Quanto custa acreditar?


Entre o trauma de 2014 e a esperança de 2026, a trajetória de quem voltou a se emocionar com a Seleção

Afinal, qual o preço de se acreditar em um sonho? Quanto custa ser aquele peixinho pequeno que nada contra o cardume para defender aquilo em que acredita?

Algum tempo antes da Copa de 2026 começar, verbalizei para algumas pessoas que sentia que a taça finalmente voltaria para casa. Quando me perguntavam como eu conseguia acreditar nisso, eu simplesmente respondia: “não sei”.

Não éramos a seleção favorita, não chegávamos cercados de certezas, mas havia algo que me dizia que seria dessa vez. Talvez fosse a mística do futebol. Talvez fosse apenas a necessidade de voltar a acreditar.

Foto: Reprodução Google

Cresci vendo o futebol como um porto seguro. Era ali que meu pai e eu sempre nos reencontrávamos. Quando o Brasil conquistou o pentacampeonato, eu tinha pouco menos de seis anos, idade em que tantas lembranças costumam desaparecer. No entanto, até hoje, com quase trinta, lembro exatamente onde estava, a roupa que vestia e quem comemorava ao meu lado.

Da Copa de 2006, guardo poucas memórias além de um crush no Kaká. Já em 2010 veio a Holanda, em 2014 o trauma que nenhum brasileiro consegue esquecer. Depois, Bélgica em 2018, Croácia em 2022. Cada eliminação parecia levar embora um pedaço daquela menina que acreditava que o Brasil sempre encontraria um jeito.

Talvez tenha sido justamente no 7 a 1 que perdi minha identidade com a Seleção. Nas brincadeiras entre amigos sobre trocar um hexa por mais títulos do Flamengo, eu sempre escolhia o Flamengo sem pensar duas vezes. Continuei assistindo aos jogos, reunindo amigos e família, vibrando em cada Copa, mas já não havia expectativa. A Seleção deixou de me emocionar. Até que chegou 2026.

Foto: Reprodução X – @leticiaarsenio

Sem explicação, aquele sentimento voltou. Não foi construído pela lógica, pelas estatísticas ou pelo chaveamento. Apenas voltou, incluindo as superstições de sempre. O lugar certo para assistir aos jogos, a ansiedade antes do apito inicial, a confiança irracional de quem repetia para si mesma que “quem quer ser campeão não escolhe adversário”. Pela primeira vez em muito tempo, eu não analisava probabilidades; apenas acreditava.

A fase de grupos confirmou aquilo que eu sonhava. O empate com Marrocos parecia fazer parte do roteiro. O Japão exigiu mais do que eu imaginava, e foi justamente ali que percebi algo estranho: eu estava nervosa de novo. Daquele nervosismo genuíno de quem tem medo de perder algo importante. Contra a Noruega, fui dormir e acordei tranquila. Tinha certeza de que seria um confronto mais controlado e que nossa maior preocupação seria uma possível semifinal contra Los Hermanos.

A ironia? O futebol gosta de lembrar que nenhuma certeza dura noventa minutos.

O jogo era equilibrado. O Brasil criava, ocupava o campo de ataque, fazia o torcedor acreditar que o gol era apenas questão de tempo. E então bastaram alguns instantes para que tudo mudasse. Uma substituição, um espaço concedido, um gol sofrido. Antes mesmo de conseguir entender o que havia acontecido, veio o segundo.

O futebol é cruel porque nem sempre termina quando o árbitro apita. Ele continua dentro da nossa cabeça, alimentado por intermináveis “e se”. E se aquele pênalti tivesse entrado? E se aquela substituição não tivesse acontecido? E se aquele jogador estivesse em campo? O resultado já está escrito, mas a nossa mente insiste em tentar reescrevê-lo.

O choro veio sem consolo, não era apenas pela eliminação. Era porque, pela primeira vez em muito tempo, eu havia permitido que a Seleção ocupasse novamente um lugar especial dentro de mim. Descobri que acreditar também machuca. E talvez esse seja o verdadeiro preço de sonhar.

Os sonhos nos fazem sofrer quando acabam, mas também nos devolvem uma parte de nós que parecia perdida. Daqui a quatro anos estaremos, mais uma vez, olhando para cinco estrelas no peito e imaginando a sexta. Formaremos novas superstições, faremos novas promessas e repetiremos que “quem quer ser campeão não escolhe adversário”. Porque, no fundo, torcer é isso: aceitar correr o risco de se decepcionar para ter a chance de viver uma felicidade que nenhum outro sentimento é capaz de oferecer.

Se me perguntarem outra vez por que acredito no hexa, provavelmente responderei exatamente como respondi desta vez: “não sei”. Só sei que vale a pena continuar sonhando.

Por Rayanne Saturnino

*Esclarecemos que os textos trazidos nesta coluna não refletem, necessariamente, a opinião do Portal Mulheres em Campo.


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