Em jogo abaixo, Bélgica cede ao revés e acaba eliminada para a Espanha
O futebol pode ser incrivelmente poético, mas também sabe ditar desfechos de uma melancolia profunda. Na tarde desta sexta-feira (10), sob o calor e a atmosfera elétrica do SoFi Stadium, em Los Angeles, os Diabos Vermelhos lutaram com o que tinham, mas acabaram cedendo ao revés por 2 a 1 diante da Espanha. A derrota marca o fim da linha nas quartas de final da Copa do Mundo de 2026.

Para quem assistiu ao renascimento dessa equipe ao longo do torneio, ver o apito final aos 97 minutos trouxe o peso doloroso de uma despedida definitiva. Cai de pé uma equipe que, entre tropeços e superações, recuperou sua dignidade, mas que hoje esbarrou nos próprios desfalques, no desgaste físico e na magia de uma Espanha abençoada.
A caminhada belga neste Mundial, contudo, merece um retrospecto de muito respeito. A equipe estreou cercada de desconfiança por parte da imprensa europeia, carregando o fantasma do “quase” que ainda assombra essa geração. Na fase de grupos, o time precisou se encontrar em meio às críticas e construir sua liderança jogo a jogo dentro do Grupo G.
A estreia foi amarrada, um empate por 1 a 1 contra o osso duro de roer que é o Egito. Na sequência, um jogo tenso, truncado e de forte apelo físico terminou no 0 a 0 contra o resiliente Irã. Quando precisou decidir a sua vida e carimbar a classificação, a Bélgica finalmente desencantou. Uma goleada acachapante por 5 a 1 sobre a Nova Zelândia garantiu não apenas a vaga, mas o primeiro lugar da chave.
Com a liderança do grupo conquistada, o verdadeiro teste de fogo começou nos dezesseis avos de final contra Senegal, em um 3 a 2 histórico, construído na base do coração após sair perdendo por 2 a 0. Logo em seguida, veio as oitavas e a apoteose em Seattle. Um eletrizante 4 a 1 sobre os donos da casa, os Estados Unidos, superando os boicotes extracampo e provando que a Bélgica sabia jogar com raiva e imposição tática. Contudo, o preço físico, médico e emocional de tantas batalhas heróicas acabou cobrado da forma mais dura possível em Los Angeles.
O azar bateu à porta belga antes mesmo de a bola rolar, quando Tielemans sentiu uma lesão no aquecimento e desfalcou o meio-campo. Ele se juntou na enfermaria ao zagueiro Zeno Debast e ao volante Amadou Onana, que já havia quebrado a espinha dorsal do time ao machucar o joelho gravemente contra os americanos. No 4-2-3-1 inicial, Vanaken teve de assumir o setor direito, com Kevin De Bruyne centralizado ostentando a braçadeira de capitão, Doku na esquerda, Trossard na direita e De Ketelaere espetado na referência. A Espanha, espelhada no mesmo esquema tático, apostava na juventude de Lamine Yamal e na cadência de Fabian Ruiz.
Com menos de 30 segundos, a Bélgica assustou no primeiro ataque, mas logo a Roja impôs sua marcação alta, fazendo os belgas perderem os duelos por boa parte do primeiro tempo. Jeremy Doku era o ponto de luz absoluto. Liso, fantástico, chamando Pedro Porro para dançar na ponta esquerda. Porém, De Bruyne parecia cansado. As ideias geniais estavam ali, mas a execução saía capenga, sem o entrosamento ideal com os pontas.
A pressão espanhola surtiu efeito aos 29 minutos do primeiro tempo. Lamine Yamal entortou De Cuyper pela direita e cruzou. Pedro Porro finalizou, Courtois espalmou para frente e Fabian Ruiz apareceu completamente livre, nas costas de um desatento Vanaken, para empurrar para as redes. 1 a 0.
O golpe poderia ter sido fatal, mas os Diabos Vermelhos responderam na base do orgulho. Aos 40 minutos, após lançamento primoroso de Castagne, De Ketelaere fugiu da posição de impedimento, antecipou-se de forma magistral e testou com força, mesmo pressionado pela marcação de Cubarsí para deixar tudo igual. 1 a 1 e explosão belga no estádio.

No segundo tempo, Rudi Garcia inverteu os pontas e viu Doku infernizar Cucurella pelo lado direito. Aos 53’, após linda tabela com Trossard, Doku cruzou para trás e De Cuyper soltou uma bomba que beliscou a rede pelo lado de fora. Sentindo o desgaste, o treinador belga promoveu três mudanças cruciais aos 59 minutos: entraram Seys – que fez grande partida nos desarmes -, Witsel e o gigante Romelu Lukaku, empurrando De Ketelaere para a ponta.
O problema é que a bruxa estava solta. Aos 71’, o goleiro Thibaut Courtois, que vinha fazendo uma partida abaixo, porém ok, sentiu a coxa esquerda e teve de sair chorando, dando lugar ao jovem Lammens. Com um time remendado, a Bélgica precisou “parir uma bigorna” para segurar a blitzkrieg espanhola, sustentada pelos desarmes silenciosos e gigantescos do zagueiro Ngoy. De Bruyne, exausto e com cãibras, acabou substituído aos 85’ por Saelemaekers.
E a crueldade do futebol se fez presente aos 88 minutos. Cubarsí arriscou de longe, o goleiro Lammens deu um rebote trágico nos pés de Merino, que só teve o trabalho de empurrar para o gol aberto: 2 a 1. A Bélgica não foi punida só pelo acaso, pelo talento espanhol ou pelas lesões, mas também pela sua falta de atenção defensiva e o seu nervosismo.
