O Catar além dos estereótipos


Da Copa de 2022 à classificação por mérito esportivo, a seleção catari tenta consolidar seu espaço no futebol mundial 

Eis a verdade: antes de o Catar se tornar sede da Copa do Mundo de 2022, pouca gente realmente dava atenção para a seleção catari. E isso se refletia também no próprio país. 

Foto: Getty Images

Para grande parte do público ocidental, o Catar era visto apenas como mais um território do Oriente Médio distante da nossa realidade cultural, política e religiosa. Todavia, a Copa colocou o país no centro das atenções do futebol mundial, despertando curiosidade não apenas sobre a seleção, mas também sobre os costumes, as leis e o modo de vida local.

Durante a Copa de 2022, muitas dessas diferenças culturais ficaram ainda mais evidentes para o restante do mundo. Limitações envolvendo consumo de bebidas alcoólicas, demonstrações públicas de afeto e códigos de vestimenta passaram a ser amplamente debatidos, muitas vezes sem grande preocupação em compreender o contexto político, religioso e social do país. 

O Catar é um emirado absolutista governado pela família Al Thani, tendo a Sharia como principal fonte de legislação, em uma estrutura profundamente marcada pelo islamismo sunita e por uma forte centralização de poder. Isso não significa que todas as práticas devem ser automaticamente aceitas sem debate, mas significa que elas precisam ser compreendidas dentro da lógica histórica, religiosa e cultural daquele Estado, e não apenas a partir da visão ocidental sobre o que entendemos como normalidade.

Feita essa contextualização, dá para voltar ao ponto central: a seleção. Quando o assunto é Catar e Copa do Mundo, a história ainda é muito recente. A estreia catari aconteceu justamente em 2022, quando o país sediou o torneio e entrou pela primeira vez no maior palco do futebol mundial. Agora, em 2026, a situação é diferente: a seleção chega à segunda participação, mas desta vez com uma vaga conquistada em campo, pelas Eliminatórias Asiáticas, e não apenas pelo posto de país-sede, conforme informações divulgadas pela FIFA.

A classificação para 2026 veio com vitória por 2 a 1 sobre os Emirados Árabes Unidos, em Doha, pela quarta fase das Eliminatórias Asiáticas. Boualem Khoukhi e Pedro Miguel marcaram de cabeça e garantiram o primeiro lugar do grupo, levando o Catar novamente à Copa do Mundo. A campanha teve seus altos e baixos, mas mostrou uma seleção mais madura do que aquela que estreou em 2022, com mais experiência, mais casca e a responsabilidade de provar que o trabalho não acabou junto com o torneio disputado em casa, conforme dados da FIFA.

Parte dessa evolução também passa pelo comando técnico. Desde maio de 2025, a seleção é treinada por Julen Lopetegui, nome conhecido do futebol europeu e que já comandou a seleção espanhola, o Real Madrid e o Sevilla, onde conquistou a UEFA Europa League em 2020. A chegada do treinador espanhol reforça uma estratégia que o Catar já vem adotando há alguns anos: investir pesado em estrutura, formação e profissionais internacionais para consolidar o país dentro do cenário do futebol mundial. Conhecido pelo perfil analítico e pela organização tática, Lopetegui tenta transformar uma seleção ainda jovem em um time mais competitivo e menos dependente do fator “novidade”, conforme informações disponibilizadas pela FIFA.

Imagem: REUTERS/Gareth Bumstead

Mesmo com toda a estrutura construída pelo país nos últimos anos, os números do Catar em Copas do Mundo ainda são modestos. Na edição de 2022, disputada em casa, a seleção foi eliminada ainda na fase de grupos após derrotas para Equador, Senegal e Holanda, encerrando a campanha com três jogos, três derrotas e apenas um gol marcado. 

Ainda assim, a participação deixou marcas importantes para o futebol catariano, principalmente pela experiência adquirida enfrentando seleções de diferentes continentes em um torneio de altíssimo nível. O próprio primeiro gol da história do Catar em Copas veio naquela edição, marcado por Mohammed Muntari contra Senegal, em um lance que acabou entrando para a memória esportiva do país, conforme informações disponibilizadas pela FIFA no material oficial da competição.

