Antes que seja muito tarde, é hora de retomar as rédeas da razão e do sentimento
Este deveria ser somente mais um pré-jogo. Como tal, caberia falar sobre aspectos técnicos, analisar o adversário, apresentar contexto, data, horário e imaginar quais caminhos Paulo Pezzolano pode escolher para que o Internacional volte a competir em alto nível.
Era para estarmos discutindo apenas como o Colorado pretende vencer o Flamengo na noite desta quarta-feira (29), às 19h30, pela 21ª rodada do Campeonato Brasileiro sabendo da urgente necessidade de pontuar. Além disso, sobre quais soluções podem diminuir a diferença técnica, financeira e de momento entre duas equipes que hoje vivem realidades bastante distintas.

Poderíamos ir “á campo”, falar dos poucos dias de atividades entre a escalada de quarta derrota consecutiva e o que seria possível organizar em campo ou o possível XI inicial que deve ser: Anthoni (Sergio Rochet); Félix Torres, Mercado e Maripán; Vitinho, Bruno Gomes, Villagra, Bernabei e Matheus Bahia; Carbonero e Alerrandro.
Acontece que já não dá para viver “só” disso. Talvez tenhamos chegado tarde para esta conversa, talvez ela devesse ter acontecido semanas ou até meses atrás, mas ainda não tarde demais. Antes de olharmos para dentro das quatro linhas, talvez seja hora de olharmos nos olhos uns dos outros; nos meus, nos teus, naqueles cujas histórias talvez jamais conheçamos, mas cuja presença sabemos que encontraremos na bancada do Beira-Rio, na Avenida Padre Cacique ou em qualquer lugar do mundo onde o Internacional entrar em campo. Afinal, é ali que dividimos a alegria, a fé, o martírio e a glória de sermos colorados na mais absoluta intensidade.
Nós chegamos a 2026 escaldados. A última rodada de 2025 nos levou ao céu e ao inferno em questão de minutos, e o apito final nos devolveu o alívio de permanecer na Série A, mas também deixou expostas as consequências de anos de incompetência administrativa e financeira. Escapamos da queda, mas seguimos enlameados pelas marcas de tudo aquilo que foi mal conduzido e que continua sendo tratado de maneira esdrúxula, como demonstra mais um capítulo envolvendo o caso do zagueiro Victor Gabriel.
Também é verdade que ninguém iniciou esta temporada esperando milagres. O torcedor do Internacional conhecia as limitações financeiras, entendia que o elenco precisava de reconstrução e sabia que o caminho seria longo. O que ninguém imaginava era olhar para o Colorado em campo e enxergar um clube que parece abandonado pela própria direção.
Um time que sofre taticamente, compete abaixo fisicamente e transmite uma apatia anímica incompatível com o tamanho do escudo que carrega no peito. Há uma diferença enorme entre um clube que enfrenta dificuldades e um clube que passa a impressão de ter sido deixado à própria sorte, e é justamente essa sensação que mais machuca quem nunca deixou de acreditar.
Talvez seja justamente por isso que hoje seja preciso lembrar por quem nós vamos. Nunca foi por um presidente, por um dirigente ou por um treinador. Nem mesmo os nossos maiores ídolos explicam o sentimento que nos trouxe até aqui. Nós não amamos o Internacional porque um dia existiu Falcão, porque D’Alessandro escreveu páginas inesquecíveis da nossa história ou porque um gol entrou para a eternidade. Todos eles ajudaram a construir este clube, mas nenhum deles é maior do que ele. O que nos faz voltar ao Beira-Rio, viajar quilômetros atrás do time e reorganizar a vida em torno de uma tabela de campeonato é algo muito mais profundo: nós amamos o Internacional porque o Internacional é o Internacional.
Talvez seja justamente agora que precisamos reencontrar aquilo que sempre sustentou este clube. A sensação de olhar para um desconhecido depois de um gol e perceber que, naquele instante, vocês são exatamente a mesma pessoa. Um abraço que acontece sem pedir licença, um grito que sai da garganta de milhares de pessoas como se fosse um só, um sentimento que transforma desconhecidos em irmãos por noventa minutos. É como se dividíssemos um único coração entre milhares de almas, e talvez seja essa a lembrança de que mais precisamos agora.
Nós sabemos que existem quatro linhas que nos impedem de entrar em campo, mas também sabemos que qualquer colorado que ama este clube daria um pedaço de si para marcar um gol, impedir outro ou defender esse escudo, se isso realmente pudesse mudar o destino de uma partida. Como isso não nos é permitido, resta fazer aquilo que sempre esteve ao nosso alcance: estar presentes, empurrar, acreditar e lembrar, acima de tudo, por quem nós vamos. Porque dirigentes passam, jogadores passam, ídolos passam. O Sport Club Internacional permanece. E será sempre por ele que estaremos lá.
Assim, hoje vendo um caminho de pedras a que se deve andar o Inter ainda nessa temporada nos cabe como pedaços de uma história centenária escrevermos com nosso grito, com nossa voz, com nosso sentimento e com nosso apoio passar por cada desafio juntos pelo Internacional.
Por Jéssica Salini
*Esclarecemos que os textos trazidos nesta coluna não refletem, necessariamente, a opinião do Portal Mulheres em Campo.