Ao apito final, as lágrimas dos jogadores belgas estirados no gramado do SoFi Stadium doeram profundamente. O encerramento desta partida marca o fim de uma era de ouro e, acima de tudo, o ato final de Kevin De Bruyne em Copas do Mundo. O capitão, mesmo visivelmente desgastado pelo peso dos anos e das batalhas físicas, deixou em campo cada gota de suor e intelecto. Suas ideias geniais, desenhadas com a precisão de quem enxerga o jogo frames à frente de qualquer outro mortal, foram o norte tático da Bélgica por mais de uma década. Ver De Bruyne deixar o gramado extenuado, carregando a braçadeira com a dignidade de um gigante, é a certeza de que o futebol perde um de seus maiores maestros em palcos mundiais. Fica a reverência eterna a um atleta que transformou o meio-campo belga em uma grife de excelência internacional.
Da mesma forma, é preciso exaltar a figura monumental de Romelu Lukaku. O camisa 9 consolidou-se nesta competição não apenas como o homem-gol, mas como o verdadeiro pilar espiritual e a liderança máxima de uma nação. Mesmo sem ostentar o mesmo vigor físico ou a agilidade de outrora, Lukaku compensou cada limitação com uma entrega comovente, brigando contra zagueiros, orientando os mais jovens e servindo de escudo para as críticas que tanto bombardearam o elenco. Ele foi a justificativa para que cada companheiro de equipe corresse até o limite absoluto de suas forças. Sua postura neste Mundial deixa um legado claro: o tamanho de um ídolo não se mede apenas pela velocidade de suas arrancadas, mas pela capacidade de carregar a alma de um vestiário inteiro nas costas quando o mundo ao redor desmorona.
A eliminação é dolorosa, mas a trajetória da Bélgica nesta Copa do Mundo deixa uma lição que transcende as quatro linhas. Precisamos aprender com os fracassos e com a resiliência deste time a arte de nunca desistir. Que a queda sirva de inspiração para seguirmos em frente, mesmo quando as chances forem minúsculas, quando as decepções acumuladas parecerem pesadas demais e quando absolutamente ninguém mais acreditar que somos capazes de realizar alguma coisa. A semente foi plantada, o orgulho foi resgatado e o amanhã nos reserva a eterna e necessária obrigação de sempre procurar ser melhor.
Eu me despeço dessa cobertura sabendo que tive a honra de acompanhar quatro das melhores narrativas da Copa das Grandes Histórias. Nenhuma vitória será maior do que o amor que desenvolvi e os aprendizados que adquiri com essas quatro seleções.
Pude falar sobre uma Nova Zelândia faminta por se ancorar nos palcos mundiais. O time de Chris Wood e Elijah Just chegaram para defender um continente inteiro em suas costas. Com eles, aprendi novamente que o pioneirismo dói, principalmente no início. A cada nova derrota, existe um novo muro a ser escalado como ninguém fez antes. As mãos doem, os joelhos ralam, mas é uma obrigação subir até o final e deixar o caminho melhor asfaltado para os que virão depois. I’m looking forward to seeing you guys even stronger in 2030, my Kiwis! Just deserves his place as a top scorer in a World Cup!
No mesmo grupo, tivemos o símbolo que foi o Irã, eliminado cedo demais em um dos jogos mais antológicos da história da Copa do Mundo. O Team Melli mostrou a sua força contra todas as adversidades burocráticas e xenofóbicas que colocaram neles uma responsabilidade que simplesmente não os pertencia. Mesmo assim, eles estiveram lá, fincaram a sua bandeira e saíram de cabeça erguida, mas nunca calados. Os gramados da copa nunca esquecerão de Ramin Razaeian, mas eu nunca esquecerei das palavras do capitão Taremi sob todos os olhares do mundo. Com eles, aprendi que a coragem é muito mais do que sobre ganhar, mas sobre dar a cara a tapa mesmo quando todos os lados acham que tu está errado. هر زمان که خواستید بازگردید؛ به مبارزه ادامه دهید! غرب باید داستانهایی مانند داستان شما را ببیند!
Com o histórico Egito, eu pensei de novo e de novo sobre memória e resgate. Assistir à Mohammed Salah assumir o lugar de maior egípico da história do futebol enquanto pavimenta os gramados para talentos como os de Ziko foi um privilégio. Contudo, o maior momento foi ouvir Hossam Hassan dizer que cada vitória era dedicada a todos que tentaram e não puderam ver um Egito vitorioso em Copa do Mundo. إنت عملتها يا باشا! شعبك كان ممكن يحتفل بالانتصارات بسببك!
E, por último, aprendi com a Bélgica de De Bruyne e Lukaku que assumir a responsabilidade é essencial. Posso admitir que não tinha um grande apego pelos Diabos Vermelhos no início, mas vê-los no quase mais uma vez foi de cortar o coração. Mesmo assim, eu sei que eles voltarão em 2030 e em todos os anos depois deste porque sabem a sua importância para todos os belgas que os assistem de longe. Blijf terugkomen, hoe vaak het ook ‘bijna’ lukt. Het is een voorrecht om te zien dat je het probeert!
Obrigada a todas que chegaram até aqui comigo. Ano que vem tem mais!
Por Luiza Corrêa
*Esclarecemos que os textos trazidos nesta coluna não refletem, necessariamente, a opinião do Portal Mulheres em Campo.