Com show do goleiro iraniano, Irã e Bélgica protagonizam o terceiro empate seguido do Grupo G
Dizem que o futebol é um esporte de heróis improváveis, mas quem assistiu ao duelo em solo americano sabe que o roteiro da última sexta-feira foi escrito pelas luvas de apenas um homem. Sob as traves, Alireza Beiranvand operou milagres, fechou o gol e garantiu um daqueles pontos suados que valem tanto quanto uma vitória expressiva. Em uma partida eletrizante do início ao fim, cheia de reviravoltas, catimba e confrontos físicos levados ao limite do regulamento, o Irã segurou o zero a zero contra a badalada e nervosa seleção da Bélgica, deixando o Grupo G completamente embolado e sob o mais puro clima de indefinição.

Que fase de grupos espetacular e gigante o Team Melli está construindo nesta Copa do Mundo! Contra todas as previsões que colocavam os iranianos como meros sacos de pancada da chave, a seleção se agigantou, bateu de frente com os favoritos e provou que camisa e grife não entram em campo.
Quem esperava facilidade para os europeus esbarrou logo de cara em uma verdadeira guerra de trincheiras. Com menos de cinco minutos de bola rolando, Romelu Lukaku já carimbou um cartão amarelo em uma entrada violenta que atingiu o peito e o queixo do arqueiro iraniano. O mais inacreditável foi ver o atacante belga furioso e discutindo após o lance, demonstrando uma total falta de noção – ou de honestidade – sobre a intensidade do seu próprio golpe.
Aliás, Lukaku passou o jogo inteiro flertando perigosamente com a expulsão: deixou Khalizadeh no chão sentindo muita dor em outro lance que a arbitragem fingiu não ver, abusou das jogadas faltosas e, quando precisava jogar fora da grande área, pareceu estar correndo de calça jeans molhada de tão lento e pesado. O Irã, também nervoso na primeira etapa, sentia uma falta imensa do talento técnico de Sardar Azmoun, cortado antes do Mundial por questões políticas que movimentaram os bastidores, mas o elenco que entrou em campo compensou a ausência na base da pura e simples resiliência.
A Bélgica até pressionou nos primeiros dez minutos com um “perde e pressiona” opressivo e uma posse de bola avassaladora que beirou os 71%, ditada pelo ritmo estratégico de De Bruyne e pelo trabalho silencioso de Raskin, que ocupava espaços como ninguém sem a bola. O Irã sofria uma agonia imensa para encaixar qualquer transição ofensiva, precisando se desdobrar em linhas compactas que variavam entre o 6-3-1 e o 5-4-1 para tentar matar o volume europeu, deixando Taremi completamente isolado lá na frente. Mesmo assim, aos 13 minutos, o Irã assustou: Kanaani finalizou lindamente de fora da área e obrigou Courtois a mostrar por que ainda é um dos grandes nomes da posição, operando uma defesaça embaixo dele para salvar a Bélgica.
A resposta belga veio três minutos depois, quando De Bruyne escorregou sozinho na intermediária, perdeu a chance de um chute perigoso e viu a engrenagem do abafa belga correr para recuperar a posse. A comissão técnica iraniana foi cirúrgica ao mudar o posicionamento de Hajasafi, que abriu mão de jogar para anular completamente o lado direito dos belgas e engolir Saelemaekers. Nas arquibancadas, a torcida deu um show à parte a cada vez que o Team Mali conseguia escapar em direção à meta belga. Eles podem até vaiar o hino para escancarar a indignação legítima contra o governo de seu país, mas nunca soltam a mão de um grupo que representa tão bem a força, a união e a alma do seu povo em solo internacional.
O grito de gol até chegou a entalar na garganta aos 24 minutos, em uma cobrança de falta ensaiada espetacular. Hajasafi ameaçou soltar a bomba, mas deu um toquinho sutil para encontrar Taremi livre no meio da barreira para finalizar no cantinho de Courtois. A comemoração explodiu no estádio, mas o VAR entrou em ação para apontar um impedimento milimétrico e estragar a festa.
Como boa brasileira, depois de ter dois gols contra o Haiti anulados por impedimento, estou tendenciosa a achar essa regra ridícula. Importante? Claro. Contudo, no momento, absolutamente ridícula. Aliás, mais ângulos da jogada surgiram na internet após a partida defendendo que o braço de um dos defensores belgas daria condição ao ataque de Taremi, mas a Fifa nada disse sobre isso.
