Rubro-Negro tinha a liderança nas mãos, mas repete velhos erros e perde para o Cruzeiro no Mineirão
O Flamengo tinha, mais uma vez, a oportunidade de fazer aquilo que parecia tão simples: depender apenas de si mesmo. Bastava vencer o Cruzeiro no Mineirão para dormir na liderança do Campeonato Brasileiro, depois de uma sequência que já havia colocado o time novamente no caminho do título. Mas, como tem acontecido tantas vezes quando o Rubro-Negro precisa olhar apenas para o próprio desempenho, a oportunidade virou frustração.
A derrota por 2 a 1, de virada, neste sábado (22), expôs velhos problemas de um time que cria, desperdiça, perde intensidade e, quando percebe, já não tem mais tempo para corrigir o estrago.

E o mais irritante é que o Flamengo teve tudo para construir uma noite completamente diferente. O primeiro tempo foi praticamente um convite para que o time saísse do Mineirão com a vitória encaminhada. A equipe começou pressionando, ocupando o campo de ataque e encontrando espaços na defesa do Cruzeiro. Carrascal teve duas oportunidades logo no início, mas desperdiçou ambas. Pedro também teve a sua antes de finalmente fazer o que sabe melhor: marcar gols.
O problema é que o Flamengo parece ter desenvolvido uma relação perigosa com a própria capacidade de desperdiçar oportunidades. Não basta criar. É preciso aproveitar. E, novamente, o Rubro-Negro deixou pelo caminho chances que poderiam ter transformado uma vantagem mínima em um placar muito mais confortável. Carrascal isolou uma oportunidade e demorou em outra. Pedro perdeu uma chance cara a cara. Léo Ortiz também quase ampliou de cabeça. O Flamengo controlava o jogo, tinha espaço e parecia superior, mas saiu para o intervalo vencendo por apenas 1 a 0.
Era o tipo de partida em que o segundo gol precisava sair. Não saiu.
Na volta do intervalo, o cenário começou a mudar. O Cruzeiro cresceu, o Flamengo perdeu intensidade e a partida deixou de estar sob controle rubro-negro. Mais uma vez, um atacante cruzeirense encontrou o caminho do gol contra o Flamengo com uma facilidade que incomoda. E de novo, o time sofreu depois de não matar a partida quando teve oportunidade.
Ainda houve tempo para reagir. Pedro teve outra chance, Carrascal tentou novamente e o Flamengo chegou ao ataque algumas vezes. No entanto, já não era o mesmo time do primeiro tempo. O Cruzeiro passou a competir mais, a encontrar espaços e a acreditar que poderia buscar a virada. Do outro lado, o Flamengo parecia cada vez mais dependente de uma jogada individual para resolver aquilo que havia deixado escapar anteriormente.
Leonardo Jardim falou sobre o desgaste físico, e seria impossível ignorar que o calendário pesou. Foram três confrontos em dez dias, com uma classificação importante na Libertadores no meio do caminho. Mas o cansaço não pode ser a resposta para tudo, principalmente em um elenco como o do Flamengo. Se a equipe caiu fisicamente, cabia ao treinador encontrar soluções. E aí também existe uma parcela de responsabilidade de Jardim.
Carrascal teve uma noite ruim e permaneceu em campo até o fim. Luiz Araújo, que poderia oferecer mais intensidade e estava em melhores condições físicas, só entrou aos 37’. Quando o Flamengo precisava recuperar força e qualidade ofensiva, as mudanças demoraram a aparecer. Não é apenas uma questão de trocar jogadores: é perceber quando determinado jogador não está funcionando e agir antes que a partida escape.
E escapou.
Nos acréscimos, veio o golpe que parecia anunciado. Ayrton Lucas tentou uma arrancada sem encontrar opção de passe, ficou cercado e decidiu sair da situação com um toque de letra para trás. Errou. A bola passou por uma sequência de jogadores até chegar a Matheus Pereira, que contou com um desvio em Léo Ortiz para vencer Rossi e fazer 2 a 1 aos 49’.
É difícil encontrar uma maneira mais simbólica de resumir a derrota. Um erro técnico desnecessário, cometido em um momento em que o Flamengo precisava apenas controlar os últimos segundos de uma partida que estava empatada. Não foi uma grande jogada coletiva do Cruzeiro. Foi o Flamengo entregando uma possibilidade que não precisava existir.
E talvez seja justamente isso que mais incomode o torcedor. O Flamengo não perdeu porque foi completamente dominado durante os 90 minutos. Perdeu porque teve a chance de vencer, não aproveitou, deixou o adversário crescer e, no fim, cometeu os mesmos erros que tantas vezes já cobraram caro. Cria muito e converte pouco. Tem jogadores que insistem em decisões erradas. Perde intensidade quando não deveria. E, quando a partida exige concentração absoluta, aparece um erro infantil para colocar tudo a perder.
A sensação é de déjà vu.
Quando o Palmeiras tropeça, o Flamengo precisa apenas fazer a sua parte. Quando a liderança está ao alcance, o time precisa apenas vencer. Quando uma vitória coloca o Rubro-Negro no topo, aparece um detalhe, uma falha, uma oportunidade desperdiçada ou uma decisão equivocada para impedir que o passo seja dado. Não é a primeira vez. E, pelo que se viu no Mineirão, parece longe de ser a última se os mesmos problemas continuarem sendo tratados como acidentes isolados.
O Flamengo segue com 45 pontos e perdeu a oportunidade de chegar aos 48, ultrapassar o Palmeiras no saldo de gols e dormir na liderança. Agora, resta torcer para que o rival tropece diante do Vasco para que o prejuízo na tabela não seja ainda maior. Mas depender novamente de outro resultado é justamente o que o Flamengo deveria ter evitado. A liderança estava ali. Dependia somente dele. E, mais uma vez, o próprio Flamengo tratou de complicar.
Depois do tropeço no Mineirão, o Rubro-Negro terá uma semana inteira para descansar, recuperar os jogadores e trabalhar antes de voltar a campo. O próximo compromisso será no domingo (30), às 16h, contra o Botafogo, no Maracanã, pelo Campeonato Brasileiro. Será mais um clássico e, principalmente, mais uma oportunidade para o Flamengo provar que consegue transformar a pressão por uma vitória em resposta dentro de campo, antes que outra chance de assumir o protagonismo da competição seja desperdiçada.
Por Rayanne Saturnino
*Esclarecemos que os textos trazidos nesta coluna não refletem, necessariamente, a opinião do Portal Mulheres em Campo