De virada, Al Hilal bate Manchester City e se garante nas quartas de final para enfrentar o Fluminense pela Copa do Mundo de Clubes
Ah! Que boas surpresas podem ser trazidas por uma Copa do Mundo, seja ela do que for. Imagine só que no mesmo dia poderíamos estar assistindo a Nerazzurri ser engolida pelo Tricolor de Renato Gaúcho e, para fechar o dia com chave de ouro, acompanhar o Al Hilal de Marcos Leonardo combater o Manchester City de Pep Guardiola pelo placar de 4×3. Dia das zebras? Claro que não. Dia da magia do futebol entrar em campo, principalmente, no Camping World Stadium, em Orlando.

Para contar a história desse jogo, preciso voltar para o já longínquo ano de 2022, pois é lá que a mágica começa. No dia 22 de novembro daquele ano, se encontravam Argentina e Arábia Saudita pela Copa do Mundo de Seleções. Naquele momento, não sabíamos que La Albiceleste se sagraria tricampeã no Catar, mas todos tínhamos a leve impressão de que seria um confronto fácil. Messi e amigos de um lado, 11 jogadores que mal conhecíamos do outro. Era simples de imaginar o resultado.
Aos 10 minutos, Messi marcou de pênalti e achamos que a tônica estava definida. Nunca que os Falcões Verdes vazariam as redes de Dibu Martínez. Contudo, aos 48’, o empate veio pelos pés de Saleh Al Shehri, hoje atacante do gigante Al Ittihad. A partir daí, entendemos que nenhum jogo se ganha antes do apito final e, muito menos, antes do apito inicial.
A Arábia Saudita dominou os hermanos e, para coroar aquela estreia e colocar um sorriso na boca de todos os torcedores dos Akhdar, Salem Al-Dawsari fechou o placar aos 53’. 2×1 para os Verdes, fora o tapa na cara de todos os ocidentais que ousaram achar que um dos maiores do oriente cairia aos pés da Argentina sem ao menos lutar.
O sobrenome Al-Dawsari é bastante comum na Arábia Saudita e vem de um grupo étnico extremamente populoso na região que ajudou a delimitar as fronteiras entre o Catar e Bahrein. Não por acaso, o time do Al-Hilal conta com dois meio-campistas com este nome na camisa. Salem, que derrotou a Argentina campeã do mundo, e Nasser, que derrotou o City campeão de tudo. Ambos desacreditados em Copas e diante dos olhos de todos.
Assim como em 2022, o placar foi aberto pelos favoritos antes dos 10 minutos de jogo. Dessa vez, com bola rolando e pelos pés de Bernardo Silva, deixando o time de Manchester na frente. O gol foi contestado pelos adversários, visto que o lateral-esquerdo At-Nouri teria ajeitado a bola com o braço antes de entregar a assistência ao companheiro, porém o VAR não chamou e ficou por isso mesmo.
A partir dali, esperava-se uma goleada de proporções homéricas, mas o que recebemos foi um jogo cadenciado, lá e cá onde os Citzens ditaram o ritmo e o Za’eem deu uma aula de como jogar sem a bola. Sempre nos lugares certos e protegida pelas mãos do goleiro Bono, a equipe saudita saiu mais para o jogo no final do primeiro tempo, contudo não o suficiente para empatar.
A volta para a segunda etapa foi energética e antes mesmo de fechar o primeiro minuto, Malcom cruzou pela esquerda e viu o, também brasileiro, Marcos Leonardo ganhar pelo alto e deixar tudo igual. 1×1.
Mesmo assim, a blitzkrieg saudita estava posicionada e cinco minutos depois o lateral Cancelo encontrou Malcom com um passe de trivela antes do meio campo, que permitiu que o brasileiro-russo pudesse seguir praticamente sozinho em direção à meta e finalizar na saída do goleiro Ederson. Impressionante que o Brasil tem sido tão protagonista nessa copa que, mesmo sem times do Brasileirão em campo, as nossas joias seguem sendo mencionadas em lances importantes. A virada chegou aos 52’.
A partida estava tão insana e rápida que, logo após três alterações de Guardiola, aos 55 minutos, Bernardo Silva levantou na área e o craque Haaland colocou para dentro de cabeça. Naquele momento, o êxtase tomou conta de todos que assistiam ao espetáculo tanto de Orlando, como em qualquer lugar do Brasil. Juntando-se aos confrontos entre Palmeiras x Botafogo e Benfica x Chelsea, Manchester City x Al-Hilal nos entregou a terceira disputa de prorrogação da competição. Se tem mágica, precisa ter esforço e esse era o momento de mostrar quem queria mais. Acima de qualquer limitação física e qualquer cansaço, a realeza é coroada quando o talento não é mais o suficiente. É preciso ser sobre-humano.
