Uma noite para a arte do improvável


Na Avenida Padre Cacique, sobre as águas do Guaíba, sustentado pela fé de seu povo, o Internacional busca o improvável

Dentro de casa, sob seus domínios, nas marcas que transformam águas em chão, embalado pelo silêncio infindável de orações e cantos de amor centenários, o Sport Club Internacional recebe o Flamengo, pelo jogo de volta das oitavas de final da Copa Libertadores, às 21h30 desta quarta-feira (20). O Colorado ousa sonhar com mais uma noite de glória, buscando a eternidade dourada reservada aos que resistem.

Foto: Reprodução Internet

Contra o favorito, contra o milionário Flamengo — que fez o dever de casa e chega em vantagem após o 1 a 0 no jogo de ida — o Internacional entra em campo já correndo atrás do resultado. Um prejuízo permitido, mas que poderia ser bem maior. E aqui cabe dizer: adversários como o Colorado só se dão por vencidos quando “a faca que faz sangrar é girada”. Ao Rubro-Negro foi entregue a faca e a oportunidade, mas ainda há história a ser escrita.

O improvável circunda o Clube do Povo: o estádio erguido sobre as águas, o gol ensolarado e mágico, o pênalti defendido por Rochet num passado não tão distante, o improvável gol de Valência em uma final que parece ter sido encomendado diretamente a Deus em uma encruzilhada de adoração.

No fim do caminho, onde chegam ruas forjadas por fogo e fé, o Colorado encara uma partida pesada. São 90 minutos finais que definem não apenas a continuidade na competição, mas também o futuro de um provável “Projeto Roger Machado” — que tem cambaleado justamente sobre as teimosias de um homem que devolveu ao Beira-Rio o gosto de um grito de campeão. Se houver momentos para duvidar do professor à beira das quatro linhas, que seja apenas após o apito final. Até lá, que até as instruções mais controversas sejam seguidas como sagradas.

O Flamengo chega ao confronto respaldado pela vantagem, pelo elenco soberbo e pela vitória sonora no último domingo, pelo Campeonato Brasileiro. No entanto, mais uma vez, eu peço — como quem já enlouqueceu tantas vezes na mureta do Beira-Rio em noites intranquilas — que se acredite, acima de tudo, no escudo, nas cores, no canto ora ensurdecedor, ora calmante, que envolve como um arco dourado de proteção e oxigênio.

Na tática e na lógica, Roger precisa encantar seus jogadores para que voltem ao momento da vida em que mais jogaram futebol de verdade. No 1 a 1, a lógica abandona a fé e encerra o confronto. O Inter, de fato, não vem mostrando futebol suficiente para bater o Rubro-negro. Nas pernas, é loucura falar em superioridade gaúcha. É na magia que nos apoiamos, fazemos dela bússola — ainda que, vez ou outra, a lucidez nos alcance.

Ao campo, o professor — que também joga a própria continuidade no Beira-Rio — deve mandar o seguinte Internacional: Sérgio Rochet; Aguirre, Vitão, Juninho e Bernabei; Thiago Maia, Alan Rodríguez, Bruno Tabata, Alan Patrick e Wesley; Ricardo Mathias.

Mais uma vez, eu não posso prometer nada. Talvez, apenas os deuses. E ainda assim, toda promessa, além de nossa vontade, depende da decisão de se fazer valer. Todavia, mesmo que esta seja a noite da despedida da Copa Libertadores, mesmo que a trajetória rumo ao tricampeonato se encerre em 20 de agosto, peço que, outra vez, não se deixe de honrar o amor por aquele que nasceu em 1909.

Por Jéssica Salini

*Esclarecemos que os textos desta coluna não refletem, necessariamente, a opinião do Portal Mulheres em Campo.


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