Vence o Clube do Povo do Rio Grande do Sul


Em noite de amor com seu torcedor, Colorado dá o primeiro passo rumo às quartas de final da Copa do Brasil

Depois de cinco jogos sem vencer, o Internacional voltou a comemorar. Na noite deste domingo (2), o Colorado derrotou o Corinthians por 2 a 0, no Beira-Rio, pelo confronto de ida das oitavas de final da Copa do Brasil, e construiu uma vantagem importante na busca por uma vaga entre os oito melhores da competição. Mais do que encerrar um incômodo jejum de vitórias, o time de Paulo Pezzolano deu uma resposta dentro de campo e reencontrou um caminho que há semanas parecia perdido.

Foto: Ricardo Duarte/ Sport Club Internacional

É verdade que não há nada decidido. Do outro lado está um Corinthians acostumado a grandes decisões, e clássicos nacionais raramente oferecem qualquer sensação de tranquilidade. A vantagem construída no Beira-Rio é importante, mas precisará ser defendida com a mesma entrega demonstrada nesta noite.

Dentro de campo, o caminho para a vitória começou por uma escolha que já havia apresentado bons sinais no empate diante do Flamengo. O Internacional abriu mão da posse de bola e aceitou que o Corinthians controlasse territorialmente a partida, especialmente nos primeiros 25 minutos da etapa inicial. Mas havia uma diferença importante entre ter a bola e saber o que fazer com ela.

O time paulista circulava a posse, ocupava o campo de ataque e empurrava o Colorado para trás, mas encontrava um adversário organizado, compacto e absolutamente comprometido com o plano de jogo.

O Inter soube sofrer. Fechou os espaços, protegeu a região central e obrigou o Corinthians a trabalhar a bola longe da meta colorada. Era um domínio territorial da equipe paulista, mas que pouco se transformava em perigo real.

Não demorou para o jogo assumir a cara que costuma ter quando Internacional e Corinthians se encontram. A história entre os dois clubes pesa, e pesa muito. Com poucas chances criadas na primeira etapa, foram as divididas, os choques e os confrontos físicos que incendiaram a partida. A cada lance mais duro, a rivalidade tratava de lembrar que aquele era mais do que um duelo de oitavas de final; era um clássico nacional em que nenhum centímetro de campo seria conquistado sem disputa.

Aos poucos, porém, o cenário começou a mudar. Com a necessidade de avançar suas linhas e buscar mais presença no campo ofensivo, o Corinthians passou a oferecer alguns espaços que até então não apareciam. Foram poucas oportunidades, mas elas existiram, e o Internacional começou a encontrar os caminhos para machucar o adversário.

A equipe colorada ainda não foi plenamente efetiva nas primeiras chegadas e Hugo Souza precisou trabalhar apenas uma vez durante os 45 minutos iniciais. Mas havia um sinal importante: o Inter havia identificado onde poderia explorar o adversário. Mais do que criar grandes chances naquele momento, começou a ganhar confiança de que o jogo também poderia ser disputado no campo ofensivo. Antes de encontrar o gol, o Internacional encontrou o caminho.

Para a segunda etapa, os dois times retornaram sem mudanças nas escalações, mas havia uma diferença importante: o Internacional voltava diferente. Não necessariamente pelas peças em campo, mas pela forma como passou a interpretar a partida.

Nos minutos iniciais, o Corinthians tentou acelerar novamente o jogo, adotando uma postura mais agressiva e buscando pressionar o Colorado de maneira mais direta. Mas, ao contrário do início do primeiro tempo, o Inter já não apenas resistia. A equipe passou a ser mais sagaz nas escapadas, aproveitando os espaços deixados pelo adversário e mostrando que também poderia controlar o ritmo da partida a partir das transições.

Se em alguns momentos as brechas deixadas pelo Corinthians fizeram o Internacional parecer chegar de forma quase solitária ao campo de ataque (como aconteceu nas escapadas com Carbonero e Bernabei, ambos encontrando espaços, mas isolados diante da defesa adversária), foi justamente em uma jogada menos desenhada que o Colorado encontrou o caminho do gol.

Aos 15 minutos da etapa complementar, em um lance de bate-rebate, em uma bola que parecia despretensiosa e em um momento da partida mais marcado pela disputa do que pela construção ofensiva, Matheus Bahia arriscou. O chute encontrou o caminho da rede e abriu o placar para o Internacional.

O gol não veio por acaso. Veio de uma equipe que havia entendido a partida e encontrado o momento certo para atacar.

