Em meio à intranquilidade, vence o Colorado já à beira do abismo
Na noite chuvosa da última terça-feira (3), o Sport Club Internacional venceu o Coritiba pelo placar de 1 a 0. Em um confronto que precisou de paciência, teimosia e fé, o Clube do Povo viu o Universo intervir a seu favor.

O Internacional entrou em campo na noite desta terça-feira (03) sem opções, sentenciado a ter de vencer ou direcionar-se de uma forma quase irreversível à Série B. Pode até parecer uma frase “exagerada e dramática”, visto que ainda se disputam pontos importantes em confrontos diretos, mas é preciso enxergar o todo que cerca o fim desta competição.
O Inter claramente carregou para dentro de campo o peso da necessidade, a ansiedade de quem precisa marcar de qualquer jeito e também o “estado de alerta” de quem viu erros da arbitragem mudarem o rumo do jogo no confronto contra o Fluminense, no RJ. O resultado de uma receita carregada de ingredientes pesados foi um time inseguro, ansioso, de baixa autoestima e preso por si mesmo e pelo medo de errar, em uma dança em que não se saía do lugar.
Dentro da própria casa, o Colorado pareceu visitante. Os dois primeiros terços da etapa inicial foram de domínio completo alviverde. O Coritiba se sentiu confortável e o Inter, dentro de casa, encontrava-se perdido, desconhecido do jogo e do que fazer em campo. Do lado de fora das quatro linhas, a torcida respondeu ao chamado e fez-se presente mesmo na noite chuvosa. O povo do Inter se fez!
O Internacional demorou cerca de 30 minutos para se encontrar em campo, e não dá para dizer que “nossa, como se achou”. Pelo menos encontrou o alvo, ainda que de uma forma tímida e ansiosa, mas encontrou e, pela primeira vez, fez de fato o goleiro paranaense trabalhar.
Mais uma noite que se encaminhava para um clássico de terror. O Inter até pareceu se acalmar um pouco, mas isso não se refletia em boas chegadas. Seguimos completamente reféns de um ataque infértil, que nos cobra caro. Em meio a tudo isso, a arbitragem parecia ir se desmanchando ao longo do jogo.
Sem pulso firme, Fernando Antônio Mendes de Salles Nascimento Filho se corrompia pela ausência de atitude, e o confronto, que já carregava tensão, foi se inflamando. O Inter precisava muito mais do gol, é verdade, mas é preciso lembrar que a vitória também traria ao Coritiba a tranquilidade de quem pode respirar no fim da temporada sem precisar correr atrás de fantasmas.
A primeira etapa terminou da mesma maneira que começou: placar zerado, time distante.
Para o segundo tempo, foi visível uma mudança de atitude. O time retornou com mais fome, embora ainda ineficiente, como um cão na vidraça de uma loja de frangos assados, sentindo a fome, mas impedido de morder. Diferentemente do cão, a mordaça colorada se dá no cérebro. Vez ou outra, o oxigênio não chega a todos os lugares.
É aqui que a racionalidade acaba por dar espaço a todo tipo de fé. Agarra-se às suas crenças, aos seus santos, aos seus deuses, às suas deusas… É à beira de um precipício que se suplica, cada um à sua maneira, para que algum dos deuses alvirrubros, dos Fernandões e Librelatos aos mais humanos Guerrinhas, olhe por nós.
Assim, quando não tinha mais jeito, quando a pressão que o Inter retomou ao voltar para o segundo tempo não tinha funcionado, quando Pedro Morisco já havia sido exigido de todas as maneiras possíveis e, na mesma intensidade, a gente havia visto todos os atacantes possíveis errarem todos os lances possíveis e impossíveis dentro de campo, o universo se fez presente em sua força.
Vez ou outra, ele responde com uma bola que faz uma curva inacreditável. Vez ou outra, com um vento que ganha força e movimenta o universo em uma trajetória demarcada para o gol necessário, o sagrado gol cagado. Vez ou outra, vem do universo um sopro de uma verdadeira ideia de jerico na mente de um jogador. E assim, já na beirada do fim do jogo, Rodrigo Moledo levantou a perna demais, mostrou-se demais e o VAR assinalou pênalti para o Colorado. É aí que o universo TESTA A NOSSA FÉ.
Aos 49 minutos da segunda etapa, Alerrandro foi em direção à cobrança de um pênalti que, com toda certeza, será lembrado por muito tempo. E aqui eu sei que tu, como eu, também se questionou, parou de respirar e só sentiu o coração bater novamente quando a bola alcançou o fundo e, enfim, chegou lá.

Quando a gente já beirava um desespero inconsolável, quando a gente se agarrava somente a um fio quase invisível que nos ligava ao céu e a todos os desejos do nosso coração, pôde olhar para cima e, num suspiro, ter certeza de que, vez ou outra, bah, Deus é bem Colorado.
Por Jéssica Salini
*Esclarecemos que os textos trazidos nesta coluna não refletem, necessariamente, a opinião do Portal Mulheres em Campo.