A Copa do Mundo dá as boas-vindas à Terra da Sodadi 


Cabo Verde participará do torneio pela primeira vez

A narrativa do futebol é fascinante justamente porque, de tempos em tempos, ela resolve abrir espaço para o inédito. Enquanto o mundo se acostumou a ver potências tradicionais dividindo os holofotes e desenhando as linhas de hegemonia nos gramados globais, o esporte respira e se renova quando a periferia do mapa da bola decide reivindicar o seu lugar de direito. Quando a bola rolar para a próxima Copa do Mundo, não serão apenas as camisas pesadas ou os elencos bilionários que ditarão o ritmo da festa. Haverá poesia flutuando no ar.

Foto: Reuters/Rogan Ward

Cabo Verde, um pequeno e resiliente arquipélago de dez ilhas vulcânicas espalhadas pelo Oceano Atlântico, carimbou seu passaporte e participará do torneio pela primeira vez na história. É o ápice de uma jornada de superação, talento cru e uma paixão que desafia qualquer lógica geográfica ou financeira. Os Tubarões Azuis estreiam dia 15 de Junho, diante da favoritaça Espanha, no Mercedes-Benz Stadium, em Atlanta.
Falar de Cabo Verde é, obrigatoriamente, falar de sodadi. Se tu acompanha futebol, com certeza sabe que o esporte vive de sentimentos, e esse conceito, imortalizado na voz visceral e inconfundível de Cesária Évora, traduz a alma de um povo. A sodadi é aquela mistura profunda de melancolia, de distância de casa e do desejo ardente do retorno. É uma palavra que molda a identidade de uma nação marcada pela migração e pela tentativa de pertencer em todos os lugares enquanto busca preservar o seu. 

Contudo, desta vez, a sodadi não viaja na bagagem como um lamento de partida. Ela se transforma em combustível, em orgulho e no berrar de uma torcida espalhada pelos quatro cantos do planeta, finalmente unida sob uma mesma bandeira no maior palco do esporte.

Os Tubarões Azuis construíram sua classificação com base em uma mistura irresistível de organização tática e o tempero único dos atletas que trazem a vivência de ligas periféricas da Europa e do futebol local. O elenco comandado pelo professor Pedro Leitão Brito, o Bubista, provou que tamanho de território não define em absolutamente nada o tamanho de um sonho.

Pela minha experiência, cada lusófono que acredita em uma união dos países por sua língua assistiu a essa classificação com o coração na boca. Bom, eu, pelo menos, assisti. Nada era mais importante do que ver nossos irmãos que enfeitaram o português tendo a chance de estar sob os olhos de todo o mundo, iluminados pelos holofotes mais importantes do esporte. 

Cada erro foi sentido não apenas na capital Praia ou em Mindelo, mas em Boston, Lisboa, Roterdã e Paris, onde a imensa diáspora pulsou em sintonia com o arquipélago. E, com a mesma intensidade, cada gol fez unir Brasil, Angola, Guiné Bissau, Guiné Equatorial, Moçambique, São Tomé e Príncipe, Timor Leste, Macau e seja lá onde mais existam alguns de nós. A classificação de Cabo Verde foi mais do que uma conquista esportiva. Foi um grito de libertação.  

Foto: Ben do Rosario

Para essa missão incomparável, o comandante Bubista chamou os seus 26 guerreiros que levarão o manto azul para a América do Norte. Uma mistura de lideranças calejadas com a juventude que quer morder o mundo:
• Goleiros: Vozinha, Márcio Rosa e CJ dos Santos.
• Defensores: Logan Costa, Pico Lopes, Diney Borges, Steven Moreira, Wagner Pina, João Paulo Fernandes, Sidny Cabral, Kelvin Pires e Ianique ‘Stopira’.
• Meio-campistas: Jamiro Monteiro, Kevin Pina, Deroy Duarte, Laros Duarte, Telmo Arcanjo e Yannick Semedo.
• Atacantes: Ryan Mendes, Garry Rodrigues, Willy Semedo, Jovane Cabral, Dailon Livramento, Gilson Benchimol, Hélio Varela e Nuno da Costa.

Ao todo, são 15 ligas espalhadas por 26 atletas que sabem exatamente o tamanho do desafio que lhes foi imposto. De todos os atletas, apenas o defensor Logan Costa joga em um time que frequenta uma das 5 principais ligas do mundo. O zagueiro defende as cores do Villarreal em La Liga e, aos 25 anos, aprende que uma das camisas mais pesadas da Espanha é uma pluma perto da responsabilidade de abrir sorrisos nos rostos do seu povo. Assim como a satisfação de fazer isso também é incomparável!

Muitos analistas apressados já começaram a fazer contas, traçando prognósticos baseados em estatísticas frias e no ranking da FIFA, prevendo que a caminhada dos estreantes terminará logo na fase de grupos após cruzarem com espanhóis e uruguaios. Para esses, eu digo que falta um pouco de calor e um olhar atento para a verdadeira essência do futebol. Amar o esporte é, afinal, amar o improvável e acreditar no inacreditável.

Foto: Cristiano Barbosa/FIFA

Falar de futebol é – e deve ser – falar de muito mais do que só sobre a tática e a bola rolando. O futebol é sobre o grito da torcida, o sentimento de pertencimento, o gol salvador nos últimos segundos, a falha que vira aprendizado, o pré jogo com os amigos, o choro da derrota em braços quentes, a cidade e o país todo trajados das mesmas cores e sobre tudo que nos faz sentir alguma coisa. Enquanto eu acredito nestas zebras, não me chame de ingênua, me chame de romântica!

É óbvio que o desafio é gigantesco. No entanto, se o futebol fosse decidido apenas pelo favoritismo teórico, as surpresas não existiriam e o esporte perderia a magia. Podemos ver os números ou podemos encarar a estreia sob as lentes do orgulho de um povo inteiro e da força de quem já venceu as maiores barreiras sociais e geográficas para chegar até aqui. Se assistirmos ao jogo com o coração aberto, poderemos notar cada nota de sodadi se transformar em grito de gol ou mesmo em afeto. 

Eu amo os azarões porque eles, sim, têm algo pelo que lutar. Então, sejam bem-vindos Cabo Verde, Curaçau, Jordânia, República Democrática do Congo e Uzbequistão. Sintam-se em casa e engrandeçam a festa. Aliás, bem-vindos de volta Haiti, Noruega, República Tcheca e Iraque. Não fiquem tanto tempo sem aparecer. 

Se eu quisesse ver só europeu se degladiando, via a Eurocopa. O que eu quero é ver todas as cores do mundo representadas em uma competição democrática e acolhedora. Isso é Copa do Mundo e ela está prestes a descobrir que sodadi pode não ter tradução, mas tem MUITO significado!

Por Luiza Corrêa

*Esclarecemos que os textos trazidos nesta coluna não refletem, necessariamente, a opinião do Portal Mulheres em Campo.


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