Sob as mãos de Pezzolano


Sabíamos dos problemas que nos trouxeram até aqui. Não precisávamos de escolhas ruins para nos levar embora

Na noite desta quinta-feira (3), Grêmio e Internacional entraram em campo na Arena, às 20h, pelo jogo de volta das quartas de final da Copa do Brasil. Depois do 0 a 0 no Beira-Rio, era noite de decisão, de greNAL e de uma vaga na semifinal. E talvez seja justamente por isso que seja tão difícil engolir o que aconteceu nesses 90 minutos.

Limara Polli/AGIF

O Inter não precisava fazer nada extraordinário. Precisava fazer aquilo que já tinha mostrado que sabia fazer. Não era noite de querer inventar a roda.

Nos primeiros minutos, parecia que seria assim. O jogo começou intenso, com os dois times procurando espaços e tentando encontrar alguma brecha, embora sem grandes oportunidades. Faltava qualidade técnica para transformar algumas jogadas em chances realmente perigosas, mas havia entrega, disputa e aquela tensão que só um greNAL decisivo consegue colocar dentro de campo.

Até que, aos 13 minutos, o Grêmio abriu o placar. Depois de uma tentativa falha de cabeceio em uma cobrança de escanteio, a bola ficou viva na área e Carlos Vinícius apareceu para aproveitar. O gol doeu, mas o Inter não se entregou. Continuou tentando, porque ainda havia muito jogo pela frente.

O problema é que, naquela noite, não bastava tentar. Era preciso encontrar o jogo. E o Grêmio encontrou primeiro.

Aos 21 minutos, Amuzu acelerou em um contra-ataque e encontrou Carlos Vinícius livre. O atacante recebeu com espaço demais para uma partida daquele tamanho e fez 2 a 0. Em oito minutos, o que ainda parecia um greNAL aberto virou uma montanha para o Inter subir.

E foi aí que começou a ficar difícil não olhar para o banco e perguntar: por quê desse jeito?

O Internacional chegou para esse greNAL com mudanças importantes, não só na escalação, mas também na maneira de jogar. E mudar não é o problema. Às vezes é preciso mexer, tentar outra coisa, encontrar um caminho diferente. O problema é fazer isso justamente quando não existe espaço para descobrir se vai dar certo. E foi isso que me incomodou nessa noite.

Também seria injusto colocar tudo na conta de Pezzolano. A direção entregou a ele um elenco que está longe de ser dos melhores que o Inter já teve e, quando a gente olha para o banco, não encontra exatamente aquelas opções capazes de entrar e mudar uma partida desse tamanho. Isso é responsabilidade de quem montou o elenco e precisa, sim, ser cobrado. Mas isso não significa que eu tenha qualquer motivo ou, muito menos, a mísera intenção de defender Pezzolano, quando fica tão claro que as decisões tomadas para esse jogo colocaram o Inter em uma situação ainda mais complicada.

Foto: Ricardo Duarte/ SCI

Se as opções são poucas, mais importante ainda é saber escolher as que você tem. E o problema daquela noite foi justamente esse: Pezzolano mexeu naquilo que vinha funcionando, colocou o time para jogar de uma maneira que claramente não encaixou e, quando o Inter percebeu o tamanho do buraco em que estava, já tinha gasto energia demais tentando se encontrar.

Depois de 45 minutos correndo atrás de um time que não estava organizado, o Inter voltou para o segundo tempo sem mudanças e precisando buscar dois gols. A partir dali, não era só uma questão de pernas. Faltavam pulmão e, principalmente, cérebro para conseguir pensar o jogo enquanto o corpo já estava pagando a conta das escolhas feitas antes dele.

E é justamente aí que algumas decisões ficam difíceis de entender. Thiago Maia, há bastante tempo, não vinha apresentando futebol para ser tratado como uma peça capaz de mudar o rumo de uma partida e tampouco vinha sendo utilizado dessa maneira. Então por que justamente em um greNAL eliminatório ele aparece entre as escolhas para começar o jogo?

É preciso cobrar a direção pelo elenco que entregou e Pezzolano pelas escolhas que fez. Uma coisa não anula a outra. O Inter pode não ter um banco recheado de soluções, mas existe uma diferença entre não ter muitas opções e escolher mal entre as que você tem.E foi aí que começou a minha inquietação com aquela escalação. Não porque mudar seja errado, mas porque existe uma diferença enorme entre mudar por necessidade e mudar para experimentar. E eu ainda não consigo entender por que o jogo escolhido para isso precisava ser justamente esse: um greNAL, um mata-mata, uma vaga na semifinal da Copa do Brasil e um time que precisava entrar em campo seguro daquilo que estava fazendo.

