O Colorado não tem feito por merecer, mas a nossa história nunca foi construída apenas nos dias fáceis
No entardecer deste sábado (22), o Colorado volta a campo pelo Campeonato Brasileiro. O Internacional recebe o Atlético-MG pela 24ª rodada do Brasileirão, às 18h30. Depois de um jogo extremamente frustrante contra o Remo, em que deixou uma vitória importantíssima escapar pelos dedos enquanto se comportava como um virgem pego de calças na mão, o Inter volta ao Beira-Rio precisando, mais uma vez, fazer aquilo que parece ter se tornado uma obrigação neste campeonato: reagir.

E seria absolutamente desonesto dizer que aqueles dois pontos não fizeram estrago. Fizeram. Desanimaram, irritaram e deixaram aquela sensação amarga de que, mais uma vez, o Internacional conseguiu complicar aquilo que parecia estar em suas mãos, justamente quando a vitória parecia tão necessária quanto possível.
Começar a análise do que o Inter pode fazer diante do Galo sem levar em consideração o que aconteceu contra o Remo seria como ignorar as rachaduras em um barco grandioso. Um barco grande, imponente, é verdade, mas que vem sendo invadido por água por todos os lados.
O barco Colorado, lançado ao mar na temporada de 2026, partiu com a expectativa de que os ventos fossem suficientes para conduzi-lo. Foi colocado em alto-mar sem que ninguém tivesse certeza de que todos os equipamentos de segurança e de navegação estavam realmente a bordo e, a cada rodada, a cada semana que passa, é como se esse barco fosse perdendo pelo caminho pedaços de si mesmo.
Algumas peças foram retiradas, outras simplesmente se perderam, enquanto a tripulação tenta manter o barco navegando e as rachaduras continuam aparecendo, com a água entrando por lugares que já deveriam ter sido reparados há muito tempo.
Como se não bastassem as rachaduras pré-existentes, o capitão desse barco, que parece cada vez mais próximo de um precipício, terá de lidar com mais uma mudança no time. Matheus Bahia está suspenso para a partida e, para o lugar do lateral-esquerdo, Pezzolano precisará encontrar uma alternativa que não envolva simplesmente devolver Bernabei à sua função original.
A provável escalação colorada para enfrentar o Galo tem Matheus Cunha; Vitinho, Bruno Gomes, Mercado, Maripán e Aguirre; Villagra, Bruno Henrique e Bernabei; Alan Patrick e Carbonero. A escolha por Aguirre na lateral esquerda mantém Bernabei mais próximo do setor ofensivo, mas coloca sobre o uruguaio uma responsabilidade importante: oferecer profundidade e equilíbrio sem transformar o sistema defensivo em mais uma rachadura no casco de um barco que já navega com água entrando.
E talvez seja justamente aí que esteja a parte mais incômoda de tudo isso. Se esse barco tem tentado sobreviver no mar do Campeonato Brasileiro apesar das rachaduras, da pouca gasolina e das infiltrações, existe algo que ainda precisa ser feito e que não cabe somente a quem estará dentro de campo. Cabe a nós.
Mais do que isso, está acima de quem estiver em campo, acima de quem estiver no comando, indiferente a quem vestir a camisa nas quatro linhas. Porque, mais uma vez, pela gente e pelo Inter, precisamos estar lá: pela história que carregamos até aqui, por tudo aquilo que construímos até aqui e, no fim das contas, pelas cores que amamos acima de qualquer coisa.
Não é por ninguém além do Internacional.
E talvez essa seja a parte mais difícil de explicar quando o time não corresponde, quando as escolhas irritam, quando os resultados machucam e quando parece que o próprio clube faz questão de dificultar a tarefa de continuar acreditando. É quase irracional tentar explicar por que existe um compromisso tão forte em se fazer presente neste sábado quando temos vivido momentos tão difíceis, quando há tantas temporadas o Inter não nos entrega as alegrias grandiosas que deveria entregar pelo tamanho da sua história, pela dimensão da sua existência, pelo tamanho de quem é o Internacional.
É complicado olhar para o torcedor, sabendo que a direção tantas vezes parece não olhar para dentro do próprio clube, e dizer: “Cara, vamos lá. Vamos apoiar mais uma vez.” É complicado pedir que ele coloque o coração outra vez à disposição depois de tantas vezes ter saído do estádio com ele machucado. Mas, no fim das contas, é isso que precisamos fazer.
Você pode estar desanimado. Pode estar irritado. Pode até não acreditar tanto quanto acreditava antes. Mas ainda precisa estar lá. Precisa se fazer presente, se fazer grito, se fazer voz, se fazer aquela respiração que parece empurrar a bola e fazê-la encontrar uma curva que não estava desenhada; precisa ser aquele suspiro que atravessa o campo e, por um instante, faz o atleta acertar exatamente onde deveria acertar.
Não porque tudo esteja bem, nem porque alguém tenha feito por merecer, mas porque ainda somos nós e o Internacional. E talvez o Inter, neste momento, nem mereça que a gente esteja lá. Talvez tenha feito muito pouco para merecer. Talvez tenha nos dado mais motivos para reclamar do que para comemorar. Ainda assim, ele nos pede que estejamos.
E enquanto houver um escudo no peito, uma camisa colorada em campo e noventa minutos pela frente, ainda precisamos estar lá.
Por Jéssica Salini
*Esclarecemos que os textos trazidos nesta coluna não refletem, necessariamente, a opinião do Portal Mulheres em Campo