É, Dani Ortolan, é muito bom sentir o que é ser Juventude


Esmeraldas passam para as oitavas de final nos pênaltis com cobrança decisiva da estreante 

Imagine o quão incrível seria estrear com a camisa alviverde, abrir o placar aos seis minutos e fechar as cobranças de pênalti com o Papão classificado? Muito, né! E foi exatamente o que Dani Ortolan fez nesta terça-feira (5) ao garantir, em pleno Alfredo Jaconi, a classificação do Juzão em cima do Fortaleza para as oitavas de final da Copa do Brasil. No tempo normal, 2×2, começando com a cabeça dela. Nos penais, 4×2 terminando com os pés dela. Que estreia abençoada, minha centroavante!

(Crédito: Fernando Alves/ECJ) 

E aqui não tem jogo fácil. Como definiu a centroavante reforço do alviverde: isso é ser Juventude! É suado, é sofrido, mas o bem vence no final. Mesmo assim, qualquer ajuda em uma partida importante como essa – com uma vaga na próxima fase da Copa do Brasil e R$50 mil em jogo para o clube – é muito bem vinda. Além da energia adicional da nossa nova camisa 99, ainda contamos com uma mística que não vinha muito presente na modalidade masculina.

O Estádio Alfredo Jaconi é uma carta na manga na vida das Esmeraldas. Mesmo dividindo alguns jogos entre sua casa, em Caxias do Sul, e o Estádio Montanha dos Vinhedos, em Bento Gonçalves, as Esmeraldas carregam em números o verdadeiro significado da chamada “mística do Jaconi”. Desde a reabertura do programa feminino em 2020, as Gurias perderam no Jaconi apenas uma vez. A derrota em questão foi no embate contra o São Paulo pela décima quarta rodada do Brasileirão A1 deste ano. Antes disso, apenas Bento Gonçalves havia presenciado derrotas do Papão como mandante. Se isso não é magia, pode ser pelo menos uma benção.

Munidas de alguns números ao seu lado, as Jaconeras entraram com certo favoritismo, abrindo o placar logo aos 6 minutos com uma testada deliciosa de Dani Ortolan. Sua xará, Dani Venturini, cobrou uma falta pelo lado esquerdo lançando a bola para dentro da área. A camisa 99, centroavante ambivalente que é, subiu mais alto que todo mundo e carimbou sua estreia pelo Juzão com o pé direito. Na realidade, sem pé nenhum, mas com a cabeça erguida. 

Os minutos foram passando, a bola foi rolando e a partida que começou já com emoção foi se tornando um pouco mais difícil do que o previsto, mas nada preocupante. Antes do empate realmente chegar, o Fortaleza teve duas boas chances passando direto da goleira para a linha de fundo. Natalia, de cabeça, e Thalita, cruzando, começavam a rascunhar o que se tornaria um adicional de ansiedade nos corações jaconeros.

Renata vinha fazendo uma ótima partida, como geralmente faz. Dando confiança às suas companheiras e se mostrando atenta a tudo, a camisa 1 acabou lembrando que se tem alguém que é injustiçado em um 11 contra 11, essa pessoa é a goleira. Em uma falta de atenção da defesa, a meio-campista Leidiane roubou a bola e testou de longe, sem compromisso. Não é que a bola encobriu a goleira jaconera de 187 cm e entrou? 1×1, e muito jogo pra rolar ainda. 

Ao invés de se deixar abalar pelo gol sofrido, as Esmeraldas se mantiveram focadas no objetivo. Perder não era uma opção. Obstinadas a sair dali com a vitória, ou pelo menos com uma disputa de pênaltis onde elas chegariam com ar de dominância, as Gurias Jaconeras não permitiram que as Leoas respirassem depois do empate. De tanto pressionar, levaram as adversárias à desorganização. 

É óbvio que quando ocorre um gol contra, sempre olhamos muito para o atleta que acaba atacando contra seu próprio patrimônio. Muitas vezes desatento ou mal posicionado, o jogador vira o foco de atenção das críticas da torcida. Não acho que está errado, longe disso, mas muitas vezes estamos vendo o resultado de uma pressão bem executada por parte da outra equipe. A defesa, quando não vê escapes nem pelo meio, nem pelas laterais, acaba tentando tirar de qualquer jeito, afundada no impulso ansiogênico de se livrar da pelota e não precisar se preocupar com mais uma investida por alguns momentos. Infelizmente – para elas e felizmente para nós -, a lateral Thalita acabou sendo uma vítima deste mal.

O Juventude continuou sufocando. Dani Ortolan queria muito deixar um doblete em sua estreia e Dani Silva queria muito uma assistência, contudo, nenhuma de suas tentativas se concretizou. Até que, aos 42 minutos, Carol Ladaga levantou em direção à camisa 99 dentro da área. A lateral-esquerda do Leão sabia que se aquela bola chegasse na cabeça de Ortolan, o gol era certo, então decidiu intervir. A camisa 6 antecipou e desviou a bola antes que encontrasse Dani, porém não conseguiu dar muito destino e a pelota acabou dentro das redes de Lorrana. 2×1.

