Jogo comum se joga, clássico se sente


Cruzeiro repete erros, se perde em campo e vê rival dominar clássico com autoridade

Foto: Gustavo Martins

Na noite de sábado (2), no Mineirão, o Cruzeiro saiu de campo derrotado por 3 a 1 pelo Atlético Mineiro e o placar, por mais duro que seja, ainda não foi capaz de traduzir o tamanho do desastre visto em campo.

Mais do que o placar elástico do adversário, o que se viu foi um time que, mais uma vez, se perdeu dentro do próprio jogo, acumulando erros, cedendo espaços e permitindo que o rival crescesse com naturalidade. Em uma noite que pedia imposição e resposta, a Raposa entregou exatamente o oposto: fragilidade, desorganização e a sensação incômoda de déjà vu para o seu torcedor.

O Cruzeiro entrou em campo carregando velhos problemas que até pareciam ter ficado para trás após o bom desempenho recente, mas voltaram a aparecer: uma defesa desatenta, um meio-campo que pouco conseguiu controlar o ritmo e um ataque sem poder de decisão nos momentos-chave.

Como diz a própria frase do vestiário: jogar bem para merecer vencer, e nessa noite o Cruzeiro não mereceu vencer.

Primeiro tempo

O cenário estava montado para um clássico eletrizante, mas o que se viu nos primeiros 45 minutos na Toca 3 foi um roteiro que o torcedor do Cruzeiro já conhece bem e odeia repetir: a especialidade da casa em ressuscitar mortos. Enquanto o Atlético-MG vinha em busca de afirmação, a Raposa resolveu ser o anfitrião mais generoso do futebol brasileiro.

O primeiro tempo mal tinha começado e o Cruzeiro já dava sinais de que sua defesa estava no modo caridade. Logo aos 11 minutos, a zaga bateu de cabeça e Minda não perdoou, abriu o placar após um cruzamento de Renan Lodi que cruzou a área como um fantasma. O VAR ainda tentou trazer um suspense para a torcida celeste, mas o gol foi confirmado, selando o primeiro golpe.

Dizem que o Cruzeiro tem um diploma honorário em medicina esportiva, pois ninguém recupera um time em crise tão rápido quanto ele. Mesmo com o Atlético-MG cedendo espaços e cometendo faltas, Ruan levou amarelo logo cedo e Everson chegou a se atrapalhar sozinho em um lance com Kaio Jorge, a Raposa não teve o instinto assassino para virar o jogo. Pelo contrário, tratou de dar mais oxigênio ao rival.

Aos 30 minutos, o que estava ruim ficou pior. Após consulta ao VAR, o árbitro assinalou pênalti para o Galo. Maycon com a frieza de quem sabe que o adversário estava entregue, deslocou o goleiro com facilidade. 2 a 0.

O final da primeira etapa foi um festival de interrupções e cartões. Alan Franco quase atropelou Matheus Pereira, levando o amarelo aos 47, e Renan Lodi terminou o tempo sentindo dores, símbolo de uma batalha física intensa. Enquanto isso, o Cruzeiro tentava chutes de longe com Arroyo e Kaiki, mas todos paravam no goleiro ou na própria falta de pontaria.

O juiz apitou o fim do primeiro tempo aos 52 minutos, deixando a torcida Celeste com um gosto amargo na boca e a certeza de que, para o Cruzeiro, jogar contra quem está mal é, na verdade, o maior dos perigos. Já que o Cruzeiro confirmou a fama de bom samaritano, dando dois gols de presente e trazendo um time que precisava de confiança de volta à vida.

Será que o milagre da ressurreição pode mudar de lado no segundo tempo, ou o Cruzeiro vai terminar de rezar a missa para o rival?

Segundo tempo

Se o primeiro tempo foi um banquete para o rival, a segunda etapa foi um verdadeiro teste de sobrevivência digno de um filme de ação caótico.

O Cruzeiro voltou do intervalo tentando desesperadamente apagar o incêndio, mas acabou descobrindo que, às vezes, quanto mais se mexe, mais o fogo se espalha. Faltaram atenção, intensidade e controle de jogo e a equipe se perdeu de vez em campo.

O Cruzeiro iniciou a etapa final com pressão. Kaiki e Matheus Pereira tentavam articular jogadas, e o Gerson até deu um chapéu em Minda para inflamar a torcida. Mas a reação esbarrava sempre na organização e na sorte do Galo, que sem Hulk achou o trevo de quatro folhas após a semana conturbada.

Aos 21 minutos, o plano da virada Celeste começou a desmoronar. Arroyo, que já estava pendurado, cometeu falta em Renan Lodi, levou o segundo amarelo e foi expulso. Com um a menos, a montanha para o Cruzeiro ficou ainda mais alta e impossível de escalar.

E como tragédia já era roteiro dessa partida, aos 25 minutos, Cassierra aproveitou a superioridade numérica e marcou o terceiro do adversário:3 a 0. O Mineirão parecia em silêncio fúnebre, mas o luto foi evitado com a torcida azul que não parou de cantar e apoiar o time.

Kaiki Bruno levou o vermelho aos 30 após uma entrada dura em Natanael. O Cruzeiro estava agora com dois jogadores a menos. Mas, para não dizer que o clássico foi unilateral no quesito expulsões, Lyanco também perdeu a cabeça aos 33, levou o segundo amarelo e deixou o campo, e até brigou com o próprio jogador do seu time.

Mesmo no cenário desastroso de jogar com nove homens, o Cabuloso encontrou um pouco de dignidade. Aos 38 minutos, Junior Alonso derrubou Kaio Jorge na área. Pênalti. O próprio Kaio Jorge assumiu a responsabilidade e, aos 40, bateu firme no canto para diminuir: 3 a 1.

O apito final veio após mais de 50 minutos de um futebol picotado e nervoso. O Cruzeiro saiu de campo com a lição amarga de que a vontade, sem disciplina e organização, é o caminho mais curto para a derrota em um clássico. A ressurreição do rival foi completa, e à Raposa restou apenas o gosto do suor e a frustração de uma reação que veio tarde demais.

Como diz o ditado: clássico não se joga, se ganha. E foi nesse cenário que o Trem Azul viu o adversário vencer com facilidade. Agora, resta recuperar a dignidade e voltar as atenções para a Copa Libertadores da América.

Próximo desafio

O Cruzeiro já tem mais um desafio importante pela frente. Pela fase de grupos da Copa Libertadores da América, a Raposa encara a Universidad Católica nesta quarta-feira (06), às 23h (horário de Brasília).

A partida será disputada no Estádio San Carlos de Apoquindo, em confronto válido pelo Grupo D da competição. Fora de casa, o Cruzeiro entra em campo buscando um resultado importante para seguir firme na briga pela classificação.

Por Mury Kathellen

*Esclarecemos que os textos trazidos nesta coluna não refletem, necessariamente, a opinião do Portal Mulheres em Campo.


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