Teranga: a palavra que uniu uma nação ao seu bicampeonato


Contra tudo e contra todos, mas principalmente com os seus, Senegal é bicampeão da Copa Africana de Nações 

Na tarde deste domingo (18), Senegal e Marrocos entraram em campo no estádio Prince Moulay Abdellah, em Rabat, para decidir o título da Copa Africana de Nações. A partida foi marcada por polêmicas como um gol anulado, um pênalti discutível e desperdiçado e a paciência inesgotável dos senegaleses. Uma paciência que nada tem a ver com passividade. O jogo terminou em 1 a 0 para os visitantes e consagrou os Leões de Teranga bicampeões da CAN e, por pelo menos um dia, o orgulho de qualquer azarão que anda neste planeta.

Crédito: Abdel Majid Bziouat/AFP

Para entender como os jogadores puderam se manter uns pelos outros e todos pela nação diante de tantas injustiças aplicadas contra eles, devemos entender o nome que eles carregam: Leões de Teranga. Se tu acompanha futebol, com certeza já se deparou com um dos apelidos mais simpáticos do futebol africano e mundial e pode já ter se perguntado o que ele significa. Sem querer ser simplista demais, essa alcunha meio que significa… Tudo! Tudo sobre ser senegalês, tudo sobre união, tudo sobre orgulho e, talvez a parte mais importante, tudo sobre liberdade. 

A parte do “Leão” é fácil, né? Um dos animais mais imponentes e uma das faces do Continente Mãe. O leão é símbolo de muitas coisas que queremos que os jogadores que vestem a camisa da nossa seleção demonstrem e, entre elas, estão: força, vigor, coragem e tenacidade. Não por coincidência, muitas outras seleções africanas também são representadas pelo Rei da Selva, mas, essa noite, aqui na selva, apenas um leão dorme com a coroa sobre a cabeça.

E, bem, se são os Leões, eles são os Leões de algum lugar ou de alguma coisa. Aqui no Brasil, temos o Leão da Ilha, o Leão da Barra, o Leão do Pici, entre outros, todos simbolizando de onde eles vêm ou quem eles representam. Em Senegal, não é diferente. Teranga é uma palavra no dialeto Wolof e, apesar de não ter uma tradução específica, carrega um mundo de significado. 

A expressão não tem uma data certa de criação, mas o escritor, poeta e ideólogo do conceito de negritude, Leopold Sédar Senghor, leva a responsabilidade de tê-la popularizado quando ascendeu à posição de primeiro presidente de um Senegal recém-fundado. Para ele, mais do que senegalês, marroquino, sul-africano, nigeriano e qualquer outro gentílico usado para dividir a África, aqueles seres humanos eram pretos e parte de uma mesma comunidade. Assim, ao entender que Senegal precisava que suas etnias se unissem antes que pudessem se unir a todas as outras, Senghor atribuiu a palavra que definia o modo de viver dos senegaleses à seleção nacional. 

Crédito: Abdel Majid Bziouat/AFP

Quem vestisse e representasse as cores da seleção, levaria a todos os estádios o significado de Teranga que, em palavras simples, quer dizer hospitalidade, generosidade, solidariedade e acolhimento. Acolhimento esse não necessariamente com quem vem de fora, mas especialmente com quem vem de dentro. E foi isso que vimos esta tarde no Marrocos.

E como estamos falando de palavras e seus significados, algumas frases bem distintas podem nos definir um pouco do que foi essa final de CAN. A primeira delas, retirada do filme Mulan (1998), diz que “a flor que desabrocha na adversidade é a mais rara e mais bela de todas”. E, gente, foi muita adversidade.

Como já era de se esperar, o duelo começou disputado e equilibrado, fazendo justiça às duas gigantes que se enfrentavam naquele momento. Como já sabemos, Senegal lutava pelo bi-campeonato da Copa Africana de Nações, enquanto Marrocos tentava acabar com um jejum que se iniciou há 50 anos atrás, quando conseguiram “copar” o campeonato pela última vez em 1976. Os nervos estavam à flor da pele para os dois lados.

Os donos da casa tinham ao seu favor as palavras de inúmeros jornalistas que cravaram o título de Marrocos como sendo o mais poético, visto suas últimas atuações em Copas do Mundo e o tempo que estavam sem conseguir levar a CAN para casa. Era perfeito pois, desta vez, estavam disputando a taça no estádio inaugurado em 2025 para abrigar a própria seleção. Fora de campo, tudo se desenhava para essa vitória histórica depois de 50 anos. E, bem… dentro de campo precisavam de um pouco mais de palavras para igualar o prognóstico. 

