Quarenta anos depois, Iraque volta a sonhar


Entre guerras, exílios e cicatrizes que atravessaram gerações, os Leões da Mesopotâmia voltam à Copa do Mundo para provar que alguns sonhos podem até ser adiados, mas jamais abandonados

Para muitos, uma classificação pode garantir apenas uma vaga na briga por um título. No entanto, para outros, uma classificação vale o sonho de uma geração inteira.

Quando o apito final soou em Monterrey e o Iraque confirmou seu retorno à Copa do Mundo, não se tratava apenas de uma seleção voltando ao principal palco do futebol mundial, mas sim de um país inteiro se reconectando a uma parte de si mesmo. Quarenta anos depois…

Foto: Reprodução FIFA

Quatro décadas se passaram desde a única participação iraquiana em um Mundial, no México, em 1986. Quarenta anos em que o futebol precisou sobreviver em meio a guerras, invasões, sanções econômicas, conflitos internos e uma rotina de incertezas que marcou gerações. Enquanto o mundo mudava, o Iraque permanecia preso em uma longa fila de espera.

Muitos dos que celebraram a classificação esse ano, sequer eram nascidos quando Ahmed Radhi marcou o único gol da história iraquiana em Copas do Mundo. Muitos cresceram ouvindo histórias de um país que um dia esteve entre os melhores da Ásia, mas que viu seus sonhos serem constantemente interrompidos por acontecimentos muito maiores do que qualquer partida de futebol.

Talvez por isso essa vaga tenha um peso tão diferente. Porque ela não nasceu de uma campanha tranquila, muito pelo contrário.

O Iraque precisou percorrer um caminho quase inacreditável. Foram 21 partidas, viagens intermináveis, mudanças de treinador, eliminações dolorosas e classificações escapando pelos detalhes. Houve derrotas que pareciam definitivas. Houve momentos em que a Copa parecia cada vez mais distante.

E houve a guerra. Enquanto outras seleções preparavam amistosos e treinamentos, os iraquianos precisavam lidar com espaço aéreo fechado, deslocamentos de ônibus por mais de um dia inteiro e a incerteza de quando conseguiriam chegar ao próximo destino. 

Jogadores ficaram retidos em aeroportos, o técnico Graham Arnold viu seu planejamento ser desmontado pela realidade. Ainda assim, seguiram, seguiram porque o futebol nunca será apenas futebol.

Para um povo acostumado a conviver com perdas, o esporte tornou-se uma das poucas linguagens capazes de unir milhões de pessoas ao mesmo tempo. Em Bagdá, Basra ou Mosul, pouco importa. Quando a seleção entra em campo, as diferenças desaparecem por noventa minutos. E agora ela está de volta!

Foto: Reprodução X – @IraqNT_EN

Os Leões da Mesopotâmia desembarcam na Copa do Mundo de 2026 carregando muito mais do que camisas verdes e expectativas esportivas. Carregam a memória dos que sonharam com esse momento e não puderam vê-lo acontecer. Carregam a lembrança de estádios vazios, de partidas disputadas longe de casa e de um país que passou anos tentando reconstruir a própria identidade.

Aymen Hussein, herói da classificação e principal esperança de gols, lidera uma geração que cresceu ouvindo sobre 1986. Ao lado de nomes como Zidane Iqbal, Ali Al-Hamadi e Ali Jassim, terá a missão de escrever um capítulo que seus antecessores nunca tiveram a oportunidade de escrever.

O sorteio não foi generoso. França, Senegal e Noruega os aguardam no Grupo I. Para alguns analistas, é um dos grupos mais difíceis do torneio. No entanto, talvez essa seja a menor das preocupações, porque o Iraque já venceu batalhas muito maiores para chegar até aqui.

A Copa do Mundo costuma ser um lugar cheio de estatísticas e de seleções que carregam décadas de tradição. Entretanto, de tempos em tempos, ela abre espaço para histórias que lembram por que o futebol continua sendo tão especial.

Quando os iraquianos entrarem em campo contra a Noruega, não estarão iniciando uma campanha, estarão encerrando um jejum de quarenta anos. E, independentemente do que acontecer depois, isso já é uma vitória que nenhuma tabela é capaz de medir.

Para essa missão histórica, Graham Arnold apostou em um grupo que mistura experiência, juventude e jogadores espalhados por diferentes ligas do mundo. No gol, a responsabilidade ficará com Jalal Hassan, Ahmed Basil e Fahad Talib. A defesa conta com Mirkhas Doski, Ahmed Yahya, Manaf Younis, Akam Hashim, Zaid Tahsin, Rebin Sulaka, Frans Putros, Hussein Ali e Mustafa Saadoun.

No meio-campo, setor responsável por dar equilíbrio e criatividade aos Leões da Mesopotâmia, aparecem nomes como Aimar Sher, Zaid Ismail, Amir Al-Ammari, Kevin Yaqoub, Zidane Iqbal, Ahmed Qasim, Ibrahim Bayesh, Ali Jassim, Yousef Amin e Marco Faraj. Já no ataque, as esperanças de gols ficam por conta de Ali Al-Hamadi, Aymen Hussein, Mohanad Ali e Ali Youssef.

São 26 jogadores que carregam a responsabilidade de representar milhões de iraquianos dentro e fora do país. Carregam a chance de transformar uma classificação histórica em uma história que o mundo inteiro possa conhecer.

Por Rayanne Saturnino 

*Esclarecemos que os textos trazidos nesta coluna não refletem, necessariamente, a opinião do Portal Mulheres em Campo


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