Dezenove anos e uma traição depois…


Juventude supera o São Paulo em casa e garante o pix de R$3 milhões da CBF

Na noite desta quarta-feira (13), o Juzão recebeu o Tricolor Paulista no Alfredo Jaconi, em Caxias do Sul, para decidir quem avançaria na Copa do Brasil. O time do São Paulo vive um momento de crise, é verdade. Mesmo assim, havia dúvidas se o elenco limitado do Juventude seria o bastante para segurar o ímpeto do Tricolor. No final das contas, a máxima é uma só: não existe nada mais assustador do que o Alfredo Jaconi em uma noite fria de quarta-feira. 3×1 para o Papão fora o baile e uma atuação digna de Trapalhões dos adversários.

Porthus Junior/Agência RBS

As odds não estavam a favor do Juventude – como dificilmente estão. Boa parte da mídia e torcedores de times que nada tinham a ver com o confronto carregavam a certeza de que o São Paulo seguraria um empate com facilidade e garantiria sua vaga nos erros do Ju. Vendo o prognóstico, seria até fácil cair nessa besteira.

Para início de conversa, o Papão está amargando a nona colocação na Bzona e não vem performando o suficiente para encher os olhos da sua torcida. Além disso, atrás no placar, o Alviverde não poderia usar três de seus principais jogadores contra o São Paulo. O goleiro Jandrei, o lateral-esquerdo Patryck Lanza e o volante Iba Ly pertencem ao Tricolor e custariam R$1 milhão cada um para serem usados. Ou seja, se jogassem, o Ju teria de desembolsar o valor da premiação por passar de fase para o adversário.

Para adicionar ao tom melancólico da possível eliminação em casa, o Juventude não ganhava do São Paulo no Alfredo Jaconi há dezenove anos. Dezenove anos que a fortaleza da Papada não surtia o efeito que inebria qualquer carioca ou time da capital quando visitam Caxias do Sul. Em meio a uma crise moral, financeira e administrativa, o Tricolor precisaria se agarrar nessa mística para avançar na única competição que eles teriam chance de ganhar. Uma pena – para eles – que a mística do Jaconi só funciona para um lado.

Pegando todos que não estão acostumados a assistir o Maior do Interior jogando, o Juventude iniciou o jogo controlando todas as ações da partida. Um São Paulo cansado e perdido se apresentou errando muitos passes e sem pensar muito bem sua posse de bola. Enquanto isso, o Juzão – que não tem nada a ver com os problemas dos outros – aproveitava para aumentar seu volume de jogo e trazer perigo à meta de Rafael.

Aos 10 minutos de bola rolando, o camisa 5 alviverde, Luan Martins, finalizou para fora como resultado de uma grande pressão dos donos da casa. Como não tomar conhecimento de tricolores é costume no Jaconi, o Papão seguiu atacando e levando tudo que estivesse à sua frente para testar o goleiro Rafael. Alan Kardec, Luan Martins, Marcos Paulo, Gabriel Pinheiro… Chute cruzado, no ângulo, no cantinho e nada de sair o gol.

Como cada um precisa jogar com o que tem, o São Paulo apresentou as únicas coisas que ainda conseguia fazer: falta e cera. Sabemos muito bem que a situação física dos jogadores do Trikas não está nada bem, mas não é desculpa para que eles caíam toda hora e muito menos para que Calleri deixe seu braço no rosto de Rodrigo Sam. Uma agressão clara e sem qualquer explicação que não recebeu nem um cartão amarelo, mas tudo bem. A gente tá acostumado com isso contra times do eixo.

O negócio de verdade é que Ferreirinha, ponta-esquerda do São Paulo, que entrou no lugar do lesionado Luciano decidiu fazer justiça com as próprias mãos. Ou melhor, com os braços. Com 33 segundos em campo, o camisa 11 decidiu agredir o mesmo Rodrigo Sam com uma pancada atrás da sua cabeça e levou vermelho direto, deixando o São Paulo com dez jogadores, como deveria estar há muito tempo.

Na segunda etapa, com um a mais, foi quando pudemos ver que a vingança é um prato que se come frio como as noites de Caxias do Sul. A questão, minha cara leitora, é que na casamata do São Paulo estava ninguém mais, ninguém menos que um dos maiores traidores da nossa história recente. Roger Machado, o homem que largou sua sequência brilhante no interior para salvar e depois acabar com o Internacional – e com o pouco respeito profissional que alguns ainda tinham com ele -, nem queria estar ali. Fontes dizem que ele tentou se demitir no Morumbis mesmo, logo após o jogo de ida. Contudo, quis o destino que ele fosse obrigado a pisar na grama verde do Alfredo Jaconi mais uma vez.

