Há amores que se explicam; outros apenas vestem vermelho e branco
Todas as cartas de amor são ridículas, já diria o poeta. E assim, usando de poesia alheia, entrelaçada nas palavras que brotam sem jeito, sem poesia e sem a mínima intenção de ser arte, eu me dou o direito de ser, outra vez, ridícula. E, no fim das contas, todos nós acabamos sendo julgados como ridículos, insanos por viver uma felicidade descabida no segundo de um gol e ver caber, dentro do mesmo instante, a tristeza de um erro.

Aprendi a gostar da grandiosidade do futebol à beira de um rádio, há uns trinta anos. Entre as explicações do meu pai, que falava de um time que vestia vermelho e branco, as narrações de gol e as histórias que nem sempre terminaram tão felizes ao teu redor, a minha pequena trajetória foi se costurando à tua: Sport Club Internacional.
Na antiga Avenida Redenção, na altura do número 141, há 117 anos, plantava-se a ideia de um clube de futebol. Criava-se ali, entre os irmãos Poppe, algo que se tornaria maior que a ideia, maior que o desejo, maior que o sonho que qualquer um deles poderia ter embalado em seu dia mais apaixonado pelo futebol. Nascia, dos irmãos Poppe, um Internacional daqueles que, outrora, atravessaria os bairros de Porto Alegre, faria do Brasil inteiro o seu território, desbravaria a América e pintaria de encarnado o mundo inteiro.
Dentre as escrituras do Colorado, dentre a ideia que virou verbo, dentre o verbo que virou instituição e que, muito além do clube de futebol que celebra outro aniversário na existência sagrada do esporte, tornou-se fé, ganhou morada em toda gente. Das letras que se desenham no símbolo, de um SCI maiúsculo, grande e pesado, a trajetória do Internacional de Porto Alegre une-se às pequenas memórias de sua gente; à celebração daqueles que, há um tempo não tão distante, não seriam aceitos por outros estádios daquela capital gaúcha, da Porto Alegre também conhecida pela hospitalidade, mas que tinha territórios demarcados por sotaque e tom de pele.
Misturou-se à minha por diversas vezes: da guriazinha do interior distante, que tinha nas narrações do pai um mundo particular e secreto com o time do coração, à ponte que ligava a criança que crescia e aprendia, entre lances, escanteios e campeonatos, a entender também a importância do que fizera aquele time sem nenhuma distinção de cores, credos, sotaques, bolsos ou religiões. Se aprendi a amar o Colorado e seu futebol, aprendi também que, para amá-lo, haveria de ser de mim aquela que respeita o legado e aquilo em que acreditavam aqueles homens de um século atrás, que firmaram nas cores do vermelho e branco a crença de que não há distinção.
Por vezes, cruzou-se também com as trajetórias de grandes pessoas; encontrou pelo caminho os preconceitos descarados, desavergonhados e que, vez por outra, ainda são gritados orgulhosamente por outro clube da cidade. Uniu-se à poesia de Nélson Silva, que no ápice da devoção escreveu Celeiro de Ases, que hoje, tal qual uma oração, se entoa em homenagem.
Entreteceu-se com homens que, dentro de campo, puderam ser a própria celebração de suas cores, na construção da narrativa do clube que se tornou do povo na imensidão de si mesmo, tijolo por tijolo — assim como o templo posto sobre as águas, banhado pelas águas, abençoado pelas águas e eternamente digno do lugar perfeito que lhe foi dado.
Casou-se na força da expressão, mas também na honestidade literal de promessas de devoção feitas sob céus que, mesmo azuis, jamais se deixaram apequenar; com pessoas que se tornaram entidades, lendas em forma de camisas, de lances, de gols ou defesas, mas, principalmente, de respeito. Assim fez com que Tesourinha, Paulo Roberto Falcão, Juan, Andrés D’Alessandro, Alex, Iarley, Adriano Gabiru, Bolívar, Índio e Elías Figueroa dentre outros grandes deixassem de ser somente nomes e se transformassem em momentos, lembranças, memórias vivas do que se escreveu dentro e fora de campo.
São 117 anos de vermelho, vermelho; de um branco característico na existência desse enlace de cores. Hoje, quando urge mais alto a celebração de quem se é, celebra-se um dia que nunca é comum, mas que vive um momento em que a arquibancada tem se tornado fria e distante, no desagrado que nasce dentro dos escritórios, nas decisões péssimas, em posicionamentos que fazem o torcedor questionar se quem, de fato, gere o clube é capaz de entender de verdade quem é o Internacional.
Nas palavras já ditas, repetidas tantas vezes, nas promessas e juras de amar aquele que é maior que o próprio futebol para quem o ama, nas frases emprestadas de poetas, de cancioneiros, de garotinhas, diz-se em grandioso som que se ama o Sport Club Internacional. E a ele há de amar e honrar como uma religião, como o sagrado “sim” dito há 117 anos, como o tijolo inaugural que, por fim, deu forma ao Estádio Beira-Rio e à magnitude do estádio mais bonito do Brasil, como o suspiro ritual que antecede o gol e a explosão, ou o segundo em que o ar evapora e somente com a força do pensamento vê-se a bola que selaria um dia ruim curvar-se ao sentimento colorado.
É querer estar preso por vontade; é servir a quem vence, o vencedor; é ter com quem nos mata, lealdade. (Luís Vaz de Camões)
No que Camões descreveu do amor e da lealdade àqueles que são capazes de nos matar de amor ou tristeza, reside o ridículo das lágrimas que correm pelos olhos toda vez que se há de dizer “te amo” a alguém que faz parte da nossa vida como um ente querido e adorado, ao qual se entregam todos os punhais e se dá o peito aberto.
Amar-te, Inter, Colorado, Internacional de Porto Alegre, Clube do Povo, é saber que dias como hoje celebram, mas sem esconder os problemas; é ter a plena certeza também de que a tua trajetória, aquela mesma que se entretece com a de tanta gente, nunca foi das mais fáceis. No entanto, também jamais poderia ser descrita como a história daqueles que desistem ou são abandonados.
Feliz eternidade, Internacional.
Por Jéssica Salini
*Esclarecemos que os textos trazidos nesta coluna não refletem, necessariamente a opinião do Portal Mulheres em Campo