Quando a teimosia vira virtude


O Mirassol suporta o peso do jogo, cresce no segundo tempo e empata quando poucos ainda acreditam

A semana que nem chegou ao fim e já carrega histórias importantes para o Mirassol. Em dois jogos seguidos, a equipe soube buscar resiliência diante das adversidades e arrancou pontos valiosos no apagar das luzes. Em Belém, o que era um 2 a 0 para o Remo se transformou em um empate – um suado 2 a 2 – mais do que justo nos minutos finais da partida, válida pela segunda rodada do Campeonato Brasileiro.

Foto: JP PINHEIRO / MFC

Fora de casa — aliás, bem distante de casa — o Mirassol entrou em campo na noite desta quarta-feira (4), no Mangueirão, disposto a manter sua campanha incômoda na Série A. Com todo o desgaste imposto pela longa viagem e por uma semana especialmente agitada, Rafael Guanaes precisou adaptar sua equipe às condições físicas do elenco. O cenário não fugiu muito do que se desenhava no pré-jogo: ajustes pontuais, mas sem abrir mão da identidade.

O início foi quase assustador. Empurrado pela torcida, o Remo fez valer sua força como mandante e, aos 8 minutos, já corria para o abraço. Alef Manga encontrou João Pedro, que precisou de pouco esforço para vencer a defesa paulista e abrir o placar. Em vantagem, o time da casa controlou o ritmo, permitiu que o Mirassol rodasse a bola, mas fechou bem os espaços e neutralizou as ações ofensivas do visitante.

Com o passar dos minutos, o Mirassol tentou se organizar, ocupou melhor os corredores e passou a avançar com mais frequência. Ainda assim, o golpe veio novamente antes do intervalo. Aos 39 minutos, Alef Manga voltou a ser decisivo: o atacante finalizou com precisão, sem chances para Walter, e ampliou o marcador na beirada do primeiro tempo.

O intervalo, porém, foi decisivo. Guanaes leu o jogo, identificou os espaços e voltou com uma equipe mais agressiva. As saídas de Rodrigues e Denilson para as entradas de Igor Formiga e Everton Galdino trouxeram vigor, intensidade e amplitude ao lado direito — exatamente o que o Mirassol precisava para reencontrar o jogo.

O segundo tempo foi de um visitante incômodo, insistente e cada vez mais confiante. O time paulista passou a ocupar melhor os espaços, empurrou o Remo para trás e transformou a posse em território. A pressão aumentou, o jogo passou a ser disputado no campo do adversário, e o banco voltou a ser protagonista. Aos 22 minutos, Guanaes mexeu de forma decisiva: Alesson deixou o campo para a entrada de Everton Galeano, Yuri Lara deu lugar a Aldo Filho, e Carlos Eduardo saiu para a entrada de Nathan Fogaça. As mudanças deram novo fôlego ao time, aumentaram a presença ofensiva e ajustaram o detalhe que faltava até então: transformar volume em ameaça real.

A resposta veio pouco depois. Com mais gente atacando a área e circulação mais agressiva pelos lados, o Mirassol passou a finalizar com mais perigo. Aos 36 minutos, Igor Formiga apareceu como elemento surpresa, atacou o espaço e finalizou com precisão para descontar no Mangueirão. O gol mudou o ambiente do jogo: o silêncio tomou conta das arquibancadas, enquanto o visitante ganhava ainda mais confiança para seguir pressionando.

O empate veio como só vem para quem acredita até o último segundo — para quem transforma a teimosia em virtude e se recusa a aceitar o roteiro imposto. Quando o relógio já parecia inimigo e o Mangueirão ensaiava comemorar a vitória, o Mirassol insistiu mais uma vez. A bola voltou à área, a disputa ficou pesada, ninguém desistiu da jogada. Houve desvio, houve sobra, houve insistência. Nathan Fogaça, que havia acabado de entrar, apareceu onde o jogo exige presença e empurrou para as redes. O grito ficou preso na garganta da arquibancada; do outro lado, o visitante explodiu em alívio, crença e resistência.

O time do interior paulista atravessou o país depois de um confronto exaustivo pelo estadual no início da semana e entregou inteligência, leitura de jogo e estratégia ao longo da partida. Muito se discute até quando durará o fôlego do Mirassol em uma temporada que inclui competições internacionais como a Libertadores e um calendário cada vez mais apertado.

Não é possível prever o que virá pela frente. Mas a aposta segue clara: enquanto for subestimado, o Mirassol seguirá sendo esse time indigesto, que insiste, incomoda e transforma teimosia em ponto.

Por Jéssica Salini

*Esclarecemos que os textos trazidos nesta coluna não refletem, necessariamente, a opinião do Portal Mulheres em Campo.


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