Filipe Luís foi claro: talento não basta quando o compromisso fica no vestiário
A relação entre Pedro e o Flamengo se equilibra na corda bamba há tempos. A cada nova temporada, torna-se mais difícil não enxergar esse desgaste como um roteiro mal escrito por mãos mimadas. De um lado, um centroavante que já foi decisivo, reverenciado e cobiçado, e do outro um clube que ofereceu estrutura, respaldo e sejamos honestos? paciente demais.

São tantos episódios conturbados envolvendo o camisa 9 da Gávea… Ainda em 2021, durante a passagem de Rogério Ceni no comando técnico, uma cena chamou atenção em pleno Maracanã. Após ser substituído por Muniz no jogo contra o Fortaleza, Pedro reagiu de forma explosiva: chutou o gramado, ignorou o cumprimento do companheiro que entraria em seu lugar e, ao se sentar no banco de reservas, arremessou com força as caneleiras, enquanto resmungava palavrões, visivelmente irritado.
Na época, durante a coletiva, Ceni não escondeu o incômodo, classificou o comportamento como uma “cena lamentável” e lamentou o episódio, frisando que “não é da característica do Pedro, que é um bom menino”.
Em 2022, uma situação envolvendo a família do jogador chamou a atenção de jornalistas e torcedores. Durante uma partida do Campeonato Brasileiro contra o Palmeiras, no Maracanã, a mãe do atacante teria chorado nas arquibancadas pela falta de oportunidades do filho no time. Na época, o técnico Paulo Sousa optou por não utilizar Pedro, que atuou apenas 34 minutos em cinco jogos, gerou repercussão entre os presentes e evidenciou o momento delicado que o jogador vivia, com poucos minutos em campo e cada vez mais distante do protagonismo no elenco.
Já em 2023, um outro ex-técnico do Flamengo, Dorival Júnior, que comandou o time na segunda metade de 2022, revelou em entrevista à ESPN que também precisou intervir diretamente com Pedro. Segundo o treinador, ele chamou o atacante para uma conversa franca, dizendo que “um jogador do nível dele não poderia estar no momento em que estava vivendo” e que “muito disso era por conta do desleixo que ele vinha apresentando”. Dorival pontuou que Pedro não participava ativamente das atividades e do grupo, mas reconheceu que, após o diálogo, o atacante mudou de postura.
Já sob o comando de Sampaoli, Pedro, mesmo com números superiores aos de Gabigol na época, era constantemente preterido. No campo, rendia. Fora dele, colecionava frustrações. Até que veio o estopim: um não-aquecimento em um jogo contra o Atlético-MG e uma agressão no vestiário. Socos, polícia, boletim de ocorrência. Uma cena lamentável, em todos os aspectos. Pedro virou vítima, e com razão, nada justifica uma agressão. O agressor pediu demissão, a diretoria abraçou o camisa 9 e tudo parecia caminhar para uma trégua.
Pedro chegou a cativar uma espécie de cadeira cativa no coração de parte da torcida. Para muitos rubro-negros, especialmente os que preferem seu estilo ao de Gabriel Barbosa, ele já era tratado como ídolo. Declarava amor ao Flamengo com frequência e chegou, inclusive, a recusar propostas do exterior em nome do sonho de brilhar com a camisa rubro-negra. Mas tudo que é bom dura pouco, e com a paz entre as partes não poderia ser diferente.
Meses depois, sob nova comissão técnica, o enredo ganha outro tom. Filipe Luís, em sua postura serena, mas firme, revelou em coletiva o que muitos já desconfiavam: o comprometimento de Pedro caiu. Na semana do jogo contra o São Paulo, o atacante “beirou o ridículo”, abandonou um treino antes do fim e foi o pior em todas as métricas físicas coletadas pela comissão. Em um grupo que respira intensidade, a ausência de entrega incomoda e, para Filipe, contaminar o ambiente não é uma opção. A ausência na lista de relacionados foi, portanto, uma escolha consciente. Necessária.

É curioso, e ao mesmo tempo triste, ver um jogador tão talentoso, que já foi considerado uma joia rara do futebol brasileiro, se perder no próprio orgulho. Quando as críticas são justas, é preciso ouvi-las. Quando o desempenho cai, é preciso aceitar a cobrança. Pedro, no entanto, parece mais à vontade em se posicionar como incompreendido do que em rever a própria postura.
Houve até cartaz na arquibancada pedindo a volta do 9. A torcida, como sempre, estende a mão. Mas o Flamengo é maior que qualquer individualidade. E o recado da comissão técnica é claro: o ambiente não será refém do estrelismo.
Essa história ainda pode ter novos capítulos. Filipe deixou a porta aberta: basta que Pedro peça desculpas ao grupo, demonstre arrependimento e volte a competir com seriedade. Mas, para isso, é preciso que o jogador queira. Que se enxergue como parte de algo maior. Que entenda que ser ídolo exige mais do que gols: exige entrega.
Pedro já teve tudo para ser protagonista no Flamengo. Hoje, porém, parece mais interessado em escrever a crônica da própria queda. Ainda há tempo de virar a página, mas para isso, será preciso reaprender a ser jogador. De verdade.
Por Kamilly Mácola e Rayanne Saturnino
*Esclarecemos que os textos trazidos nesta coluna não refletem, necessariamente, a opinião do Portal Mulheres em Campo