Mal o jogo havia iniciado e Senegal já estava criando chances. Aos 4 minutos, Pape Gueye recebeu uma cobrança de escanteio direto em seus pés e estourou a finalização em direção ao gol. Yassine Bounou se adiantou, mas precisou recalcular rota para evitar vender o título tão barato e tão cedo, segurando a bola em cima da linha. Um lance desses com menos de 5 minutos no relógio já nos dizia o quão intensa seria essa disputa. 

Como na maioria dos jogos muito equilibrados, as jogadas tomaram conta do meio de campo, onde os ataques se mostravam afiados e as defesas mais ainda. A primeira etapa precisou se aproximar do final para que a ação voltasse para perto das áreas. 

Apostando em um contra-ataque rápido ante a uma pressão marroquina sufocante, Nicolas Jackson recebeu pela esquerda e logo virou o jogo com Ndiaye na velocidade pela outra ponta. O camisa 13 saiu livre na frente de Bono, mas acabou morrendo nas luvas do goleiro que, mais uma vez, precisou salvar a seleção de Marrocos de ser vazada. 

O ataque mais perigoso dos donos da casa nasceu de outra finalização senegalesa bloqueada. Depois do capitão Camara tentar o chute, foi a vez do Marrocos sair em um contra-ataque de velocidade. Brahim Diaz, que viraria vilão mais tarde no jogo, acionou Hakimi para que este encontrasse Saibari livre na área, mas o camisa 11 teve sua finalização parada pela defesa adversária, terminando assim o primeiro tempo. 

Então, a etapa complementar vira o palco de um dos maiores escândalos da história da competição. Escandalo esse que vai se construindo minuto a minuto até explodir em um colosso de injustiça que só é parado pois precisa ser combatido face a face, com a bola no pé e punindo todos os cúmplices. O segundo tempo começa e, para ele, te cito a passagem de Provérbios 16:18 que diz que “a soberba precede a queda”. Sim, fomos de Mulan até a Bíblia Sagrada para te contar essa história, pois as palavras estão em todos os lugares prontas para te surpreender.

O equilíbrio seguia evidente, contudo, Marrocos parecia ter entrado um pouco mais no jogo. Aos 12 minutos, Khannouss correu pela direita mirando Brahim Díaz e El Kaabi ocupando espaços da área praticamente sozinhos. O camisa 23 lançou de trivela para que seu centroavante pudesse finalizar forte demais e mandar aquela bola direto para fora. Os Leões do Atlas haviam chegado para lutar pelo trono da selva e não estavam de brincadeira. 

Os avanços marroquinos seguiam firmes e fortes. Brahim Díaz estava em todos os lances, mostrando confiança e fazendo o jogo dos donos da casa fluir. Ligando um contra-ataque diretamente nos pés de El Kaabi, viu seu camisa 20 ser bloqueado e o rebote sobrar para Ezzalzouli. O atacante chutou sem ângulo direto para fora. 

Após a paralisação por conta de um choque de cabeça entre o marroquino El Aynaoui e o senegales Diouf, o jogo voltou sem ritmo, mas ainda pendendo para Marrocos.

Então, no minuto 92, Senegal ganhou um escanteio que foi cruzado direto na área. Disputando espaço com Hakimi, o defensor senegales Abdoulaye Seck conseguiu deslocar o adversário e testar a bola direto para o fundo das redes. O êxtase subiu em todos para comemorar o gol que definiria o bicampeonato dos Leões de Teranga no apagar das luzes. Cinema!!!! 

Contudo, a equipe de arbitragem entendeu que a pressão exercida por Seck para ganhar o espaço em cima do camisa 2 marroquino foi faltosa e anulou o gol, ouvindo protestos senegaleses tão intensos quanto a partida e exaltando completamente os ânimos no Prince Moulay Abdellah. O jogo seguiu, praticamente se encaminhando para a prorrogação.

Então, novamente em um escanteio – mas, dessa vez, para a equipe de Marrocos -, a bola foi alçada na área e Diouf disputou espaço com Brahim Díaz. O jogador do Real Madrid foi ao chão e, após uma análise, o VAR entendeu que a investida do camisa 25 também era faltosa. Duas disputas por espaço, duas faltas para o Marrocos impedindo um gol senegales e agora colocando a bola no pequeno círculo de cal na área dos Leões de Teranga. 

Os ânimos, que já estavam à flor da pele, agora se espalhavam no ar do estádio, ultrapassando qualquer barreira física e unindo todo Senegal em um só sentimento: injustiça. Como poderiam dois lances tão corriqueiros e ínfimos estarem retirando aquele bicampeonato das garras daquele leão e  entregando de patas beijadas ao outro? Que hospitalidade era aquela que estava sendo mostrada à seleção senegalesa? Aquilo era obra de um juíz caseiro ou de uma narrativa muito maior que já estava sendo vendida desde o início da boa campanha de Marrocos?

