Depois da classificação na Copa do Brasil, Inter segura o líder no Nubank Parque, volta a competir e deixa escapar uma vitória que esteve nos pés de Vitinho
Na tarde deste domingo, 9 de agosto, o Internacional entrou em campo para mais um desafio duríssimo em São Paulo. Depois de suar sangue e buscar a classificação às quartas de final contra o Corinthians, na quinta-feira (6), foi diante do Palmeiras que o Inter buscou um ponto importantíssimo. Pela 22ª rodada do Campeonato Brasileiro, o Palmeiras recebeu o Colorado no Nubank Park. E o 0 a 0 poderia ter um sabor um pouco mais doce se o Inter não tivesse deixado escapar a vitória no fim do jogo.

Ainda que se torne extremamente repetitivo mencionar outra vez, é necessário contextualizar a importância do que o Inter fez em São Paulo. Depois de buscar a classificação às quartas de final da Copa do Brasil, em uma partida que faltou muito pouco para ser uma guerra, o Colorado entrou em campo para enfrentar o líder da competição. Um Palmeiras que está vários pontos à frente do segundo colocado e que não tem perdoado muitos jogos ou muitos times dentro de campo.
Em campo, um Inter que precisou poupar Gabriel Mercado, um dos pilares de uma defesa que vem funcionando muito bem, obrigada. Um time que precisou buscar forças para se manter, principalmente fisicamente, competitivo diante do Palmeiras. E aqui a gente começa com um ponto importante: Pezzolano fez diferente.
Diferente do Inter que empatou com o Flamengo, que foi superior ao Corinthians dentro de casa e que segurou o Corinthians em Itaquera, o Colorado não cedeu simplesmente a bola para o adversário e disse: “Joga teu jogo, que eu vou achar um furo aqui para te ferir”. Não dessa vez.
O Inter entrou em campo sabendo do tamanho do adversário, do tamanho do elenco que tinha pela frente, mas entrou diferente. Entrou com a proposta de reter a bola, ocupar o campo e não deixar o Palmeiras tão livre para fazer aquilo que sabe fazer tão bem.
A movimentação dos cinco jogadores mais adiantados, ocupando o campo de maneira agressiva, dificultou os encaixes do Palmeiras. O time paulista não conseguiu reproduzir com a mesma naturalidade o seu jogo habitual e, por alguns momentos, pareceu não encontrar exatamente onde deveria estar para pressionar o Inter. O Colorado não apenas reteve a bola; fez da posse uma ferramenta para incomodar o adversário.
O primeiro tempo fez com que os times se estudassem. O Palmeiras de Abel precisava encontrar um jeito de furar aquilo que o Inter havia colocado em campo, enquanto o Colorado, dentro da sua capacidade técnica, precisava encontrar um espaço para escapar da excelente marcação palmeirense. E foi muito difícil para o Internacional chegar ao último terço do campo. Foram pouquíssimas, raríssimas, as escapadas que o Inter conseguiu construir e, quando conseguiu, não foi efetivo o bastante.
Assim, ambos foram para o intervalo sem abrir o placar. E isso trouxe um peso ainda maior para o segundo tempo. Trouxe uma pressão que logo apareceu dentro do jogo. O Palmeiras voltou mais agressivo, mais forte em campo. E, sendo o líder do campeonato contra um Inter que briga para se afastar da zona de rebaixamento, não dá para não dizer que os donos da casa voltaram, sim, mais pressionados do que o Colorado.
E aqui a gente precisa mencionar, com todas as honrarias possíveis, mais uma partida absurda do chileno Guillermo Maripán. O camisa 3 do Inter foi impecável. Por ele passou muito pouca coisa e, quando passou, já não chegou com profundidade ou agressividade suficientes para transformar-se em gol. Maripán esteve onde precisava estar, ganhou duelos, cortou caminhos e, mais uma vez, foi daqueles jogadores que fazem a gente respirar um pouco mais tranquila quando a bola se aproxima da área colorada.
A gente chegou ao momento da partida em que aceitar que estava roubando um ponto do líder do campeonato, dentro da casa do líder do campeonato, já era muita coisa. Voltar para casa com um empate, do jeito que o jogo tinha acontecido até aquele momento, já se tornava grandioso. E aqui a gente não fala isso menosprezando o fato de empatar com o Palmeiras dentro de sua própria casa. Pelo contrário. Diante daquele desenho de jogo, tudo parecia muito excelente.
A gente estava voltando para casa com um gosto doce daquele jogo. Não era algo ruim. Muito pelo contrário. O Inter havia competido, havia suportado o desgaste, havia conseguido dificultar a vida do líder e estava levando um ponto importante para casa.