Foto: Ricardo Duarte/ Sport Club Internacional

Mas se dentro das quatro linhas o Internacional encontrou forças para construir a vitória, fora delas havia outro jogador vestindo vermelho e branco. A torcida esteve presente em cada momento da partida: no grito que empurrava, no suspiro que acompanhava cada ataque adversário, nos segundos em que o Corinthians parecia perto de encontrar um espaço e o Beira-Rio inteiro segurava a bola junto com a própria respiração.

O torcedor colorado esteve ali mais uma vez pelo amor à camisa. Mesmo carregando as dúvidas de quem vinha sofrendo com os últimos resultados, entrou em sintonia com a equipe, transformou a arquibancada em combustível e fez parte daquilo que aconteceu em campo. Não apareceu na escalação, não ocupou um espaço entre os onze jogadores, mas jogou. Porque existem noites em que a magia do futebol permite que a paixão atravesse a linha lateral.

A partir dali, juntos, jogando como quem canta a mesma canção, o Internacional de dentro de campo e o Internacional de fora das quatro linhas passaram a caminhar na mesma direção. Era o reencontro entre equipe e arquibancada que o torcedor tanto esperava.

E se o Corinthians já encontrava enormes dificuldades para superar a defesa colorada, aqui graças a segurança imposta pelas atuações de Guillermo Maripán e Gabriel Mercado, depois do gol o cenário parecia ainda mais complicado para a equipe paulista. O Inter havia encontrado a vantagem, e também a confiança para competir, sofrer e controlar os momentos decisivos da partida.

Seis minutos depois, aos 20′ da etapa complementar, o Internacional ampliou a vantagem. Em uma jogada que parecia caminhar para mais uma disputa comum, Bruno Gomes insistiu no lance, entrou na área e acabou derrubado. A arbitragem apontou a penalidade máxima, e Alan Patrick assumiu a responsabilidade.

Com a tranquilidade de quem conhece o peso dos grandes momentos, o camisa 10 bateu firme e colocou números finais no placar: Internacional 2, Corinthians 0.

O futebol ensina, e o torcedor colorado aprendeu isso da forma mais dolorosa ao longo dos últimos anos, que muitas vezes é mais difícil sustentar uma vantagem do que construí-la. O 2 a 0 ainda deixava um longo caminho até o apito final, e o Internacional sabia que precisaria administrar não apenas o placar, mas também o desgaste físico de uma partida extremamente intensa.

Foi nesse momento que Paulo Pezzolano voltou a mostrar leitura de jogo. As substituições não tiveram um caráter apenas ofensivo ou defensivo; foram estratégicas. Serviram para manter a intensidade da equipe, renovar o fôlego e impedir que a imposição física de um Corinthians obrigado a buscar o resultado se sobrepusesse à sobriedade de um Internacional que entendia exatamente o que precisava fazer para preservar a vantagem construída.

Dali em diante, era preciso sustentar. Era preciso ocupar os espaços com inteligência, administrar o tempo e compreender que dois gols de vantagem ainda não representavam a classificação. Quem corre atrás do resultado costuma trocar a paciência pela pressa. E, não raras vezes, quem vence acaba cedendo ao desespero da própria partida e vê uma vitória escapar entre os dedos.

Naquela noite, porém, o Internacional não permitiu que isso acontecesse. Embalado pelas arquibancadas, sustentado por uma dupla de zaga irrepreensível e respaldado por mais uma grande atuação de Matheus Cunha, o Colorado administrou o jogo com maturidade. Quando foi preciso sofrer, sofreu junto. Quando foi preciso disputar cada bola, disputou. E quando o Corinthians tentou transformar a pressão em esperança, encontrou um time disposto a defender cada metro do Beira-Rio como se dele dependesse a reconstrução da confiança.

Mais do que defender o resultado, o Colorado soube administrá-lo. Não houve desespero, nem a sensação de um time acuado esperando o relógio correr. Houve organização, maturidade e uma equipe que, pela primeira vez em muito tempo, transmitiu segurança também quando precisou sofrer sem a bola.

O apito final confirmou uma vitória importante, mas seu maior significado talvez não esteja apenas na vantagem construída para o jogo de volta. Depois de semanas de incertezas, o Internacional voltou a oferecer ao seu torcedor algo que nenhum placar, por si só, é capaz de garantir: esperança. O Clube do Povo venceu porque soube competir, interpretar o jogo e honrar a camisa que vestia. Foi uma bonita e grandiosa noite de amor às margens do Beira Rio.

Por Jéssica Salini

*Esclarecemos que os textos trazidos nesta coluna não refletem, necessariamente, a opinião do Portal Mulheres em Campo.


Deixe um comentário

Veja Também:

Faça o login

Cadastre-se