Fim do inverno em Oslo


Após 28 anos de espera, a Noruega retorna à Copa do Mundo guiada por uma geração que aprendeu a sonhar grande

Durante quase três décadas, a Noruega assistiu à Copa do Mundo pela televisão. Viu gerações nascerem e desaparecerem, viu seleções menores alcançarem sonhos que pareciam reservados aos escandinavos dos anos 90, viu o futebol mudar de velocidade, de tática, de protagonistas, mas não viu a própria bandeira tremular no maior palco do esporte.

Vinte e oito anos depois daquela tarde em Marselha, quando uma virada histórica sobre o Brasil colocou os noruegueses nas oitavas de final da Copa de 98, o país retorna ao Mundial. E retorna carregando algo raro: esperança.

Foto: Divulgação NFF (Norges Fotballforbund)

Não é uma esperança construída sobre nostalgia. É uma esperança que veste chuteiras. Ela atende por Erling Haaland, por Martin Odegaard, por Antonio Nusa. A chamada “geração de ouro” da Noruega finalmente conseguiu transformar potencial em realidade.

Durante anos, o futebol europeu observou talentos noruegueses brilharem individualmente enquanto a seleção seguia ausente das grandes competições. Faltava algo, faltava transformar estrelas em equipe, e sob o comando de Ståle Solbakken, isso aconteceu.

Os Leões escandinavos atropelaram nas Eliminatórias. Oito jogos, oito vitórias, trinta e sete gols marcados e apenas cinco sofridos. Uma campanha que devolveu ao país a sensação de pertencimento ao futebol de elite.

No centro de tudo está Haaland. O atacante que já coleciona marcas históricas pelo Manchester City chega para disputar sua primeira Copa do Mundo carregando a responsabilidade de liderar uma nação inteira. Aos 25 anos, já é o maior artilheiro da história da seleção norueguesa e simboliza uma geração que se recusou a aceitar a ausência permanente dos grandes torneios.

Entretanto, reduzir a Noruega apenas ao seu camisa 9 seria injusto. Existe Martin Odegaard, o cérebro da equipe, capaz de enxergar espaços que parecem não existir. Existe Alexander Sorloth, parceiro ideal para dividir as atenções das defesas adversárias.

E existe Antonio Nusa. Aos 21 anos, o atacante do Leipzig desembarca na América do Norte cercado de curiosidade. Chamado por muitos de “Neymar norueguês”, não apenas pela habilidade nos dribles, mas pela influência declarada do craque brasileiro em seu futebol, Nusa surge como uma das grandes atrações da competição.

Enquanto Haaland representa a força, Nusa representa a imprevisibilidade. Enquanto Haaland impõe respeito, Nusa provoca encantamento. Talvez seja justamente essa combinação que faça tantos acreditarem que a Noruega pode ser uma das surpresas da Copa.

O desafio, porém, chega cedo. O sorteio colocou os noruegueses em um dos grupos mais difíceis do torneio. França, Senegal e Iraque aparecem no caminho de uma seleção que terá pouco espaço para erros. Cada partida exigirá intensidade máxima, cada ponto conquistado poderá valer uma classificação histórica.

Foto: Divulgação NFF (Norges Fotballforbund)

No entanto, existe algo interessante nesta Noruega que vai além do campo. Nos meses que antecederam o Mundial, a Federação Norueguesa de Futebol voltou a demonstrar uma característica que já se tornou marca de sua gestão: a disposição para se posicionar em temas considerados delicados no universo do futebol.

Liderada por Lise Klaveness, a entidade recorreu ao Comitê de Ética da FIFA para questionar a entrega do recém-criado Prêmio da Paz da FIFA ao presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, durante o sorteio da Copa do Mundo. A federação pediu transparência sobre os critérios utilizados pela entidade máxima do futebol, reforçando uma postura que já havia aparecido em debates anteriores sobre direitos humanos e governança no esporte.

É uma postura que combina com a própria trajetória recente da seleção. A Noruega não chega à Copa apenas como um time talentoso. Chega como um país acostumado a defender suas convicções, dentro e fora das quatro linhas.

Agora, porém, chega a hora de falar apenas de futebol. Chega a hora de descobrir se a geração que recolocou a Noruega entre os grandes também será capaz de escrever o capítulo mais importante da história do futebol do país. Depois de 28 anos de espera, ninguém em Oslo quer acordar cedo desse sonho. A Copa do Mundo finalmente voltou para casa.

E para escrever esse novo capítulo da história norueguesa, Ståle Solbakken reuniu o que o país tem de melhor. Um elenco que carrega a responsabilidade de honrar o passado de 98 e a ambição de levar a Noruega ainda mais longe.

Os convocados para a Copa do Mundo são:

–      Goleiros: Egil Selvik, Orjan Nyland e Sander Tangvik;

–      Defensores: Kristoffer Ajer, Fredrik Bjorkan, Henrik Falchener, Sondre Langas, Torbjorn Heggem, Holmgren Pedersen, Julian Ryerson e Leo Ostigard;

–      Meio-campistas: David Moller, Martin Odegaard, Patrick Berg, Kristian Thorstvedt, Thelo Aasgaard, Fredrik Aursnes, Sander Berge e Morten Thorsby;

–      Atacantes: Strand Larsen, Oscar Bobb, Erling Haaland, Andreas Schjelderup, Jens Petter Hauge, Antonio Nusa e Alexander Sorloth.

Por Rayanne Saturnino 

*Esclarecemos que os textos trazidos nesta coluna não refletem, necessariamente, a opinião do Portal Mulheres em Campo


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