Como se fosse um modus operandi desta partida, assim que levou a virada, o Fortaleza começou a bater mais, buscando aproveitar ao máximo os três minutos mais acréscimos que restavam. Querendo deixar tudo igual, a lateral-direita Isabela chutou contra a trave. O rebote sobrou nos pés da atacante Natália, que tentou matar como a posição pede que ela faça. Um ótimo chute que em qualquer outro dia teria cruzado a linha e colocado mais um gol no placar. Contudo, hoje não. Na tarde desta terça-feira, a zagueira Rayane Pires estava a postos para tirar com o corpo praticamente de cima da linha e evitar o empate. “UH!” fez a torcida. 

No segundo tempo, o chumbo seguiu sendo trocado entre as duas equipes. Andressa Anjos tentou de falta para o Leão do Pici, Eduarda Tosti tentou da mesma forma para o Papão. Isabela arriscou um chute direto nas mãos de Renata, Dani Silva finalizou sem força nas de Lorrana. A intensidade estava consumindo ambos os times, porém, o Fortaleza ainda corria um pouco mais atrás do prejuízo. 

Então, novamente em uma cobrança de falta, Thalita puxou a responsabilidade de tentar resolver e se redimir pelo fogo amigo. Da meia-lua, a lateral cobrou uma falta direto para a meta das donas da casa. Todo mundo foi enganado quando a gorduchinha triscou na trave, mas ela tinha endereço certo. Renata nada pôde fazer para evitar o empate. 2×2.

Seguindo o roteiro do jogo, logo após levar o gol que igualou tudo no Alfredo Jaconi, o Ju voltou a tomar as rédeas da situação. Armando um contra-ataque rápido pela direita do campo após um lateral mal batido pelo Fortaleza, o Juzão trocava passes longos e certeiros que passaram principalmente por Dani Silva e Flávia Pissaia. O último passe veio ainda um pouco de trás da área e a ideia era permitir que Dani Ortolan pudesse se infiltrar e sair livre em frente ao gol. Assim que a centroavante se colocou em posição de dominar a bola, a defensora Julia do Leão do Pici impediu que a jogada continuasse, chocando sua canela com a da camisa 99. Ambas foram ao chão enquanto a pelota sobrava nos pés de Dani Silva, que finalizou para fora.

Essa descrição, a imagem e a reação de dor de ambas as jogadoras estateladas no gramado mostra que não houve qualquer toque na bola para interceptá-la e impedir de forma legal que a jogada continuasse. Até onde eu sei, falta dentro da área é pênalti, mas a professora Maria Luiza Brandellero dos Santos entendeu o lance apenas como um choque normal de jogo. Normal. Onde uma atleta impede que a outra chegue livre no gol se utilizando de um chute que não pega na bola mas, sim, em cheio em suas canelas. Normal. Tá…

Depois do possível pênalti sonegado, o Verdão seguiu na pressão e incomodou com algumas bolas alçadas na área a partir de cobranças de falta, mas nada que desse frutos. As jogadas eram boas e as Gurias Jaconeras tentaram com vontade até o final. Aliás, que final longo. Enquanto as Leoas iam caindo pelo gramado, um pouco desgastadas e um pouco fazendo cera, a professora estava gostando do jogo e deixou que a etapa complementar seguisse até os 53 minutos. 

Aos 53 minutos e 18 segundos, Maria Luiza Brandellero dos Santos apitou e apontou para o centro do gramado anunciando que sim, ela havia voltado, a mais temida decisão de vaga de qualquer campeonato: a disputa por cobranças de pênalti. Honestamente, todo mundo gosta de pênalti quando não se importa com o time que está em campo. Quando é o seu time do coração, todo mundo tem certeza que a primeira batedora vai errar. Meu Deus, como eu queria estar errada.

Na primeira batida do Ju, a lei do ex reversa funcionou e Flávia Pissaia – excelentíssima batedora de pênalti, porém ex-Fortaleza – cobrou fraco demais à direita, direto nas mãos de Lorrana. Nas arquibancadas, apenas um nome era ouvido. Renata. Se a goleira pegasse o próximo, tudo recomeçava zero a zero. A camisa 1 se posicionou em cima da linha e pulou algumas vezes. Não brincou de escolher canto, apenas ergueu os braços mostrando sua envergadura, deixando claro que qualquer canto é perto para uma mulher de sua estrutura. Andressa Anjos, que tinha recém visto uma cobrança fraca acabar nas mãos da sua goleira, decidiu fazer a mesma coisa e teve o mesmo fim. Renata encaixou e ouviu o estádio berrar ainda mais seu nome. 0x0.