Para 2026, o Catar está no Grupo B, ao lado de Suíça, Canadá e Bósnia e Herzegovina. A estreia será contra a Suíça, no dia 13 de junho, em Santa Clara, nos Estados Unidos. Depois, a seleção catari enfrenta o Canadá, no dia 18 de junho, em Vancouver, e encerra a fase de grupos contra a Bósnia e Herzegovina, no dia 24 de junho, em Seattle. 

Não é um grupo simples, mas também não parece impossível para uma seleção que chega tentando mostrar evolução e buscar, ao menos, sua primeira vitória em Copas do Mundo, conforme tabela divulgada pela FIFA.

E quando olhamos para o elenco catari, fica evidente também uma característica importante dessa seleção: a manutenção de uma base que já atua junta há bastante tempo. Muitos dos nomes presentes em 2026 participaram da campanha de 2022 e seguem como pilares da equipe, caso de Akram Afif, Almoez Ali, Boualem Khoukhi e Pedro Miguel. 

Ao mesmo tempo, o Catar tenta equilibrar essa experiência com jogadores mais jovens e atletas naturalizados, algo que já faz parte do planejamento esportivo do país há alguns anos. A maior parte do elenco atua no futebol local, especialmente em clubes como Al-Sadd, Al-Duhail e Al-Rayyan, reforçando uma identidade de jogo construída de maneira mais contínua do que em muitas seleções asiáticas, conforme lista divulgada pela FIFA.

Entre os convocados, um detalhe chama atenção para o público brasileiro: apesar de alguns atletas com ligação ao Brasil terem aparecido em listas anteriores e pré-listas observadas durante o ciclo, apenas Lucas Mendes, defensor do Al-Wakrah, aparece entre os convocados finais com origem brasileira. Natural de Curitiba, o zagueiro atua no futebol catari há anos e acabou se consolidando como uma das opções defensivas da seleção. Fora ele, a lista final manteve predominância de atletas nascidos no próprio Catar ou já totalmente integrados ao projeto esportivo local.

 Foto: Reprodução/Instagram

A convocação final do Catar para a Copa do Mundo de 2026 ficou definida da seguinte maneira, conforme lista divulgada pela FIFA: os goleiros são Mahmoud Abunada (Al-Rayyan), Meshaal Barsham (Al-Sadd) e Salah Zakaria (Al-Duhail). Na defesa aparecem Ayoub Al-Alawi (Al-Gharafa), Boualem Khoukhi (Al-Sadd), Homam Al-Amin (Al-Duhail), Lucas Mendes (Al-Wakrah), Issa Laye (Al-Arabi), Pedro Miguel (Al-Sadd), Al-Hashmi Al-Hussain (Al-Arabi) e Sultan Al-Brake (Al-Duhail). 

Já entre os meio-campistas estão Assim Madibo (Al-Duhail), Abdulaziz Hatem (Al-Rayyan), Ahmed Fathy (Pyramids), Karim Boudiaf (Al-Duhail), Jassem Gaber (Al-Rayyan) e Mohamed Mannaj (Al-Shamal). Por fim, no ataque, os convocados são Ahmed Al-Ganehi (Al-Gharafa), Ahmed Alaa (Al-Rayyan), Akram Afif (Al-Sadd), Almoez Ali (Al-Duhail), Edmilson Junior (Al-Duhail), Hasan Al-Haydos (Al-Sadd), Mohammed Muntari (Al-Gharafa), Tahsin Mohammed (Al-Duhail) e Youssef Abdulrazzaq (Al-Sadd).

No fim das contas, o Catar segue sendo uma das seleções mais difíceis de analisar nesta Copa do Mundo. Existe o debate político, religioso e cultural, além de toda a discussão que nasceu em 2022, mas também existe futebol. Existe investimento, estrutura e uma seleção que chega para sua segunda participação tentando provar que consegue ir além do papel de anfitriã que ficou marcado na última edição. Pode não ser uma favorita, pode não ter tradição em Mundiais, mas certamente também não é mais uma seleção que passa despercebida dentro do cenário internacional.

Laura Assis Ferreira

*Os textos publicados nesta coluna não refletem, necessariamente, a opinião do Portal Mulheres em Campo.


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