Pelo primeiro jogo das finais do Campeonato Gaúcho, o Inter não se reconhece em campo e sai com saldo profundamente negativo
Fora de casa, o Colorado não se encontrou em campo e foi goleado no clássico Gre-Nal, que marcou o início da decisão do Campeonato Gaúcho 2026. No entardecer deste domingo (01), Grêmio e Internacional entraram em campo pelo jogo de ida da final do Gauchão e, em uma noite de Inter irreconhecível, o Tricolor construiu um amplo 3 a 0.
Pela segunda vez na temporada as equipes se encontraram. Se no primeiro duelo, ainda na fase inicial do estadual, o Internacional foi soberano, desta vez pouco — ou quase nada — se viu do Clube do Povo dentro das quatro linhas.

O início da partida foi marcado por critérios questionáveis da arbitragem, que cedo deixaram a sensação de um certo tendenciamento caseiro. Todavia, deste lado do clássico, é preciso honestidade: antes de olhar para fora, o Inter precisa assumir os próprios erros.
Houve pouco perigo efetivo até os 25 minutos, com trabalho quase inexistente para os goleiros. No entanto, dentro de casa, o rival foi marcando território. Do lado colorado, o que se via era uma sequência preocupante de erros técnicos coletivos e individuais: saídas ruins, posicionamento frouxo, decisões precipitadas. Erros que, cedo ou tarde, cobrariam seu preço.
Aos 30 minutos, o erro no domínio da bola ofereceu ao Grêmio a transição que precisava. Amuzu partiu em velocidade, não estava sozinho, e ali começou a sucessão de escolhas ruins. Bernabei, último homem, acertou o adversário e foi expulso. Justa a expulsão — burrice não inocenta o argentino. Um time que já não vinha sólido defensivamente passou a ficar ainda mais exposto com um jogador a menos. Pouco depois, em um bate-rebate após cobrança de lateral, Enamorado acertou um chute no ângulo de Rochet e abriu o placar.
Com o prejuízo numérico e no marcador, o Colorado se perdeu de vez. O Grêmio, confortável, passou a administrar espaços e ritmo. A expulsão, somada a uma sequência de faltas não marcadas que inflamaram o clássico, acirrou os ânimos. Mas, novamente: o maior adversário do Inter era ele mesmo.
O time de Pezzolano não encontrou caminhos para reagir. Faltou organização, faltou lucidez e, principalmente, faltou personalidade. Ao apagar das luzes do primeiro tempo, o que era ruim ficou pior: Amuzu apareceu livre diante do gol e ampliou aos 45 minutos.
No intervalo, as mudanças eram inevitáveis. Com um a menos, a conta se tornou ainda mais complicada. Porém, ao invés de buscar alternativas reais para diminuir o placar e manter a disputa viva, o Inter pareceu priorizar apenas evitar um estrago maior.
A recomposição do meio e a tentativa de ajustar a defesa custaram a liberdade de Alan Patrick e praticamente anularam qualquer possibilidade de criação. O segundo tempo foi de um Inter pouco presente no campo ofensivo. Mesmo nas escapadas de Carbonero, o time da casa se recompunha com facilidade, enquanto o Colorado afrouxava espaços e acumulava inseguranças.
Todavia, talvez o que mais tenha doído não tenha sido o placar, mas a sensação de ausência. Ausência de reação, de indignação, de um gesto coletivo que dissesse “aqui não”. O Inter parecia correr atrás não apenas do resultado, mas de si mesmo — como se procurasse, em campo, uma identidade que ficou no vestiário. E em clássico, quando você precisa se procurar demais, já está atrasado. Gre-Nal não permite ensaio, não aceita versão inacabada. Ou se compete com convicção, ou se assiste ao adversário escrever a própria narrativa.
Nem mesmo as mudanças trouxeram energia suficiente para alterar o cenário. A cabeça pesava, os erros individuais persistiam e, aos 32 minutos da etapa final, Carlos Vinícius ampliou o placar, transformando a noite colorada em algo próximo do aterrorizante.
A resistência alvirrubra limitou-se a evitar um vexame ainda maior. O Inter cruza as divisas entre Porto Alegre e Canoas carregando mais do que um 3 a 0 nas costas: carrega dúvidas, fragilidades expostas e a obrigação moral de reagir. O prejuízo não é apenas técnico — é simbólico.
A semana será longa. De cobranças, de silêncio e de reflexão. Porque clássico não aceita versão morna, não tolera time que entra para sobreviver. Gre-Nal exige presença, exige coragem, exige alma. E, neste domingo, faltou quase tudo isso. Domingo que vem não é apenas sobre reverter um placar — é sobre reencontrar identidade. Porque camisa se veste, mas postura se escolhe.
Por Jéssica Salini
*Esclarecemos que os textos trazidos nesta coluna não refletem, necessariamente, a opinião do Portal Mulheres em Campo.