Carta de uma (possível) rebaixada


É, chegou o momento de a gente conversar sobre isso

Oi, Luiza! Tudo certo?

Tô te escrevendo porque a gente precisa conversar sobre um assunto sério. Assim, é sério, mas não precisa se preocupar. Tá tudo bem! Quer dizer, eu tô escrevendo isso para garantir que vai ficar tudo bem. Eu sei que pode parecer estranho, mas eu preciso que tu leia tudo que eu vou dizer. Eu não tenho certeza se tu já sabe ler direitinho, se não, outro ano eu tento de novo. A gente dá um jeito. A gente sempre deu.

Bom, eu tô te escrevendo de 2025. Mais precisamente, do dia 4 de dezembro de 2025. Pois é, quase 20 anos se passaram. Não testaram aquela máquina do fim do mundo que tu visse no Yahoo um dia desses. Sim, o meio-ambiente está se esvaindo aos poucos, mas a gente segue firme trocando garrafinha de plástico por inox e tomando banhos curtos achando que o problema é a gente e não o agro. O mundo definitivamente não acabou em 2012, mas se segura que a partir de 2013 o Brasil vai ficar uma loucura. Não, as coisas não vão melhorar depois da Copa de 2014. Aliás, depois de 2016, é só pra trás. 2018 e 2020, então… De qualquer maneira, eu não tô entrando em contato pra falar do mundo, exatamente. Eu tô entrando em contato pra falar de mim. Bom, de ti. Da gente? Sei lá.

Crédito: Agência/Lance

Hoje te acordaram mais cedo, né? O pai chegou pulando no quarto, eu sei que foi assustador, mas não dá pra culpar ele. Pensando agora, eu acho que a gente nunca viu ele tão animado. Aproveita enquanto tu és pequena e todo mundo ainda consegue te pegar no colo. Isso vai ficar cada vez mais raro e não é culpa deles. Nem nossa. Só que ele nem precisava ter te pego no colo, né? Era só ter te gritado que eles iam sair de carro que tu já levantava correndo.

E que viagem de carro! A casa do vô nem é tão longe da Beira, mas parece que levou uma eternidade. Quanta gente na rua dirigindo devagar e buzinando. Quanta festa em lugares que geralmente são tão vazios. Quantos rostos que a gente nunca tinha visto. Tu sabia que tinha essa quantidade de gente em Guaíba? Eu não fazia ideia.

Eu sei que a tua ideia era dar uma cochilada no banco de trás, mas a fuzarca te acordou, né? Eu sei, não julgo! Até hoje, quando eu lembro, eu tenho vontade de pausar as memórias e ficar observando. Cada bandeira pro alto, cada copo de cerveja, cada abraço em desconhecido e cada sorriso que a gente viu. Não quero forçar muito, mas eu acho que esse sentimento moldou um pouco quem a gente é, sabia? Então, por favor, nunca deixa essa memória se apagar. Nutre ela, conversa sobre ela, guarda ela no teu coração porque é lá o lugar dela.

Nunca te esqueces da sensação de descer do carro e ver aquele mar de gente. Aquele mar vermelho tomando a Praça da Maçã e desaguando no rio Guaíba em direção ao Beira-Rio. Não deixa que o vento batendo nos teus cabelos – ainda longos – quando o pai te pegou na cacunda pare de soprar. Te lembra do desequilíbrio necessário para enxergar toda aquela gurizada de cima. Todo mundo fardado, cantando junto como uma comunidade. Deixa que ecoe na tua mente para sempre a voz que berra pelos alto falantes de um carro que o mundo é vermelho. É desse tipo de coisa que a gente tá precisando agora.

Crédito: Diego Vara/CP Memória

Eu sei, a gente não é a maior fã de futebol que existe nesse momento. A gente tem alguns traumas e, me desculpa, mas eles vão piorar. Pensando agora, eu me arrependo muito de não ter te protegido desse ódio que tu pegou pelo esporte na época da escola, mas eu te prometo que isso passa. E eu sei que passa porque, daqui 17 anos, tu será apaixonada por isso. Não só por futebol, mas por vôlei, basquete, tênis, handebol e uma série de outros. Lu, a gente assiste hóquei. HÓQUEI FEMININO! Aliás, a gente precisa conversar sobre essa coisa de gostar muito de sentar perto daquela coleguinha na escola, mas isso fica pra outra carta.

De qualquer maneira, na linha do tempo onde eu vivo, a gente ama esporte. Mais do que isso, a gente ama amar o esporte. É quem a gente é. E isso tem um preço.

Eu tô vindo aqui pra te dizer que quase 20 anos depois de tu viver tudo isso com o pai e o vô, tu vai passar por uma das maiores decepções da tua vida. Bom, em 2016, tu vai ter um gosto disso. A bisa vai falecer bem no final de semana que o Inter cair a primeira vez e isso vai ficar marcado em ti. Quando tu vir o vô gritando com o rádio dizendo que ela não merecia isso, não faz nada. Ele precisa desse momento. Só absorve essa tristeza e dá apoio porque é isso que a gente deve fazer. Essa cena vai ficar marcada na tua mente pra sempre. Só que isso não pode te afastar mais, entendeu? Isso precisa te fazer entender que o esporte – e, principalmente, o Inter – mexe demais com a gente. Tu não entende agora, mas vai mexer contigo também.