Aos 28 minutos, o jogo seguiu com muito volume de jogo e tentativas da Bélgica e só aí o árbitro lembrou da maior vilã dos momentums dessa copa: a pausa para hidratação. O cooling break virou, da noite pro dia, o maior ranço dos fãs de futebol porque age esfriando quem está voando em campo e salvando a pele de quem já estava entregando os pontos de tão sufocado. Para piorar, parece que a Fifa transformou um negócio que deveria ser de saúde em um protocolo engessado com cara de intervalo comercial forçado, já que os caras interrompem a partida religiosamente pelo relógio, mesmo quando o clima está ótimo e ninguém pediu arrego. Ah, quem diria que o capitalismo tardio atacaria o bom andamento de uma partida de futebol logo na vez do país do soccer ser sede, né?
No segundo tempo, a tônica continuou lá e cá, com os zagueiros belgas jogando praticamente no campo de ataque e chutando bolas que iam parar em Contagem, Minas Gerais, na hora de finalizar. No primeiro minuto, Trossard serviu De Bruyne, que bateu para fora. Logo depois, o jogo esquentou de vez quando Jahanbakhsh entrou forte demais e rasgou a meia de Trossard com as travas da chuteira – um lance claro para cartão vermelho que a arbitragem resolveu ignorar por completo, lembrando muito aquela entrada do Messi contra a Argélia.

Entretanto, a noite pertencia mesmo a Beiranvand. O que esse homem fez no Los Angeles Stadium foi monumental. Aos 51 minutos, Courtois brilhou ao defender um cruzamento venenoso de Jahanbakhsh que desviou no meio do caminho, mas o verdadeiro milagre do jogo aconteceu pouco depois. De Bruyne descolou um passe genial para De Cuyper e, após um bate-rebate insano na pequena área, o goleiro iraniano, já caído no chão e batido no lance, se esticou todo para salvar a bola em cima da linha do gol. Uma defesa inacreditável, disparada a mais importante da Copa até aqui.
A vida dos belgas se complicou de vez aos 66 minutos, quando o zagueiro Ngoy cometeu um erro bizarro na saída de bola, perdeu a jogada para Taremi e precisou apelar, derrubando o camisa 9 sem bola para evitar uma chance clara de gol. Vermelho direto incontestável. Com um a mais e substituições ousadas na reta final – como a entrada de Moghanlou para dobrar a presença de área -, o Irã foi para o abafa e fez a torcida cantar alto nos minutos finais.
Aos 85 minutos, De Cuyper arriscou no contrapé de Beiranvand, mas o goleiro segurou firme, coroando uma atuação de melhor em campo. Faltou um pouco de refino técnico para calibrar os cruzamentos nos acréscimos, mas o empate acabou sendo um prêmio justo para quem não se intimidou. O Irã engata sua segunda grande exibição, cala os críticos da nova fórmula do torneio e entra vivo na última rodada. Pela primeira vez em 24 anos, a Bélgica inicia um Mundial sem vencer nenhuma das duas primeiras partidas, e nós agradecemos de joelhos ao nosso pastor das traves por isso.
Se existia alguma dúvida de que milagres acontecem, Beiranvand pegou todas elas, transformou em bola e espalmou para longe da meta com a maior tranquilidade do mundo, gurizada! O homem simplesmente virou uma muralha intransponível no Los Angeles Stadium, fechando o gol com direito a defesas místicas e provando que, quando o está inspirado, nem a badalada artilharia belga consegue tirar o doce de sua boca. Foi uma atuação monumental, daquelas que não só garantem um ponto histórico na tabela, mas que lavam a alma do torcedor e deixam claro que o Team Melli não veio para a Copa a passeio.
É possível que, pela primeira vez, o Irã chegue ao mata-mata de um mundial. Na Copa dos Goleiros, Beiranvand vê seu nome se juntar aos de Vozinha, ídolo de Cabo Verde, e Eloy Room, arqueiro sensação de Curaçao, como o jogador que pode fazer a diferença não para um time, mas para uma nação inteira. O camisa 1 do Team Melli recebeu o cobiçado 10 pela plataforma Sofascore, mas, mais que isso, estará na prece de agradecimento de todo torcedor iraniano apaixonado esta noite.
Próximo jogo
Com dois pontos somados na tabela, o Irã volta a campo à meia-noite de sábado (27), para disputar o último jogo da fase de grupos contra o Egito, no Seattle Stadium. A Bélgica joga neste mesmo dia contra a Nova Zelândia. A bola rola no mesmo horário no BC Place Vancouver.
Por Luiza Corrêa
*Esclarecemos que os textos trazidos nesta coluna não refletem, necessariamente, a opinião do Portal Mulheres em Campo.