentar reverter esse cenário tão preocupante.

Depois do que aconteceu em São Januário, será preciso transformar toda essa frustração em reação. O Corinthians precisa entrar em campo sabendo o tamanho da responsabilidade que carrega e entender que não há mais espaço para desperdiçar oportunidades. A torcida vai continuar fazendo a sua parte, mas precisamos ver dentro de campo um time que lute até o último minuto, que proteja suas vantagens e que compreenda o quanto cada ponto vale neste momento.

Eu queria chegar a esse confronto com confiança, com a certeza de que o time vai reagir e de que ainda podemos mudar o rumo dessa história. Mas, depois de tudo o que aconteceu, é impossível não carregar o medo de mais uma decepção. Ainda assim, estaremos lá, torcendo, porque sabemos o tamanho da importância dessa partida.

O Corinthians ainda tem jogos pela frente. Enquanto houver possibilidade, eu vou querer acreditar. Mas não vou fingir que está tudo bem, porque não está. A tristeza é maior que qualquer discurso de motivação, e a realidade pesa mais do que as palavras que tentam nos consolar.

Eu só queria que o Corinthians nos desse um motivo para respirar. Que, por uma vez, a esperança não terminasse em decepção. Que a gente pudesse sentir orgulho de uma reação sem precisar se preparar para mais um golpe.

Porque a gente não abandona o Corinthians. Mesmo machucado, mesmo cansado, mesmo sem saber de onde tirar forças, continuamos aqui. Mas até quem nunca deixa de acreditar tem dias em que o coração pede descanso.

Por Roanna Marques

*Esclarecemos que os textos trazidos nesta coluna não refletem, necessariamente, a opinião do Portal Mulheres em Campo.


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