Entre o sonho e a dor


Raposa vence no tempo normal, luta até o último pênalti, mas vê a temporada terminar de forma cruel na Copa do Brasil

A noite de domingo, 14 de dezembro, carregava aquele peso especial que só decisões sabem ter. Para o Cruzeiro, era o tipo de jogo que prometia entrar para a história: a chance de voltar a uma final de Copa do Brasil, de reafirmar um projeto, de recompensar uma temporada construída com suor, entrega e superação. Mas o futebol, cruel como só ele sabe ser, escolheu outro roteiro.

A Raposa fez a sua parte no tempo regulamentar. Venceu por 2 a 1, foi valente, competitivo e resiliente. Só que a vitória não bastou. Ela empurrou o destino para o lugar mais impiedoso possível: os pênaltis. E ali, onde não há espaço para erro nem margem para explicação, o time paulista acabou sendo mais eficiente e garantiu a vaga para a final.

Os pênaltis surgiram como uma última porta aberta para o sonho. Cássio defendeu a cobrança, os batedores foram perfeitos até onde foi possível, e tudo parecia conspirar a favor da Raposa. Quando Gabriel Barbosa caminhou para a bola, o torcedor acreditou. Era o momento, era o jogador, era o roteiro ideal. Mas o chute não entrou. Depois, Walace também desperdiçou. E ali, em segundos que pareceram eternos, o Cruzeiro viu sua temporada se encerrar da forma mais dolorosa possível.

Foi assim que terminou 2025, de maneira dramática, inesperada e profundamente amarga. Uma temporada tão bem construída, tão competitiva, tão cheia de sinais positivos, acabou ruindo em pequenos detalhes. No futebol, às vezes, um único passo em falso é suficiente para apagar meses de esforço.

Foto: Gustavo Aleixo / Cruzeiro

Primeiro tempo: um gol, um novo capítulo para o jogo

O primeiro tempo do duelo entre Corinthians e Cruzeiro, pela Copa do Brasil, foi escrito sob tensão constante, paciência estratégica e oportunismo celeste. Na Neo Química Arena, o roteiro inicial terminou com vantagem da Raposa: 1 a 0, um placar que não surgiu por acaso, mas como fruto de leitura fria e execução precisa.

Desde os minutos iniciais, o jogo foi travado, intenso, com poucas concessões. Aos 13 minutos, os cartões amarelos para Breno Bidon e Lucas Silva simbolizaram um duelo mais físico do que técnico. O Cruzeiro não se apressou. Trabalhou a bola, controlou os nervos e começou a rondar a área adversária.

Matheus Pereira testou o goleiro aos 17 minutos. Kaio Jorge, aos 25, obrigou nova defesa difícil. O Corinthians respondeu aos 32, em chute de Maycon após passe de Memphis Depay, mas parou na segurança cruzeirense.

O jogo mudou aos 31 minutos, quando Luis Sinisterra deixou o campo lesionado. Em seu lugar entrou Keny Arroyo, que precisou de poucos minutos para transformar a noite. Aos 40 minutos, o Cruzeiro foi cirúrgico: cruzamento preciso, leitura perfeita e Arroyo apareceu no meio da área para cabecear firme, silenciando Itaquera.

Nos acréscimos, o Corinthians ainda tentou reagir, mas desperdiçou. O apito final do primeiro tempo confirmou mais que a vantagem no placar: confirmou um Cruzeiro confiante, consciente e competitivo.

Foto: Gustavo Aleixo/Cruzeiro

Segundo tempo: pressão, resistência e o caminho até os pênaltis

A etapa final começou no limite da respiração. O Corinthians voltou com mudanças e postura agressiva, enquanto o Cruzeiro apostou na inteligência e no controle emocional. Logo aos 6 minutos, a Raposa mostrou que sabia exatamente o que queria. Keny Arroyo, mais uma vez, apareceu decisivo e ampliou para 2 a 0, em lance validado pelo VAR.

A resposta veio rápida. Aos 10 minutos, Matheus Bidu (lei do ex funcionando) marcou de cabeça em bola parada, diminuindo para 2 a 1 e incendiando a arena. A partir dali, a partida virou resistência pura. O Corinthians pressionou, empilhou chances e flertou com o empate.

Entre os 17 e 22 minutos, a bola insistiu em não entrar. Bidu acertou a trave, Breno Bidon carimbou o poste, e o Cruzeiro contou com defesas decisivas e muito espírito coletivo para sobreviver. Mesmo acuado, ainda levou perigo em finalização de Jonathan aos 29 minutos.

Nos minutos finais, o jogo ficou nervoso, fragmentado, tenso. Cartões, faltas e substituições quebraram o ritmo. O Corinthians tentou até o último segundo, mas o Cruzeiro resistiu. O apito final confirmou o 2 a 1, levando a decisão para os pênaltis.

Pênaltis: no limite do coração

A disputa começou com serenidade celeste. Matheus Pereira, Wanderson, William e Lucas Silva converteram com frieza, mostrando personalidade em ambiente hostil. Do outro lado, o Corinthians perdeu logo a primeira cobrança, mas se recuperou com Depay, Garro, Vitinho e Gustavo Henrique, deixando tudo empatado em 4 a 4.

Então vieram os momentos que definem destinos. Gabriel Barbosa teve a chance de decidir, mas parou no goleiro. Pouco depois, Walace também desperdiçou. Dois erros que custaram caro. O Corinthians não vacilou e confirmou a classificação.

Ali, o sonho terminou.

O Cruzeiro se despediu de 2025 sem títulos, mas não sem história. Ficou o gosto amargo do “podia ter sido”, a dor de uma eliminação cruel e a certeza de que detalhes, pequenos, quase invisíveis, mudam tudo no futebol. Ao torcedor, restou carregar a tristeza no peito, mas também a esperança de que, corrigindo os erros, o brilho possa voltar em 2026.

A temporada de 2025 foi marcada por reconstrução, competitividade e claros sinais de evolução. O Cruzeiro voltou a ser protagonista, brigou na parte de cima das competições, entregou atuações consistentes e resgatou a confiança do seu torcedor com um futebol mais organizado, intenso e maduro. Mesmo sem levantar troféus, ficou a sensação de um ano que serviu como alicerce, doloroso no desfecho, mas essencial para que o clube chegue mais forte e preparado para buscar conquistas no próximo ciclo.Porque quem sobrevive a noites assim, segue acreditando.

Por Mury Kathellen

*Esclarecemos que os textos trazidos nesta coluna não refletem, necessariamente, a opinião do Portal Mulheres em Campo


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