Bem, amigos… Acabou


Após dois anos do acesso, o Paysandu volta à Série C

Foto: Jorge Luís Totti / Paysandu

Na noite do dia 31 de outubro de 2025, o Atlético-GO fechou com chave de ouro o Dia das Bruxas do Paysandu e de toda a torcida bicolor. De virada, por 2 a 1, o Dragão venceu e oficializou o rebaixamento do Lobo para a terceira divisão com três rodadas de antecedência.

Aliás, não foi a primeira vez que o Atlético-GO foi algoz do time paraense. Em 2018, bastava uma vitória para o Paysandu evitar a queda, aí chegou o goianiense e acabou com a graça. Numa Curuzu lotada, o rubro-negro fez 5 a 2 nos donos da casa e o Papão caiu.

Já são sete anos desde essa vez, mas o rebaixamento de ontem é realmente uma surpresa? Pra quem?

Aos trancos e barrancos, em 2023 o Paysandu subiu. Perdendo para o Volta Redonda-RJ, fora de casa, mas subiu. Quem não se emocionou com o acesso vindo no momento exato em que a imagem de Nossa Senhora de Nazaré, padroeira dos paraenses, passava na frente da sede social do Paysandu durante a trasladação?

Quem não acordou cedo pra receber e agradecer as bênçãos da santinha no domingo de Círio e, em seguida, correu pra receber o elenco no famoso “aerolobo”?

Aqui, com a licença que me cabe, digo que a emoção vem à tona só de lembrar. Que momento vivemos!

Em 2024, começamos campeões. Superando o maior rival na decisão, garantimos a 50ª taça do Campeonato Paraense. Na Copa Verde, um agregado de 10 a 0 nos trouxe o quarto título da competição. Que início! Não é um time, é uma máquina!

Será?

Bastou começar a Série B para contemplarmos a fragilidade do futebol que tínhamos para enfrentar a temporada. Foram cinco anos de tentativas e parece que não estávamos realmente prontos para o momento em que desse certo.

O título paraense e o troféu da Copa Verde mascararam o que nós, torcedores, já percebíamos, mas, naquele momento, escolhemos ignorar.

A primeira vitória no campeonato nacional veio somente na oitava rodada. Alguns resultados positivos e, de repente, o rendimento cai outra vez.

No meio disso, uma crise no vestiário com a guerra nem tão fria entre o infame Hélio dos Anjos e o executivo Ari Barros. No fim, nenhum dos dois venceu. Aliás, o Paysandu também saiu perdendo.

Após nove jogos e nenhuma vitória, Hélio dos Anjos caiu. Valeu pelo acesso, Velho, mas é hora de trazer alguém novo, alguém que traga um novo ânimo pra Curuzu! Certo? Errado! VOLTA, MÁRCIO FERNANDES! Isso mesmo, o técnico que saiu um mês antes da chegada de Hélio dos Anjos. Entre eles esteve Marquinhos Santos, outro reciclado.

Estranho? Não. Isso é Paysandu.

Em meio a polêmicas e insegurança, o Papão até escapou do rebaixamento, mas, literalmente, a que custo?

Era de se pensar que, em 2025, a diretoria tivesse aprendido alguma coisa. Para todo bicolor, esse era o óbvio. Torcedor sonha, né?

O primeiro baque veio no anúncio do executivo Felipe Albuquerque. Odiado pela torcida, falou mal da cidade. O estresse começou cedo. E aí veio a renovação de Márcio Fernandes. Obrigada pela permanência, professor! Mas não precisava, né? Restava aceitar. É como diz meu avô: só tem tu, vai tu mesmo!

O ano começou e o Paysandu logo se fez campeão da Supercopa Grão-Pará. Legal, mas o torcedor tinha o pé, o braço, o corpo todo atrás.

O campeonato estadual começou e o Papão despontava na liderança. Invicto. Entre uma coletiva e outra, algumas palavras-chave foram ditas e se fixavam na mente do torcedor… “Elenco enxuto”, quem lembra? Infelizmente, eu lembro.

Na era dos Anjos, o Paysandu chegou a ter cerca de 40 jogadores no elenco — um número que, segundo Felipe Albuquerque, era insustentável financeiramente. A primeira medida da diretoria foi enxugar o grupo. O resultado? Um elenco enxuto demais. Em muitos jogos, mal havia opções no banco.