Nesse momento, eu tô te escrevendo depois de a gente levar uma sapatada do São Paulo. Isso, aquele mesmo que perdeu pra gente na final da Libertadores. As coisas mudaram e nem a gente, nem eles estão tão em alta assim. Do mesmo jeito, eles acabaram de nos vencer por 3×0. Duro, eu sei. Só que, o pior, é que essa derrota praticamente fechou o nosso caixão e, muito provavelmente, estaremos jogando a série B no ano que vem. Nada disso faz sentido pra ti agora porque o Inter é só o time de vermelho que faz o vô e o pai felizes, mas, acredita em mim, esse negócio virou a nossa vida.

A gente se mudou. Pois é, a gente tá morando em São Paulo! A vida é boa, mas pode ser meio solitária de vez em quando. A gente sente muita falta de casa. Então, a gente encontrou um lugar pra ir pra se sentir em casa. É um bar incrível na Vila Madalena onde tudo volta a fazer sentido quando as coisas estão complicadas. Lá, um grupo bem grande de colorados se reúne para assistir aos jogos do Inter e, de quebra, ser… gaúcho? Eu não sei te explicar, tu vai ter que viver.

Nesse pedacinho de chão que vira o Beira-Rio na zona oeste de São Paulo, todo mundo fala a tua língua. Eles têm as mesmas referências que tu, lembranças parecidas, uma miscelânea de sotaques conhecida e, por algum motivo, eles te enxergam. Te enxergam, enxergam a tua esposa paulista (spoiler!!!) e permitiram que vocês entrassem nesse mundinho deles. Luiza, essas pessoas não são tuas amigas. Elas são a tua família. O Internacional te deu uma família há quilômetros de distância da casa da mãe. Agora tu tem duas. Três, quatro, uma infinidade. Essa família te ama e a recíproca é muito verdadeira.

Nas mesas desse bar tu vai beber, gritar, cantar, rir, fazer amizades, beijar a Verônica e, mais do que algumas vezes, tu vai chorar. Esse é o caso agora. O clima tá horrível pra todo mundo que ama o Inter. A gente tá bravo com a diretoria, bravo com os jogadores. A gente tá bravo até com o Abel Braga, o grisalho que tava na beira do campo no jogo de hoje. A situação tá feia.

Uns dias antes desse jogo, tu vai te estressar com essa situação e vai dizer que não liga mais, que não vai a jogo nenhum e que não quer mais saber do Inter. Tu vai ter um ponto. Contudo, não se abandona a família. Em hipótese alguma.

Crédito: Diego Vara/CP Memória

Então, o que tu realmente vai fazer é sentir esse rebaixamento por inteiro. Todas as fases. A negação, a esperança, a raiva, a barganha, a aceitação, mais raiva, mais negação e mais esperança até que não tenha mais jeito. Então, tu vai vestir a tua camisa vermelha e tu vai compartilhar com a tua família tudo isso. Eles te entendem, mesmo que muita gente não entenda.

Tu vai sentar nessa mesa de bar, dar teus 50 centavos de opinião sobre o que deveria ter sido feito diferente – porque agora a gente entende de futebol – e depois tu vai respirar fundo e seguir a vida. Não é o fim do mundo. Pode parecer que é, mas eu te prometo que não.

Tu vai olhar à tua volta, observando cada um daqueles rostos, daqueles fardamentos e daqueles copos de cerveja e tu vai te transportar direto pra Beira, em Guaíba. Ao invés de entender quantas pessoas existem na tua cidade, tu vai se dar conta do quanto tu ganhou se abrindo para essa experiência de amar e ser o Internacional. Tu vai agradecer por estar sofrendo com todas essas pessoas ao teu redor. Tu vai chorar abraçada na Vê, na Dani, na Dri, na Vi, na Luísa e em quem mais estiver lá. Tu vai fazer piada porque a gente é que nem o pai e faz isso pra amenizar a dor. E aí, a vida vai seguir.

Eu preciso que tu tenha muito claro na tua cabeça que essa dor que tu tá sentindo agora não é metade do amor que esse time te ensinou a sentir. Essa dor não chega perto das comemorações de gols inúteis, derrubando garrafa de cerveja e rindo à toa com a tua família. Esse time te aproximou do teu avô, esse time te dá assunto quase todo dia com o teu pai, esse time adotou a tua esposa. Mais do que um time, essas pessoas fizeram isso.

Então, sente o que precisar sentir, mas lembra sempre de uma coisa: haja o que houver, passe o que passar.

Se eu tenho uma certeza é que nada vai nos separar.

Boa noite, minha campeã do mundo.

Beijos da tua (possivelmente) rebaixada.

Por Luiza Corrêa

*Esclarecemos que os textos trazidos nesta coluna não refletem, necessariamente, a opinião do Portal Mulheres em Campo


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