Me chame de rancorosa, eu honestamente não me importo. Eu só me importo com o fato de que este homem largou um dos trabalhos mais promissores da carreira dele por um time da capital e se perdeu completamente desde então. E vai continuar perdido porque não sabe o que está fazendo. O único mapa que ele sabe ler o levou até Caxias mais uma vez e o destino foi o único que lhe cabia: a eliminação com direito a goleada e flauta nas redes sociais.

Aos 20 minutos do segundo tempo, a ruína – que já havia começado – se tornou cada vez mais real. Depois da cobrança de um escanteio, a zaga decadente do São Paulo tentou afastar, mas Marcos Paulo, jogador extremamente decisivo, levantou a pelota na área. Gabriel Pinheiro, do alto dos seus 1,87m, pulou mais que todo mundo e testou para dentro. O astro Rafael não teve o que fazer a não ser ver de pertinho o empate no agregado acontecer.

Fernando Alves

Sete minutos depois, os visitantes continuavam faltosos e acabaram derrubando um jogador do Juzão perto da área. Raí Silva no cruzamento, Marcos Paulo respirando rarefeito e a bola novamente no cantinho da meta tricolor. Sem tempo de respirar, sem tempo de responder.

Naquele momento, eram 10 tricolores contra os mais de 6000 jaconeros em campo e nas arquibancadas. Nem o frio foi o bastante para apagar o fogo que se espalhou por todo o estádio quando o segundo gol foi marcado. Independente do acontecesse ali, todos sabiam como a noite terminaria.

Entretanto, se não há intercorrências, não é o Juzão. Aos 39’, Bobadilla achou Gonzalo Tapia para diminuir e deixar tudo empatado no agregado. Seis minutos depois, o São Paulo até teve chance de empatar o jogo e acabar com as chances da classificação do Ju, mas foram ineficientes. O que poderia ser mais histórico do que humilhar um adversário e um traidor em uma disputa de pênaltis, mesmo sem a quebra do tabu de não conseguir vencer em casa?

Eu sei! Humilhar um adversário e um traidor se classificando nos acréscimos com o gol da maior estrela do time. Aos 48 minutos do segundo tempo, Fábio Lima recebeu a bola do jogo na meia direita. Ele dominou e o tempo parou. O atacante precisou ler o campo, os jogadores e entender qual seria o melhor jeito de acabar com aquilo o mais rápido possível. Precisava ser preciso e eficiente. Sorte dele que ele não estava sozinho.

Guiando seu pé estavam todos os Jaconeros presentes no Jaconi e todos os Jaconeros que assistiam de casa, nos bares, no trabalho escondidos ou mesmo os que ouviam nos rádios de seus carros. Cada um destes torcedores tomaram a decisão junto com Fábio e guiaram a bola diretamente em um cruzamento perfeito.

Cruzar? Tu me pergunta. Não era a bola do jogo? Ele vai cruzar? Pra quem? Ele acha mesmo que o São Paulo vai tomar um terceiro gol igual? Bom, eu não tenho como saber o que ele pensou. O que eu sei é que na força do canto da torcida mais apaixonada do interior, a pelota foi teleguiada até a cabeça que mais merecia fechar este jogo.

Mandaca testou para baixo e… Rafael defendeu. Acabou o sonho? É assim que acontece? O Juventude vai levar nos pênaltis?

Não! Rafael até defendeu, mas a bola subiu para que Mandaca pudesse ter uma segunda chance. De olhos fechados, coração pulsando e sendo completamente levado pelos gritos da torcida, o camisa 44 testou mais uma vez e, dessa vez, estufou as redes.

Fernando Alves

Com dois minutos restando no relógio, Roger Machado era vaiado por ambas as torcidas. A torcida do São Paulo com o rancor de ter perdido Crespo e a única chance de título prometida pelo próprio argentino. A Papada, por outro lado, berrava ao se sentir vingada. Eu não vou ser egocêntrica de dizer que “ninguém morre nos devendo”, mas eu estaria mentindo se dissesse que o gosto de ver chorando quem um dia só nos fez chorar não é doce.

No final das contas, eu não sei para onde vai Roger Machado e eu não me importo com quem vai assumir o São Paulo. Aliás, nenhuma dessas coisas é relevante. A única coisa relevante é que, contra tudo e contra todos, o Juventude quebrou o tabu, goleou, se classificou e aqueceu a noite mais fria do ano até agora.

Mamãe CBF, pode fazer o pix porque o coisa ruim não morre, ele só volta pior! Que venha a próxima vítima, o Jaconi tá esperando…

Por Luiza Corrêa

*Esclarecemos que os textos trazidos nesta coluna não refletem, necessariamente, a opinião do Portal Mulheres em Campo.


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