Na minha opinião, dizer que este embate demonstrou o melhor uso do jogo aéreo em toda a competição é ainda ser muito sutil. Ambos os times entenderam o ar como uma continuidade natural do gramado e se utilizaram muito bem disso.
Um exemplo desse bom uso foi a segunda virada do Al-Hilal, quando Ruben Naves cobrou o primeiro escanteio da prorrogação na área e encontrou Koulibaly pronto para voltar a dianteira no placar. Seu cabeceio tirou Ederson do lance e invadiu a rede pelo lado direito, recompensando a partida incrível que fazia. 3×2.
Assim como no segundo tempo, os Citzens responderam rapidamente e sem deixar que 10 minutos transcorressem, o recém-entrado Phil Foden deixou tudo igual. É de momentos como esse que craques são feitos. Guardiola sabia que podia confiar no seu camisa 47 acima de qualquer coisa – menos da obstinação da Realeza Saudita.
O Patrão, como é conhecido pela torcida, não havia batalhado até ali para deixar que tudo se perdesse. O Manchester City só havia estado na frente no marcador quando abriu o placar, depois só precisou correr atrás do prejuízo. O cansaço era demais para que permitissem decidir aquilo na cobrança de bola parada contra um dos melhores plantéis no assunto. Era, mais uma vez, preciso ser sobre-humano.
Amar o esporte é amar o improvável. É desconhecer o impossível e acreditar no inacreditável. Amar o esporte é se preparar para o pior já sabendo quem será a primeira pessoa que vamos abraçar quando o melhor acontecer. Amar o esporte é ser refém do suor que representa o esforço e súdito das lágrimas que fecham ciclos.

Amar o esporte é, também, saber que tudo é decidido nos centímetros. É sobre estar no lugar certo, na hora certa, com a cabeça pronta para fazer a coisa certa. Assim como estava o zagueiro Ali-Lajami instantes antes quando salvou, em cima da linha, o gol que acabaria com o sonho saudita de passar de fase. Assim como estava Salem Al-Dawsari quando, três anos atrás, fechou o placar em cima da Argentina. Assim, como num efeito borboleta, estávamos todos nós, amantes do improvável, assistindo a história acontecer na tela da nossa televisão.
Já no segundo tempo da prorrogação, quando os pênaltis pareciam inevitáveis, Renan Lodi cruzou para que mais uma vez a bola encontrasse o ar para o cabeceio de Milinkovic-Savic. Eu elogiei tanto o jogo aéreo que seria até óbvio que o vencedor fosse decidido assim. Contudo, o cerne deste texto é entender que o óbvio é pura questão de ponto de vista. Em um dia como este, não existe óbvio.
Então, desafiando a regra, o goleiro Ederson espalmou a bola, achando estar se livrando da derrota. Os pênaltis eram inevitáveis. Ele só não esperava que a sua frente estivesse o homem que iniciou toda a saga de gols intermináveis do lado do Al-Hilal. Marcos Leonardo estava pronto para evitar o inevitável e – meio de tronco, meio de pé esquerdo -, colocou a bola para dentro.
Em um jogo de sete gols entre a realeza britânica e a realeza saudita, o futebol saiu vencedor, assim como todos os espectadores. Pep Guardiola deu um show de tática ao ver todas as suas substituições gerarem frutos ofensivos e defensivos enquanto, do outro lado, os Za’eem mostraram que as pedras em seus sapatos só servem para que eles vejam as batalhas do alto. E assim, soberano, o Al-Hilal se classificou para a próxima fase da Copa do Mundo de Clubes.
Os Citzens voltam para a casa sabendo que eram favoritos e que deram o seu sangue para permanecer. Os Patrões permanecem sabendo que competições como essa até são vividas um jogo de cada vez, mas com a certeza de que este é um daqueles que fica gravado em todos que presenciaram a mágica do futebol tomando conta de um estádio acostumado com partidas de soccer.
O homem da partida, Marcos Leonardo, ainda levou um cartão amarelo ao comemorar o segundo gol tirando a camisa. Eu, geralmente, acho essa a maneira mais tola de ser punido pois, além de se prejudicar, ainda tira do corpo a imagem mais importante do momento que é o escudo do seu time. Entretanto, o brasileiro fez aquilo para enaltecer ainda mais seu clube. Marcos tirou a camisa, a pendurou na bandeirinha de escanteio e tremulou seu manto para que todos os presentes soubessem que a verdade era uma só – ou duas. O Al-Hilal é rei acima de qualquer expectativa e Marcos Leonardo é o improvável acima de qualquer probabilidade.
Por Luiza Corrêa
*Esclarecemos que os textos trazidos nesta coluna não refletem, necessariamente, a opinião do Portal Mulheres em Campo.