Independente do que fosse, Pape Thiaw, treinador de Senegal, não se curvaria àquele roteiro injusto no qual seus jogadores eram meros coadjuvantes em uma vitória nefasta e sem sentido. Se fosse para perder, que pelo menos perdesse de maneira digna. Não no apito, mas sim no erro dos seus comandados. A questão é que eles não estavam errando, então forças externas precisavam agir. 

Thiaw não aceitou e retirou seu time de campo. Ao todo, foram 20 minutos de discussão e ponderação, tentando fazer com que Senegal voltasse e terminasse o jogo, mesmo frente aquele roubo que acontecia diante de todos os olhos do mundo. Juntos eles saíram, juntos permaneceram e juntos voltaram com raiva nos olhos e esperança nos pés. 

Existe um ditado no futebol que todo mundo sabe de cor: pênalti roubado não entra. Não faço ideia de como se diz isso em Wolof, mas tenho certeza que o goleiro senegales, Édouard Mendy, sabe essas palavras de cor.
E é agora que juntamos este ditado popular com o versículo bíblico mencionado anteriormente para iniciar o terceiro ato desta história. 

Tendo acompanhado o desfecho deste jogo, é impossível pensar em outro jogador que não Brahim Díaz para assumir a responsabilidade de decidir o título por Marrocos. O camisa 10, que esteve em todos os lugares do campo, construiu jogadas, finalizou, sofreu o pênalti e guiou seus colegas cada vez mais próximos do seu objetivo. É até engraçado que o jogador mais decisivo por Marrocos, até aquele momento, se tornaria um dos mais decisivos por Senegal simplesmente pela sua falta de humildade. 

Díaz caminhou até a área com um sorriso sacana no rosto, entendendo que aquela bola era a decisão que fecharia um de seus melhores jogos com a camisa da seleção. Estrela do Real Madrid, camisa 10 da seleção e herói do fim do jejum dos Leões do Atlas na Copa Africana de Nações. Ele já tinha vestido aquela coroa, pena que ela era muito pesada. 

Ao escolher cobrar um dos pênaltis mais importantes da sua carreira com uma cavadinha, Brahim Díaz esqueceu de duas coisas que eu, tu e agora ele também sabe: a soberba sempre precede a queda e pênalti roubado simplesmente não entra! Ante aquela falta de respeito em forma de cobrança, Mendy permaneceu calmo e pronto para fazer justiça – literalmente – com as próprias mãos. O goleiro senegales conseguiu defender e levar o jogo para os acréscimos, sabendo que tinha chances de se tornar protagonista daquela decisão, mas sem se afobar.

É até difícil conceber que esta final foi jogada em 120 minutos vendo a garra e a raça deixadas em campo. A intensidade não diminuía e os sentimentos precisaram ser domados como leões selvagens para que tudo ocorresse bem e corretamente. 

Talvez 4 seja um número mágico para a seleção de Senegal. Aos 4 minutos do primeiro tempo, Pape Gueye finalizou para defesa de Bono. Já na etapa complementar, o camisa 4, Abdoulaye Seck, conseguiu abrir o placar, mas teve o gol anulado. E agora, 4 anos depois da primeira conquista senegalesa da Copa Africana de Nações, aos 4 minutos do primeiro tempo da prorrogação, Pape Gueye apareceu novamente para unir uma nação inteira em um só grito.

Crédito: ESPN

Depois de recuperar a bola no primeiro terço do campo, a seleção senegalesa puxou um ataque em velocidade, como já tinham visto ser promissor durante os primeiro 90 minutos. O camisa 26 de Senegal deixou Hakimi na saudade e, sem nem pisar na área, finalizou direto no fundo da rede, ouvindo o estádio se desmanchar em uma comemoração que pôde ser ouvida da sua terra natal.

O que se passou depois disso não é relevante, pois é um simples epílogo que não altera em nada esse clímax. A cena que importa aqui é a cabeça de Gueye, herói senegales, postada contra o gramado sagrado em reverência a todos. Não todos aqueles que acreditaram, nem todos aqueles que estavam assistindo ao jogo. A reverência e o agradecimento se espalham e se resumem a todos que entendem e vivem o que é ser senegales. A todos que acolhem. Todos que são hospitaleiros. A todos que são generosos e solidários. Todos. 

No final das contas, Senegal é bicampeão e Brahim Díaz terá outros momentos para tentar usar a coroa que deixou cair em uma cavadinha descabida. Isso não importa mais. O que importa realmente é que, de todas as palavras usadas para redigir este texto e todas as manchetes que previam um desfecho diferente para esta história, apenas uma delas ascendeu em meio às demais: TERANGA! 

Por Luiza Corrêa

*Esclarecemos que os textos trazidos nesta coluna não refletem, necessariamente, a opinião do Portal Mulheres em Campo


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