Com final emocionante, Egito e Irã empatam no último jogo da fase de grupos da Copa do Mundo
Às vezes, a gente passa a vida inteira tentando se blindar. No futebol, assim como em tudo que realmente importa, a gente cria casca, adota o ceticismo como escudo e repete para si mesmo: “Acreditar, eu não”. Fazemos isso por pura autodefesa, para não dar espaço àquela esperança que, se frustrada, dói no peito.
A gente tenta não colocar o coração na ponta da chuteira para evitar o tombo. Só que a verdade nua e crua é que o esporte, em sua infinita sabedoria, não nos permite o luxo da desistência. Podemos até tentar não acreditar para não sofrer, mas duvidar? Jamais! Porque é na recusa absoluta de aceitar a derrota, no pacto silencioso de nunca deixar de lutar, que os milagres acontecem.
E foi exatamente nessa corda bamba entre o medo e a obstinação que Egito e Irã entregaram um encerramento de fase de grupos simplesmente absurdo, visceral e inesquecível. Nos gramados do Seattle Stadium, na madrugada de sábado (27), o marcador mostrou o empate por 1×1. Contudo, nos nossos corações estava a vitória de poder acompanhar uma disputa desta magnitude.

O desenho tático inicial no gramado já mostrava que seria uma noite de nervos à flor da pele, daquelas em que o planejamento estratégico pesa, mas o coração pesa muito mais. O Egito veio escalado em um 4-2-3-1 ofensivo, com Trezeguet abusando da sua impressionante mobilidade na ponta esquerda, Salah centralizado como o camisa 10 clássico, o cérebro que dita a engrenagem, Ashour na direita e Ziko espetado na referência.
Enquanto isso, o Irã insistiu no seu defensivo 5-4-1, trazendo de volta o insuficiente Taremi sozinho no ataque – uma escolha que já tinha se provado um erro crasso em partidas anteriores e que, no início do embate, continuava isolando a equipe.
A recompensa egípcia veio cedo e doeu. Após uma pressão inicial sufocante dos Faraós, a bola sobrou para Saber. O camisa 21 pisou na área com autoridade e, aproveitando o caos instaurado no abafa, arriscou um chute de longe. A bola desviou no bate-rebate e passou de forma cruel, mansa, por entre as pernas do goleiro iraniano. Uma infelicidade gigantesca para quem tinha sido o herói nacional no último confronto, mas o futebol é esse ambiente árido que não tem memória nenhuma. Beiranvand precisou chorar para que Saber pudesse sorrir.
Só que o Irã é feito de pura bravura e resiliência, e o destino resolveu testar o limite da sanidade mental dos torcedores. Aos 8 minutos, chutaram o pé de Taremi na grande área, embora o atacante já estivesse desabando sozinho no gramado. Pênalti assinalado. Nesse momento de pura tensão, Mo Salah mostrou por que carrega a braçadeira de capitão. Gigante, ele chamou a responsabilidade de liderança e barrou qualquer sinal de reclamação de seus companheiros, organizando o time.
Aos 10 minutos, o roteiro flertou com a tragédia iraniana. Taremi, em uma cobrança horrorosa e sem convicção, chutou a bola direto nas mãos de Shobeir, que ainda operou uma defesa espetacular no rebote. Parecia o fim da linha, a confirmação do nosso pior ceticismo de que o Irã não teria forças.

Contudo, o futebol pune os descrentes. Apenas três minutos após o fiasco do pênalti, em um contra-ataque relâmpago que pegou a zaga egípcia desarrumada, Milad Mohammadi desferiu um chutão de dentro da área. O goleiro deu rebote e Ramin Rezaeian emendou uma bucha diagonal espetacular para o fundo das redes. 1×1 no placar com um golaço do camisa 23!
A explosão de alegria no banco iraniano acordou o Team Meli de vez, inflamando a equipe a buscar o abafa e equilibrar as ações, forçando substituições precoces no Egito, como a entrada de Yasser Ibrahim. A partir daí, o confronto virou um ataque contra contra-ataque desenfreado, com cartões amarelos para os dois lados refletindo a intensidade da batalha. Enquanto Trezeguet desfilava um futebol envolvente, cheio de ginga e pedaladas, e Salah comandava as ações ofensivas mais perigosas antes do intervalo.
No segundo tempo, a partida abandonou qualquer lógica e virou uma obra de arte dramática em alta definição. As alterações nos vestiários mostraram as cartas dos treinadores: o Irã colocou Hardani para fechar a linha de quatro atrás e dar liberdade para Rezaeian avançar, enquanto o Egito mandou Marmoush para o jogo.
