Não ouse duvidar


Reflexões sobre nós, já que nós somos o Inter

São Paulo, 4 de novembro de 2025. 02h42 e eu estou acordada. Acordada simplesmente porque a Copa Libertadores não me permite dormir. Acordada porque a situação lastimável do meu time tem me tirado o sono. Acordada porque passei as últimas duas horas revivendo momentos inesquecíveis por meio de vídeos no YouTube. É, gurizada, o Inter me obriga a beber! E, na falta de álcool, o Inter me obriga a revisitar tudo que eu sei sobre ele, sobre mim e sobre nós.

Crédito: Eduardo Alex Soares Vergara

Frente a situação iminente de termos o primeiro brasileiro tetracampeão da Libertadores, fui tomada de uma nostalgia absurda referente ao Internacional. Não sei como funciona para vocês, mas a nostalgia sempre me traz uma pitada de luto. Uma tristeza de não poder reviver o que eu vivi, mas, principalmente, de saber que nunca poderei sentir agora o que eu não senti antes. Tá, pode ser complicado, mas eu juro que faz sentido. 

A fim de matar um pouco da saudade que estava de uma noite de Liberta, abri o YouTube para poder ver o show que a nossa torcida sabe dar em ocasiões como esta. Ruas de fogo, sinalizadores, aquecimento de banda, melodias hipnotizantes e as vozes mais altas do mundo prontas para pintar a América do Sul de vermelho. Caldeirão prestes a explodir, as redes das goleiras pintadas de alvirrubro e a certeza de que, vencendo ou não, os jogadores deixariam tudo de si naquele gramado. Raça banhada a trago, amor e paixão. Vontade trajada com a camisa vermelha. Pelo Rio Grande, pela glória eterna, pelo nosso amor.

Claro que ficar frente a frente com toda essa explosão de sentimentos que os jovens hoje chamam de “aura de Libertadores” me apertou o peito. Perguntas me encheram a mente e ecoaram sem resposta. Como pode termos vivido um roteiro de cinema na classificação contra o River em 2023 e depois termos perdido para o Fluminense? Como podem os mesmos Enner Valencia e Roger Machado, tão ovacionados no início de 2024, terem se tornado personae non gratae em tão pouco tempo? Como pode Rafael Borré, um dos jogadores mais sanguíneos que eu já vi, não conseguir mais acompanhar jogadas simples? Honestamente, eu sei que perder para o Flamengo é o curso natural da vida, mas como pudemos recebê-los na nossa casa sem ao menos dificultar para eles? São muitas questões.

Comparar o time que roubou a chance do tetra do melhor São Paulo da história em 2006 e depois repetiu o feito nas semifinais de 2010 com o time que não consegue vazar um fraco Atlético Mineiro dentro do Beira-Rio com um a mais a maior parte do jogo é deprimente. Aliás, é impossível. Tudo sobre o Internacional tem sido assim. Nenhuma opinião serve porque todas são carregadas de um viés que mais atrapalha do que ajuda. Alguns dizem que a permanência de Roger matou o time por si só, outros acreditam que o problema se agravou com a chegada da Família Díaz, terceiros têm certeza que o problema é só dos jogadores. E eu? Eu só acho que tá todo mundo assistindo aos jogos com a televisão desligada.

Enfrentar esse momento de baixa absoluta me fez perder a fé no time. Sinto que estou falando de saudade desde Palmeiras x LDU e não consigo mudar o disco. Estou arranhada, engasgada e presa nos 100 dias de invencibilidade que me fizeram acreditar em algo maior. Estou rebobinando a fita do Gauchão que impediu o octa do rival e dando zoom em cada detalhe tentando encontrar onde tudo começou a dar errado. Meu Deus, que aflição! 

Onde estão os gols impossíveis? Para onde foram os centroavantes que param no ar – ou pelo menos acompanham as jogadas? O que aconteceu com as noites de Libertadores na Padre Cacique? Quando o meu Gigante da Beira-Rio virou só mais um estádio? Será que a gente perdeu o mojo? Será que o Inter já deu tudo que tinha que dar? Será que a juventude nunca conhecerá o Colorado das glórias, orgulho do Brasil? Quem vai ser o anjo a desenterrar o sapo que está empesteando o gramado mais lindo do país? 

Como eu disse, são muitas perguntas e provavelmente não existem respostas individuais para elas. Contudo, rolando a sessão de comentários de um dos vídeos, eu encontrei a frase que me fez voltar à realidade e sair do labirinto no qual eu me prendi dentro da minha própria cabeça. NUNCA DUVIDE DE UM POVO QUE ERGUEU UM GIGANTE SOBRE AS ÁGUAS. Nunca. 

A verdade é que talvez o ano não tenha mais salvação, mas isso nunca vai ser maior que o Sport Club Internacional. Classificando ou não para a Sul-americana, um ano ruim – ou mesmo uma série de resultados adversos -, não muda o que é o Clube do Povo. Nós somos a torcida que viu casa em um terreno inundado. Nós somos a torcida que aterrou um lar com as próprias mãos. Nós somos a torcida que levou os tijolos para construir o nosso santuário sagrado e ninguém pode tirar isso da gente.

Campeão invicto? Eu fui. Maior campeão estadual? Eu sou. Brincar com o São Paulo campeão do mundo? Eu fiz. Colocar o Barcelona do Ronaldinho na roda? Também. Inundar o chopp do rival? Eu faço. Caneco da Libertadores? Eu tenho dois. Caneco de Campeão do Mundo FIFA? Na minha cidade, só eu tenho. Campeão de tudo? Eu sou o primeiro. Clube do Povo? Eu mesmo. Prazer, Sport Club Internacional!

Diretorias mudam, jogadores vão embora, fases ruins perduram, mas elas sempre passam. E o nosso Gigante? Firme, forte e sedimentado na força do sangue vermelho que o colocou de pé e não deixou nem a maior enchente da história do estado fazer a água retomar o seu lugar. Na verdade, nós somos a água da chuva no mar. Nós ainda estamos aqui e nós nunca iremos embora. Juntos, passaremos por essa e por todas as outras que talvez virão.

Haja o que houver, passe o que passar. Esse é o nosso lema. 

Eu te prometo que a gente vai sobreviver a isso. Eu te juro. Não por Deus, mas por Carlitos, Dom Elias Figueroa, Dadá Maravilha, Paulo Roberto Falcão, Bodinho, Valdomiro, Claudiomiro, Manga, Índio, Clemer, Ceará, Rafael Sobis, Fabiano Eller, Alex, Iarley, Adriano Gabiru, (Uh!) Fabiano, D’Alessandro, Fernandão e pelo Seu Cau, o homem responsável por todo o fanatismo que eu tenho por esse clube. Aliás, ele me ensinou que nós não torcemos por um time, nós torcemos pelo Internacional! 

Portanto, torcedor colorado, não ouse duvidar do povo – nem do sentimento – que ergueu um gigante sobre as águas!

Por Luiza Corrêa

*Esclarecemos que os textos trazidos nesta coluna não refletem, necessariamente, a opinião do Portal Mulheres em Campo


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