A próxima cobrança por parte do Ju foi de Dani Silva. A ponta arrumou a bola, se concentrou, tomou distância e meteu uma bucha de canhotinha, que raspou na trave e acabou no canto esquerdo das redes de Lorrana. Caramba, Dani, que susto! Natália, atacante do Fortaleza, tomou muita distância e cobrou tentando pegar o alto da meta pelo meio da rede, contudo, conseguiu apenas fazer um cosplay de Roberto Baggio. Renata comemorou muito e a galera foi com ela. 1×0.

Carol Ladaga foi endiabrada iniciar o terceiro round de cobranças. Tomou distância, calibrou a esquerdinha e pimbou a gorduchinha, matando a coruja que dormia no canto direito de Lorrana de susto. A goleira Renata chegou a levantá-la do chão na hora de comemorar. A lateral-direita Isabella escolheu um movimento mais clássico. Fingiu entregar o canto para a camisa 1 do Ju, mas chutou firme na esquerda. Goleira para um lado, bola para o outro. 2×1.

Iniciando o quarto round, Bell Silva se distanciou seguindo um caminho rente a onde estava a bola, sem querer entregar o lado também. Nada de muito espalhafatoso. Um chute baixo e confiante do meio pra direita do gol. Se Renata pegasse agora, ou se Geicy errasse, era só correr para o abraço. A goleira do Ju até acertou o lado, mas a bola foi mais rápida. O Fortaleza ainda estava vivo no jogo, mas contando com o erro do Juventude. 3×2.

E é claro que aí vinha ela. Dani Ortolan marchou até a marca do pênalti respirando ofegante, com os olhos focados. Uma bola na rede e ela classificaria o Juzão para as oitavas de final da Copa do Brasil em sua tarde de estreia. Seria bom demais pra ser verdade… Ou não. A camisa 99 tomou pouca distância e encarou Lorrana com as mãos na cintura. Dani chutou cruzado com a perna direita. A goleira do Fortaleza até roçou a mão na bola, mas essa não era a tarde dela. Era a tarde de Dani Ortolan, centroavante matadora e responsável pela classificação do Ju. 

(Crédito: Fernando Alves/ECJ) 

A comemoração foi geral. Corrida até as parceiras. Abraço. Emoção. Agradecimento. Tapas carinhosos na goleira por ter agarrado uma das cobranças. Toda aquela felicidade estampada nos olhos daquelas gurias me fez lembrar o que me encanta na modalidade feminina desse esporte. Não que alguma vez eu tenha me esquecido. Jamais. Contudo, ver Dani Ortolan, ex-craque do Flamengo, batendo no escudo do Ju com a voz cansada de tanto comemorar e saudando em festa o que é ser Juventude em seu primeiro jogo renova as minhas energias. 

Sim, a modalidade ainda é muito maltratada e sucateada pela maioria das federações. Sim, a CBF e os canais de comunicação que trabalham com o futebol de mulheres parecem entender muito pouco do material humano com o qual eles trabalham. Sim, ainda estamos plantando muito para colher no futuro. De qualquer jeito, ver os olhos de uma atleta brilhando depois de ser importante para que o seu clube suba degraus em direção a uma conquista é uma das melhores coisas do mundo. Dá propósito a tudo isso que nós fazemos. 

Eu não cubro futebol feminino só porque eu gosto de assistir e me divirto. Eu cubro também por isso, mas, principalmente, porque essas jóias só brilham se tiver alguém olhando para elas. Não que elas precisem de validação, nada disso. Elas precisam de público, de dinheiro, de contratos formais de trabalho, de salário e de meios dignos para exercerem o dom que lhes foi dado no nascimento.

Se não tiver ninguém para apoiar o futebol feminino, não teremos a Monalisa do Flamengo dando passe de calcanhar, não teremos a Capelinha do Internacional fazendo gol de falta do meio da rua, não teremos a Layza do Sport empatando o jogo no último minuto possível, não teremos a Amanda Gutierres sendo artilheira pelo seu time e pela seleção, não teremos clubes hexacampeões, não teremos uma base sólida de atletas para nos encantar e muito menos uma Marta para fazer mágica com os pés.

Se uma árvore cai no meio da floresta sem ter ninguém por perto, será que ela faz barulho? A gente não tem como saber, mas a gente sabe o que pode acontecer com o nosso futebol feminino se ninguém estiver olhando. Vamos olhar, vamos sentir e vamos celebrar as Danis Ortolan que chegam nos nossos times, afinal, é muito bom sentir o que é ser qualquer coisa que tu queira ser. Principalmente, se for Juventude. 

Por Luiza Corrêa

*Esclarecemos que os textos trazidos nesta coluna não refletem, necessariamente, a opinião do Portal Mulheres em Campo.


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