Valendo vaga nas quartas de final da Libertadores, Coringão encara o Rosario Central em Itaquera do jeito que a Fiel gosta: na raça, no sofrimento e com aquele toque de loucura que só o Corinthians sabe proporcionar
Tem jogos que terminam quando o árbitro apita. E tem jogos que parecem continuar dentro da gente por horas. O duelo entre Corinthians e Rosario Central foi exatamente assim.
Foi daqueles jogos em que o torcedor não assiste. O torcedor sofre. Xinga, reclama, perde a voz, coloca a mão na cabeça, olha para o relógio a cada dois minutos e, no fim, quando percebe, está comemorando como se tivesse acabado de conquistar o mundo.
Depois do empate sem gols na Argentina, o Corinthians precisava vencer para seguir vivo na Libertadores. Do outro lado, um Rosario Central disposto a transformar cada minuto em uma batalha e, em Itaquera, batalha nunca faltou.

A Fiel fez sua parte desde o primeiro minuto, empurrando o time e tentando carregar o Corinthians para as quartas de final. Mas o gol insistia em não aparecer. O jogo era truncado, nervoso, daqueles em que qualquer detalhe poderia decidir o destino dos dois times.
Como se o coração do corinthiano já não estivesse suficientemente apertado, veio o segundo tempo.Raniele acabou expulso após uma entrada que, depois da revisão do VAR, deixou o Corinthians com um jogador a menos. Naquele momento, confesso: bateu aquele medo conhecido. A sensação de que a classificação, que já estava difícil, poderia escapar justamente quando o time mais precisava de tranquilidade.
Foi então que Memphis Depay entrou em campo.
Depois de toda a novela envolvendo sua permanência no Corinthians e de um longo período afastado dos gramados, o holandês voltou justamente em uma noite em que o Timão precisava de alguém capaz de mudar o jogo. E Memphis mudou.
Não precisou de muito para fazer a torcida acreditar novamente. Sua presença trouxe outra energia ao ataque, e, junto com ele, pareceu entrar em campo um pouco mais de esperança.
O Rosario Central ainda teve sua chance. E que chance… Copetti ficou cara a cara com Hugo Souza e teve nos pés a oportunidade de colocar o Corinthians em uma situação ainda mais complicada, mas a bola foi para fora.
Talvez fosse o aviso que faltava: ainda não acabou. E não tinha acabado mesmo.
Quando a partida caminhava para aquele momento em que o torcedor já começa a pensar em tudo o que pode dar errado, veio a bola parada. Memphis cobrou, e Breno Bidon apareceu.
O garoto do Terrão desviou a bola para o fundo das redes e fez a Neo Química Arena explodir. GOL DO CORINTHIANS! 1 a 0.
Naquele instante, pouco importava se o gol tinha sido bonito ou não. Pouco importava se o Corinthians estava com um jogador a menos. Pouco importava tudo o que havia acontecido antes. A bola estava dentro. A Fiel estava em êxtase. E o Corinthians estava, naquele momento, nas quartas de final da Libertadores.
Mas ainda faltavam alguns minutos. E nós, corinthianos, sabemos que alguns minutos podem durar uma eternidade. O Rosario Central foi para cima, e o Corinthians precisou resistir. Foi bola afastada, dividida, carrinho, defesa, grito da arquibancada e coração na boca. Era como se cada jogador soubesse que não estava defendendo apenas uma vantagem. Estavam defendendo o sonho de milhões.
E então veio o apito final. Acabou. O Corinthians estava classificado.
E talvez uma das cenas mais bonitas daquela noite tenha acontecido justamente depois do jogo, quando Gabriel Paulista foi até a torcida e entrou no poropopó com a Fiel. Ali não existia mais distância entre arquibancada e gramado.
Era jogador cantando com torcedor.
Era torcedor cantando com jogador.
Era Corinthians. E talvez seja justamente isso que tanta gente de fora nunca consiga entender.

O Corinthians não é apenas sobre ganhar. Claro que queremos ganhar. Queremos títulos, grandes contratações, planejamento, responsabilidade e uma administração que esteja à altura do tamanho desse clube.
A Fiel está cansada de sofrer por coisas que poderiam ser evitadas. Mas, quando a bola rola, quando o escudo está em campo e quando existe uma chance de continuar sonhando, alguma coisa muda.
A gente acredita. Mesmo quando parece impossível. Mesmo quando são dez contra onze. Mesmo quando o gol não sai. Mesmo quando o coração diz que talvez não dê. Porque ser Corinthians é, muitas vezes, acreditar justamente quando ninguém mais acredita. E naquela noite, mais uma vez, o Corinthians nos lembrou disso.
Memphis voltou.
Bidon decidiu.
Hugo segurou.
Gabriel Paulista cantou. E a Fiel empurrou.
No fim das contas, talvez seja esse o Corinthians que a gente conhece. O Corinthians que não facilita. O Corinthians que faz o torcedor sofrer até o último segundo. O Corinthians que transforma uma classificação em uma verdadeira prova para cardíacos. Mas também o Corinthians que, quando tudo parece perdido, encontra um jeito.
E enquanto existir um jogo, uma camisa alvinegra em campo e uma torcida acreditando… nunca duvide do Corinthians.
Vai, Corinthians!
Por Jessica Gomes
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