Na Copa das Grandes Histórias, Egito escreve o capítulo mais bonito da sua


Com show de Salah e Ziko, os Faraós deixam a Nova Zelândia para trás e vencem pela primeira vez em uma Copa do Mundo

Existem noites que justificam a nossa existência como amantes do futebol, e a noite do dia 21 de Junho de 2026 certamente foi uma delas. No gramado canadense, o Egito não apenas venceu uma partida de futebol, ele libertou a alma de uma nação que esperava há décadas com esse grito entalado na garganta. Quando o apito final ecoou no BC Place, em Vancouver, a catarse tomou conta de todos nós que respiramos esse esporte. Quem acompanhou este jogo pôde ver os Faraós vencendo os Kiwis por 3×1, mas, mais do que isso, pôde ver os Faraós vencendo pela primeira vez em uma Copa do Mundo.

Salah, Ziko e Lasheen comemorando  o segundo gol – Jared C. Tilton/FIFA

Assistir ao técnico Hossam Hassan e seu auxiliar dando uma volta olímpica, segurando a bandeira egípcia que tremulava orgulhosa ao vento, foi de arrepiar até o último fio de cabelo. Os jogadores se recusavam a deixar o gramado, como se quisessem fincar os pés e eternizar o solo sagrado onde a história tinha acabado de ser reescrita diante dos olhos do mundo. Essa é, sem sombra de dúvidas, a Copa do Mundo das grandes narrativas, e que honra gigantesca é estar aqui para registrar a primeira vitória do Egito na história dos Mundiais.

Mais do que três pontos protocolares na tabela, esse resultado carrega uma carga poética avassaladora. Meses atrás, em uma daquelas declarações que ficam marcadas no futebol, o comandante egípcio havia profetizado que seus comandados entrariam em campo com uma missão espiritual: jogar e vencer por cada um dos craques e operários do futebol egípcio que mereciam essa glória no passado, mas que partiram sem conseguir alcançá-la. No último domingo (21), essa promessa se materializou em cada dividida. Cada gota de suor e cada carrinho carregavam o peso histórico de gerações inteiras que bateram na trave. E a beleza desse esporte reside justamente aí: na justiça divina e poética que o destino reservou para esta noite mágica.

Claro que, para deixar o roteiro ainda mais dramático e com a cara de sofrimento que o torcedor já conhece bem, os Faraós resolveram testar o coração de todo mundo na primeira etapa. O jogo começou extremamente amarrado, feio de doer os olhos, em um espelho tático de 4-2-3-1 em que as equipes se acalmavam e abusavam do bate-rebate sem nenhuma inspiração. 

A primeira chegada perigosa veio com a Nova Zelândia pelo lado esquerdo, quando Singh recebeu de Elijah Just e bateu raspando a trave de Mostafa Shobeir. O Egito tentava responder pela direita com Mostafa Ziko e Hany, mas pecava demais no último passe. Para piorar o cenário, aos 15 minutos a defesa egípcia protagonizou uma cena constrangedora: em um escanteio cobrado por Tim Payne, Lashin e Fetouh pularam juntos, marcando um ao outro no maior estilo Trapalhões, e deixaram o zagueiro Finn Surman subir completamente livre para desferir um testaço para o fundo da rede. Um baita gol dos All Whites, mas com uma facilidade defensiva que deu vergonha de assistir. 1×0 para os Kiwis.

O Egito sentiu demais o golpe, ficou visivelmente nervoso e passou a cometer faltas duras – Lashin, inclusive, levou um amarelo bem aplicado após deixar o pé alto e atingir o rosto de Singh, que revidou minutos depois atropelando o adversário para também ser amarelado. Enquanto isso, o astro Mo Salah parecia lento, sem ritmo de reposição e completamente encaixotado por três marcadores que não lhe davam um centímetro de paz. 

Do outro lado, a Nova Zelândia jogava confortável, explorando a avenida deixada na direita de defesa e contando com a presença física de Chris Wood na área. O problema é que a tomada de decisão do camisa 9 neozelandês é de uma lentidão que dá agonia! O homem simplesmente não conseguia fazer um pivô rápido e matava os contra-ataques, além de se plantar em impedimento em um passe perfeito de Tim Payne aos 37 minutos de jogo. Perto dos 40’, o drama egípcio aumentou com a saída do volante Hamdy Fathy, o melhor defensor do time, que sentiu dores e deu lugar a Rami Rabia. O primeiro tempo terminou com aquela sensação incômoda de que o Egito queria muito, mas podia pouco, apesar do empate quase sair nos acréscimos com Ziko buscando Ashour.

