O que faz uma seleção entrar para a história de uma Copa do Mundo? Talento? Qualidade técnica? Organização tática? Intensidade física? Tudo isso importa. Mas há algo que nenhuma estatística consegue medir.
Grandes campanhas também são construídas com coragem, resiliência e espírito de luta. Com a capacidade de desafiar o favoritismo, de permanecer de pé quando todos esperam a queda e de transformar cada obstáculo em mais um capítulo de uma história inesquecível.
Foi exatamente assim que o Paraguai escreveu sua trajetória na Copa do Mundo de 2026. Uma equipe que, claramente, não tinha o maior brilho técnico do torneio, mas que compensou isso com entrega, garra e coragem. Uma seleção que nunca deixou de acreditar, resistiu e mostrou ao mundo que a grandeza de um time nem sempre é medida por triunfos e títulos, mas pela forma como luta. Às vezes, ela se revela em uma dividida vencida, em um gol improvável, em uma classificação sofrida ou na capacidade de fazer história em um jogo que ninguém acreditava.

A Albirroja retornou à Copa do Mundo após 16 anos com uma campanha marcada por garra, resiliência e superação. Nas seis primeiras rodadas das Eliminatórias Sul-Americanas, a equipe havia conquistado apenas cinco pontos e ocupava as últimas posições da tabela. Com a chegada do técnico Gustavo Alfaro, iniciou-se um processo de reconstrução que recolocou a seleção na disputa por uma vaga e a conduziu de volta ao maior palco do futebol mundial.
Na fase de grupos, a trajetória não foi fácil. O Paraguai estreou com uma derrota por 4 a 1 para os Estados Unidos. Com o risco de eliminação já rondando a equipe, o triunfo por 1 a 0 sobre a Turquia manteve vivo o sonho da classificação. Na rodada final, uma estratégia mais cautelosa, baseada na solidez defensiva, garantiu o empate sem gols com a Austrália e a vaga entre os melhores terceiros colocados.
A classificação como um dos melhores terceiros colocados colocou a Alemanha no caminho da Albirroja logo na primeira fase eliminatória. O peso do confronto, porém, não fez os paraguaios se apequenarem diante da poderosa seleção alemã. Após um empate por 1 a 1 no tempo regulamentar, a equipe resistiu durante toda a prorrogação e levou a decisão para os pênaltis. Nas penalidades, o goleiro Orlando Gill, que já havia sido um dos destaques da partida, brilhou mais uma vez ao defender duas cobranças alemãs, garantindo a classificação e deixando para trás a tetracampeã mundial.
Nas oitavas de final, mais uma prova de fogo. Desta vez, diante da França, uma das favoritas ao título e apontada por muitos como a equipe capaz de aplicar a goleada que se esperava na partida contra a Alemanha. O Paraguai, porém, voltou a mostrar sua força defensiva: segurou o empate sem gols durante todo o primeiro tempo e só foi superado na segunda etapa, em um gol de pênalti que decretou a eliminação por 1 a 0.

A estratégia de jogar de forma na defensiva muitas vezes é criticada e até rotulada como covarde. No entanto, lutar com as armas que se tem e apostar no próprio ponto forte, especialmente diante de adversários mais qualificados, às vezes é a melhor decisão. Afinal, nem sempre se pode arriscar, principalmente quando um único deslize pode mudar o rumo da história. Diego Gómez que o diga…
Se o meio-campista não tivesse cometido o pênalti, será que a história teria sido diferente? Jamais saberemos. O que fica é a certeza de que os jogadores deram o melhor de si e conseguiram segurar o ataque mais eficiente da competição durante boa parte da partida.
A Albirroja encerra sua participação na Copa do Mundo com uma trajetória de altos e baixos, sem chegar tão longe quanto sonhava. Ainda assim, deixa escrito um dos capítulos mais surpreendentes desta edição do torneio: o dia em que a resistência paraguaia parou a máquina alemã.
Para muitos, isso pode não significar nada, mas para essa geração que trouxe a Albirroja de volta à competição após 16 anos, a classificação histórica sobre a Alemanha e a eliminação honrosa diante da França certamente têm grande valor. Porque algumas campanhas terminam com a taça. Outras terminam com o respeito de todos. E, às vezes, é isso que faz uma história ser lembrada para sempre.
2030 te espera, Albirroja!
Por Rafaela Cerqueira Martins
*Esclarecemos que os textos trazidos nesta coluna não refletem, necessariamente, a opinião do Portal Mulheres em Campo.