Eram quatro competições disputadas pelos mesmos rostos de sempre, enquanto a base… ficou esquecida no churrasco. Os atletas rodavam o país, cansados, lesionados, disputando Parazão, Copa Verde, Copa do Brasil e Série B, sendo peças de reposição de si mesmos.

Daí pra frente, foi só pra trás. No aniversário de 111 anos, o Paysandu conseguiu o improvável: perder para o lanterna do Parazão — um time que, até então, não havia vencido ninguém. Na rodada seguinte, Márcio Fernandes caiu. O cargo ficou com Luizinho Lopes, que pouco pôde fazer.

Sem vitórias na Série B, o Papão ainda arrancou uma vitória heroica na final da Copa Verde. Nos pênaltis, tornou-se o maior campeão da história da competição. Foi lindo, emocionou — mas, diferente do ano passado, a torcida não deixou o troféu mascarar a má fase e o que realmente importava: o campeonato brasileiro.

Com apenas uma vitória na Segundona e eliminado da Copa do Brasil, Luizinho também caiu. Ah, antes dele, o responsável pela montagem do “elenco enxuto” caiu também. Claudinei Oliveira assumiu e todo mundo pensou: “Agora vai!”. Spoiler: não foi.

Aos poucos, a narrativa do grupo reduzido foi ficando pra trás e novas contratações chegaram à Curuzu. Até fizemos uma gracinha contra o líder Coritiba, uma vitória majestosa fora de casa, por 5 a 2. Lindo!

O torcedor mais otimista não poderia prever esse momento. Ali parecia que ainda tínhamos chance, que nada estava perdido. A esperança é mesmo a última que morre.

Nesse meio-tempo, o transfer ban. O Paysandu foi multado pela FIFA por inadimplência. Devia milhares de euros pela contratação de um atleta que jogou somente metade de uma partida em 2024. Ficou impedido de registrar novos jogadores.

Houve campanha de arrecadação entre os torcedores e até apoio do governo, com o aumento de patrocínio, para que o clube quitasse a dívida. Que ano…

Claudinei resistiu até onde foi possível. Foram 14 jogos, quatro vitórias, cinco derrotas e cinco empates. E naquela situação, quem iria querer assumir a responsabilidade? Foram inúmeras ligações até que alguém aceitou.

Pode entrar… Márcio Fernandes. A exatamente um ano da sua contratação para tentar manter o clube na Série B em 2024, ele voltou.

Em dez jogos, uma vitória. E, novamente, a mais improvável. Fora de casa, o Paysandu venceu o Criciúma-SC, um dos líderes da tabela, por 4 a 2. Coisas que só o futebol explica.

Um resultado que não fez nem cócegas no torcedor — a situação já era difícil demais, e milagres não acontecem todo dia. Se me permite, nem todo mundo merece um milagre, na verdade.

Dentro de campo, apenas o reflexo do que vinha de fora. Faltava firmeza, segurança. Uma direção omissa, descompromissada, que errou em todas as decisões do ano e esperava o acesso como resposta.

Às vésperas da queda, parte da torcida protestava em frente à sede social do clube. Liderados por outros aproveitadores, exigiam mudanças e maior participação do torcedor nas decisões internas.

No pós-jogo, um executivo abatido, exausto. Corajoso, declarou com a voz embargada e o rosto molhado pelas lágrimas: “Manchamos a história do clube.”

Impossível discordar. Rebaixados. Derrotados. Apequenados. O resultado que seguiu o planejamento à risca. Ou era de se esperar algo diferente de um time que, em 34 rodadas, esteve 31 vezes no Z4 sendo 17 delas na lanterna?

Foto: Jorge Luís Totti / Paysandu

No fim, quem paga o preço é a torcida. Cada assento ocupado, cada voz que ecoa no estádio, cada coração aflito. Faça chuva ou sol, seja dia ou noite, no torcedor é onde está a alma do Paysandu.

Uma instituição gigantesca que, pela história e tradição, não merecia o desfecho que teve.

Deixo aqui um “até logo!” e o desejo de que voltemos mais fortes e — Deus queira — melhores também.

Por Giovanna Queiroz

*Esclarecemos que os textos trazidos nesta coluna não refletem, necessariamente, a opinião do Portal Mulheres em Campo


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