Contudo, o futebol é maravilhoso porque permite a redenção e pode limpar a alma no intervalo. No segundo tempo, o Egito voltou com uma postura absurdamente agressiva, transformando o desenho tático em um 4-2-4 sufocante com o recuo de Marmoush, enquanto a Nova Zelândia tentava se segurar em um 4-4-2 com McCowatt adiantado. Foram dez minutos iniciais simplesmente eletrizantes. E foi aos 58 que a mística entrou em campo de vez. 

Hany recebeu na direita e descolou um cruzamento preciso na área. Mostafa Ziko subiu com alma e testou firme para o gol. O goleiro Crocombe até tocou na bola com uma das mãos, mas falhou feio e só conseguiu empurrá-la para o teto da rede, permitindo o empate por 1×1! E o detalhe histórico desse gol é maravilhoso e digno de almanaque esportivo: a Nova Zelândia se tornou o primeiro país do mundo a levar gol de dois “Zicos” diferentes em Copas – o nosso Galinho de Quintino na Copa de 1982, e agora o herói egípcio em 2026!

O empate fez jus ao apelido do homem e incendiou completamente os Faraós, que colocaram os All Whites na roda. Daí para a frente, Mo Salah colocou o jogo no bolso, chamou a responsabilidade e destilou toda a sua genialidade de melhor do mundo. Aos 66 minutos, em uma jogada monumental, Ziko dominou na área e deu uma deixadinha perfeita e açucarada para trás. Salah apareceu livre na boca da área para chapar uma verdadeira bomba no ângulo. Virada histórica – e inédita – por 2×1! 

Salah batendo cabeça, agradecendo pela vitória – FIFA

Na pausa para hidratação, Hossam Hassan promoveu as saídas de Marmoush, para a entrada de Trézéguet, e Ziko, para a entrada da jovem jóia egípcia Abdelkarim. O técnico neozelandês, Darren Bazeley, tentou mexer no time colocando Ben Old e Ryan Thomas para oxigenar o meio-campo, mas o momento era todo dos africanos. O gol que sacramentou a eternidade veio aos 80 minutos. Em um escanteio cobrado com a precisão de um cirurgião por Salah, a bola viajou direto para a cabeça de Trézéguet, que havia acabado de entrar, para testar sem dó para dentro da rede. 3×1 e a consagração definitiva de Salah, que alcançou a marca absurda de 5 participações diretas em gols em apenas 4 jogos de Copa. 

Nos minutos finais e nos longos 7 minutos de acréscimo, o cenário virou uma batalha épica de sobrevivência: o goleiro Shobeir operou milagres impressionantes para fechar o gol em cabeçadas da Nova Zelândia, o meia Zizo perdeu um gol feito em uma defesa espírita de Crocombe após o gol ficar totalmente aberto, e ainda tivemos o drama do zagueiro Hossam Abdelmaguid, que deixou o campo com o olho bizarro de tão roxo e inchado, precisando sair pelo protocolo de concussão após um choque de cabeça fortíssimo. 

O Egito defendeu na base do “bola pro mato que o jogo é de campeonato”, lutando por cada palmo de chão como se a vida de cada um ali dependesse daquele resultado. Quando o árbitro finalmente apontou para o centro do gramado e decretou o fim do confronto, o peso de décadas de frustração simplesmente evaporou em Vancouver. O Egito é gigante. O Egito tem história. E, finalmente, o Egito tem uma vitória na Copa do Mundo para chamar de sua. Parabéns aos Faraós, que jogaram por eles, pelo seu povo e por todos aqueles que vieram antes e não puderam ver esse dia chegar. 

Com esta vitória, o Egito se catapulta para a liderança do Grupo G com 4 pontos. Sem segundo estão empatados Irã e Bélgica, com 2 pontos cada. Na lanterna está a única seleção do grupo que já perdeu, a Nova Zelândia, com um pontinho.

No próximo sábado (27), ambas as equipes voltam a campo à meia noite. O Egito, classificado matematicamente pela primeira vez aos mata-matas, enfrentará o Irã no Seattle Stadium. Batendo na porta dos desesperados, a Nova Zelândia pega a Bélgica em busca de uma vaguinha para os dezesseis-avos de final no BC Place Vancouver.

Por Luiza Corrêa

*Esclarecemos que os textos trazidos nesta coluna não refletem, necessariamente, a opinião do Portal Mulheres em Campo.


Deixe um comentário

Veja Também:

Faça o login

Cadastre-se