Era como pegar a camisa que você sabe que funciona e, justo no jogo mais importante, resolver vestir outra para descobrir se fica melhor. Talvez a camisa nova até funcione em algum momento. Mas naquela noite não era hora de descobrir. Era hora de confiar na camisa da sorte.

E o Inter já tinha essa camisa.

Era o time que havia conseguido competir contra o Flamengo, que encontrou seu jogo diante do Corinthians e que, mesmo com todos os problemas dessa temporada, já havia mostrado que consegue responder quando a pressão aperta. Mas, no greNAL que valia uma classificação, Pezzolano escolheu outro caminho.

E o pior é que os sinais apareceram cedo. O time não encaixava, tinha dificuldade para se organizar, deixava espaços e começava a transformar esforço em correria. Ainda assim, o Inter foi para o intervalo perdendo por 2 a 0 e voltou para o segundo tempo sem mudanças.

Ali, confesso, começou a me faltar paciência. Não porque eu esperasse uma revolução no intervalo, mas porque não precisava ser nenhum gênio da prancheta para perceber que alguma coisa precisava ser feita. Quando uma escolha não funciona durante 45 minutos de um jogo que pode definir o destino de uma competição, você espera que alguém perceba, mexa e tente mudar o rumo antes que seja tarde.

O Inter voltou igual.E aí veio aquela velha conta que o torcedor conhece. Você precisa correr atrás do resultado, mas está correndo dentro de uma equipe que não encontrou seus encaixes. Corre mais, chega atrasado, ocupa espaços que não deveria ocupar e tenta compensar com esforço aquilo que deveria ser resolvido com organização. O desgaste que começou na cabeça vai parar nas pernas.

Por volta dos 12 minutos do segundo tempo, finalmente vieram as primeiras mudanças, com Vitinho e Carbonero nos lugares de Matheus Bahia e Bruno Gomes. Bernabei voltou para a lateral, sua função original, e o Inter tentava reorganizar aquilo que já deveria ter chegado organizado ao segundo tempo.Só que o relógio não espera a gente se acertar.

Aos 22 minutos, Amuzu tabelou com Tetê e encontrou Krovinović livre dentro da área. O croata bateu cruzado e fez 3 a 0. A essa altura, a classificação já parecia escapar pelas mãos.

Ainda teve o gol de Vitinho, aos 33 minutos, depois do cruzamento de Alan Patrick. E por alguns instantes apareceu aquela esperança meio irracional que só quem torce entende. Enquanto houver tempo, talvez dê. Talvez a bola entre de novo. Talvez aconteça alguma coisa.

Não aconteceu.

O Inter tentou até o fim, buscou a área e teve suas oportunidades. Não faltou vontade, e seria injusto dizer o contrário. O problema é que vontade não organiza time, correria não corrige posicionamento e desespero não substitui futebol. Principalmente quando boa parte da partida é gasta tentando consertar dentro de campo aquilo que deveria ter sido pensado antes dele.

E talvez seja isso que mais doa.Não é simplesmente perder para o Grêmio. É sair da Copa do Brasil em um greNAL com a sensação de que havia um Inter capaz de fazer aquela partida de outra maneira. A gente já viu esse time competir, jogar com coragem e encontrar soluções em noites grandes. Por isso a pergunta fica martelando: por que justamente hoje precisava ser diferente?

Em uma temporada que já cobrou demais do torcedor, cada oportunidade de respirar um pouco vale muito. A Copa do Brasil era uma delas. O greNAL era uma delas. A possibilidade de chegar a uma semifinal era uma delas. E o Inter entrou em campo com uma escolha que ainda precisava provar que funcionava.

Não funcionou.

Quando percebeu, já estava correndo atrás de um jogo que o Grêmio tinha colocado no bolso.

Pezzolano quis testar uma camisa nova quando o Inter precisava da camisa da sorte. E talvez seja justamente essa a imagem que melhor explique a eliminação: não faltou vontade, não faltou torcida e não faltou importância. Faltou reconhecer que aquela não era uma noite para inventar.

Era uma noite para confiar no que já funcionava.

E, no fim, sob as mãos de Pezzolano, o Inter ficou sem a classificação que tanto precisava.

Por Jéssica Salini

Esclarecemos que os textos trazidos nesta coluna não refletem, necessariamente, a opinião do Portal Mulheres em Campo


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