O camisa 22 egípcio entrou com uma fome absurda, pegando a pelota na esquerda e arrancando sozinho em velocidade contra a defesa adversária. Aos 56’, o técnico egípcio resolveu preservar Salah e mandou Zizo para o gramado. O meia entrou com uma vontade obstinada de fazer bagunça no meio-campo iraniano e apagar os erros cometidos no jogo anterior.
A resposta estratégica do Irã foi um alívio para quem assistia. Aos 67 minutos, Ghoddos saiu para a entrada de Moghanlou. Finalmente, um homem de referência na área, empurrando o Taremi para jogar mais recuado, graças a Deus! A presença de Moghanlou mudou drasticamente o fôlego ofensivo do Irã, gerando ataques consecutivos que forçaram até Trezeguet a recuar para ajudar na marcação.
O jogo virou físico, tenso, elétrico. Marmoush distribuía dribles e finalizações, e o Irã respondia com uma solidez impressionante, colocando de 6 a 7 jogadores na primeira linha defensiva enquanto tentava a ligação direta. Aos 80 minutos, o coração de todo mundo parou. Escanteio para o Irã, a bola viajou pela área e Taremi testou firme, estraçalhando o travessão em um lance que fez o estádio inteiro prender o fôlego.
E aí vieram os acréscimos, aquela faixa de tempo onde a razão morre e o coração assume o controle. Aos 92 minutos, em uma cobrança de falta alçada na área, o goleiro Shobeir saiu mal do gol e causou um pandemônio. A bola bateu nas costas do próprio arqueiro egípcio e sobrou limpa para o zagueiro Khalilzadeh empurrar para dentro. O estádio veio abaixo em uma catarse indescritível. Seria a virada histórica, o gol que carimbaria a classificação direta, a vitória da raça sobre a técnica. A celebração dos jogadores moveu todos os olhos naquela direção. Abraços, lágrimas, sorrisos, adereços preparados só para aquele momento.
Entretanto, a arbitragem de vídeo entrou em ação e apontou o impedimento. Uma broxada monumental, avassaladora, daquelas que arrancam o chão sob os nossos pés e nos fazem encarar o vazio de uma comemoração vazia. Dava vontade de pedir para acabar o jogo ali, de tanta exaustão e tristeza pelo balde de água fria.
Só que o Irã simplesmente se recusou a aceitar o luto. Nos minutos finais, em um ato de desespero e coragem que beirou a loucura tática. A seleção se lançou inteira à frente praticamente num 0-0-11, quebrando as linhas e querendo o gol a qualquer custo com Rezaeian comandando o bombardeio. Assim, a equipe obrigou Shobeir a se consagrar como herói nacional egípcio, com defesas milagrosas em um final de jogo absolutamente caótico e espetacular.
Quando o apito final finalmente ecoou, as duas seleções desabaram no gramado, unidas pelo mesmo esgotamento físico e mental.
O Egito, gigante e resiliente, carimbou sua classificação inédita em segundo lugar para os 16 avos de final, escrevendo a página mais linda e dourada da sua história. O Irã, valente e obstinado até o último milésimo de segundo, termina em terceiro e agora vive a agonia angustiante de depender de resultados paralelos para saber se avança entre os melhores terceiros colocados, precisando secar Argélia e RD Congo.
Fica aqui a lição cravada na alma: quando o peso de um gol contra traumático esmaga o peito, quando o grito da virada histórica é cruelmente sufocado por um impedimento milimétrico do VAR e as estatísticas frias cravam que o seu sonho é estatisticamente impossível, o instinto humano é silenciar o coração para não sofrer com o tombo.
Só que a gente nunca, sob hipótese alguma, pode abrir mão de lutar. Porque mesmo quando a gente tenta não acreditar para se blindar da dor, o futebol e a vida dão um jeito de nos mostrar que fomos feitos para resistir com cada gota de suor até o último segundo.
Meus parabéns ao gigantesco Egito por essa caminhada histórica e por carimbar uma vaga inédita que já está eternizada na memória de seu povo! E quanto ao Irã, nós nos recusamos a soltar a mão desse elenco guerreiro. A partir de agora, a nossa torcida é total, barulhenta e incondicional para que os deuses do futebol façam justiça nos resultados paralelos e deem ao Team Meli a classificação que eles tanto merecem.
Por Luiza Corrêa
*Esclarecemos que os textos trazidos nesta coluna não refletem, necessariamente, a opinião do Portal Mulheres em Campo.