Mas aí um lance nos mostra o quanto o futebol pode mudar a percepção de tudo em questão de segundos.
Em uma das raras escapadas, já aos 50 minutos do segundo tempo, Vitinho recebeu a bola. Conseguiu se livrar dos zagueiros e partiu livre para um contra um com o goleiro palmeirense. No entanto, Vitinho decidiu não raciocinar e, nesse segundo de lapso mental, demorou demais para decidir.
Tudo aquilo que demoramos demais para decidir dentro do futebol nos custa caríssimo. E, nesse caso, nos custou a vitória.
A demora na decisão de Vitinho fez com que toda a defesa do Palmeiras tivesse tempo para se reorganizar. O que era um contra um virou um ataque cercado de camisas adversárias. E, quando ele finalmente decidiu chutar, já não havia mais possibilidade de marcar. Já era impossível.
O futebol havia acabado de entregar ao Inter a chance de transformar um empate grandioso em uma vitória ainda maior. E nós deixamos escapar.

Só que, passado o primeiro impulso de frustração, talvez seja necessário olhar para São Paulo com um pouco mais de carinho. O próprio Pezzolano, depois da partida, classificou o empate como “um bom ponto” e reconheceu a importância de tudo o que o Inter viveu desde a classificação diante do Corinthians. E é justamente aí que a gente precisa respirar antes de transformar a chance perdida por Vitinho na única memória que vai ficar dessa viagem.
Porque o Inter chegou a São Paulo para na quinta-feira disputar uma classificação que exigiu tudo o que o time tinha. Suou sangue, brigou, sofreu e conseguiu a vaga nas quartas de final da Copa do Brasil. Três dias depois, sem voltar para Porto Alegre, entrou em campo contra o líder do Campeonato Brasileiro, com um elenco mais desgastado, precisando inclusive preservar Gabriel Mercado, e ainda assim encontrou uma maneira de competir.
Mais do que isso: encontrou uma maneira diferente de competir, sem simplesmente entregar a bola ao Palmeiras e esperar por um erro. O Colorado reteve a posse, dificultou os encaixes, suportou a pressão quando ela aumentou e saiu de campo com um ponto que, diante de tudo o que aconteceu, tem valor.
É claro que fica um gosto amarguíssimo. Fica porque a vitória esteve ali, porque Vitinho teve a bola nos pés para transformar uma atuação segura em um resultado daqueles que mudam o ambiente de um clube. Fica porque a gente sabe que, no Brasileirão, cada ponto importa e que uma vitória contra o líder, dentro da casa dele, teria um peso enorme para um Inter que ainda precisa se afastar da parte de baixo da tabela. Mas também não podemos permitir que aquele último lance apague o restante da partida, muito menos tudo aquilo que o Colorado construiu em São Paulo nesses últimos dias.
O Inter precisava que a classificação na Copa do Brasil virasse alguma coisa dentro do campo do Brasileirão. Precisava que a confiança adquirida contra o Corinthians atravessasse a porta do vestiário e aparecesse novamente quando a bola rolasse contra um adversário de outra dimensão. E ela apareceu. Talvez ainda tímida, talvez longe de ser suficiente para dizer que tudo mudou, mas apareceu. O time voltou a competir, voltou a encontrar respostas e, principalmente, mostrou que não precisa necessariamente abdicar da bola para sobreviver a um adversário mais forte.
Por isso, a gente volta para casa com dois sentimentos que parecem contraditórios, mas que cabem perfeitamente no mesmo torcedor. Há uma frustração enorme por saber que a vitória escapou quando estava tão perto e há a tranquilidade de saber que o Inter conseguiu atravessar uma sequência duríssima sem se deixar pelo caminho. São Paulo nos deu uma classificação, um ponto contra o líder e, talvez mais importante do que qualquer uma dessas duas coisas isoladamente, alguns sinais de que aquilo que começou na Copa do Brasil pode, sim, servir de combustível para a retomada que tanto precisamos no Campeonato Brasileiro.
O empate não resolve os problemas do Inter. Não apaga a campanha ruim, não afasta sozinho o fantasma da zona de rebaixamento e tampouco permite que a gente se acomode. Mas, depois de tudo o que esse time viveu entre quinta-feira e este domingo, talvez seja justo voltar para casa reconhecendo a grandiosidade do que foi feito em São Paulo.
Só não precisava o Vitinho ter nos deixado com esse gosto tão amargo na boca.
Por Jéssica Salini
*Esclarecemos que os textos trazidos nesta coluna não refletem, necessariamente, a opinião do Portal Mulheres em Campo.