Bélgica goleia Estados Unidos e oficialmente expulsa os anfitriões da Copa do Mundo
Existem noites raras e inesquecíveis em que o futebol deixa de ser apenas um jogo tático e assume abertamente o papel de tribunal da história. Foi exatamente isso o que se testemunhou no gramado do Seattle Stadium, onde a Bélgica aplicou uma goleada acachapante por 4 a 1 sobre os Estados Unidos, garantindo uma vaga heroica e monumental nas quartas de final da Copa do Mundo de 2026. Para além dos quatro gols construídos na base do puro talento, da imposição técnica e de uma entrega física de arrepiar, o massacre belga carregou uma carga simbólica e emocional avassaladora.

Enfrentar os donos da casa nesta noite não era apenas um desafio esportivo comum de mata-mata. Era um duelo de peito aberto contra o próprio sistema estabelecido. Vencer os estadunidenses de forma tão impiedosa e arrancá-los de seu próprio torneio foi uma resposta categórica a quem acreditava que o poder econômico e os arranjos de bastidor poderiam comprar o destino da bola e a dignidade do esporte.
A atmosfera da partida já nasceu profundamente contaminada por uma das decisões mais vergonhosas, imorais e politicamente corruptas da história recente da FIFA. A retirada cirúrgica e inexplicável da suspensão do atacante Folarin Balogun, liberado para jogar tapetão adentro em um esforço nítido para beneficiar os anfitriões, é uma absoluta vergonha para todos os amantes de futebol.
Ver os Estados Unidos entrarem em campo estruturados num 4-3-3 que trazia Dest na ponta direita, a velocidade de Christian Pulisic também pelo lado esquerdo do ataque e o próprio Balogun injustamente escalado como o grande centroavante titular foi um verdadeiro insulto a todos os princípios de fair play. A mera presença do camisa 20 no gramado — que se arrastou em uma atuação completamente apática até os 92 minutos antes de dar lugar a Haji Wright — era um absurdo completo que escancarava as engrenagens do privilégio. A verdade nua e crua é que ele sequer deveria ter pisado no estádio.
Ver a entidade máxima do futebol se curvar de forma tão explícita aos interesses da maior potência econômica do planeta gerou uma revolta legítima e incandescente no vestiário belga. No entanto, o futebol possui uma justiça de campo fascinante que nenhuma canetada em Zurique é capaz de anular. Bater de frente contra essa estrutura armada e atropelar os Estados Unidos em seus próprios domínios foi vencer, pelo menos por um momento, as injustiças, a corrupção de bastidores e os horrores de um país com alma de colonizador, que historicamente insiste em ditar as regras do mundo na marra, seja na geopolítica ou nas quatro linhas.
Quando o árbitro apitou o início do confronto, toda a indignação que fervia no peito dos jogadores belgas se transformou em futebol de altíssimo nível, combinando agressividade na marcação e inteligência posicional. Escalada no 4-2-3-1 pelo contestado Rudi Garcia, a Bélgica controlou os nervos e trouxe a campo uma proposta fluida, com Trossard flutuando de fora para dentro pela ponta esquerda, Tielemans ditando o ritmo e organizando o meio-campo com passes de primeira, Lukebakio assumindo com totais méritos a titularidade da ponta direita para dar amplitude e o jovem De Ketelaere espetado na referência ofensiva.
A imposição técnica foi imediata e avassaladora, e não demorou para que os donos da casa sentissem o golpe. Aos 9 minutos do primeiro tempo, a Bélgica abriu os caminhos da justiça. Após uma linda e paciente trama coletiva que envolveu a área estadunidense, Raskin rolou para De Ketelaere, que só precisou empurrar a bola para dentro, calando o estádio em Seattle por alguns segundos e fazendo 1 a 0.
O desenho tático do jogo guardava contornos ainda mais dramáticos e provacionais para a segunda etapa. A Bélgica teve a excelente experiência de assistir Amadou Onana iniciando o confronto com uma imposição física absurda e desarmes limpos no meio-campo, mas o destino pregou uma peça dolorosa que testou a resiliência do grupo. Aos 21 minutos, Onana acabou sofrendo uma lesão preocupante no joelho direito. O volante machucou-se gravemente após travar a perna no gramado em uma disputa ríspida com Christian Pulisic, precisando deixar o campo de jogo aos prantos de dor, gerando imensa apreensão no banco de reservas.
Os anfitriões, empurrados por uma torcida barulhenta, tentaram responder na base do abafa físico e encontraram o empate aos 31 minutos, quando Tillman aproveitou um raro vacilo coletivo na marcação da defesa belga para balançar as redes. Na cobrança de uma falta frontal, o camisa 17 chutou firme pelo lado direito da barreira diretamente para dentro da meta.
O susto e a festa dos donos da casa, porém, duraram pouquíssimo. Sem dar qualquer tempo para os Estados Unidos comemorarem ou se assentarem taticamente, a Bélgica reagiu de forma fulminante. Apenas dois minutos depois, aos 33’, novamente De Ketelaere, em noite absolutamente iluminada, apareceu muito bem posicionado dentro da área para conferir o cruzamento perfeito de Trossard e recolocar os Diabos Vermelhos em vantagem na contagem. 2 a 1.
Para a segunda etapa, muito diferentemente dos jogos anteriores, Rudi Garcia brilhou e as mudanças promovidas pela comissão técnica se provaram simplesmente ótimas. As decisões se mostraram imensamente acertadas com dois gols e uma assistência saindo diretamente do banco de reservas.
Hans Vanaken foi o escolhido para substituir o Onana com uma postura extremamente ofensiva, o que deixou a equipe mais dinâmica. Aos 57 minutos, aproveitando uma burrada gigantesca do goleiro Freese na hora de dominar a bola com o peito fora da área, De Ketelaere escorregou a bola pra trás para que Vanaken chutasse de longe para o fundo das redes, ampliando para 3 a 1.
Com a vantagem confortável consolidada e o adversário completamente atordoado em campo, o treinador belga resolveu oxigenar a referência do ataque e promoveu a entrada de Romelu Lukaku no lugar do desgastado — e aplaudido — De Ketelaere. A partir dali, a partida deixou de ser apenas uma disputa por espaços e virou uma exibição antológica de liderança e autoridade internacional.
Nos acréscimos, com os estadunidenses totalmente desorganizados em campo, chutando de qualquer jeito em busca de algum tipo de respiro, veio o momento de fechar a noite perfeita. Aos 93 minutos, coroando uma atuação lendária e após receber um bom passe do incansável Vanaken pela esquerda, Romelu Lukaku usou toda a sua envergadura para dominar a bola em disputa com Chris Richards. Em um giro perfeito, o gigante belga se ajeitou como se estivesse sem marcação para desferir o golpe de misericórdia, cravando o quarto gol e fechando a conta na marca histórica de 4 a 1.

Nesta caminhada épica e cheia de superação, precisamos parar e reverenciar com a devida honestidade o tamanho de Romelu Lukaku para o futebol de seu país. O camisa 9 se consolidou definitivamente como o grande protagonista e a engrenagem vital dessa sobrevivência e ressurgimento da Bélgica na Copa do Mundo. Sejamos realistas e justos na análise: ele pode não estar mais jogando com o mesmo corpo ágil, a velocidade que tinha ou o vigor físico absurdo do início da sua carreira profissional, mas a sua entrega sem limites tem sido essencial para que a Bélgica ganhe cada vez mais energia e casca a cada fase eliminatória.
A sua liderança monumental dentro e fora das quatro linhas transformou-se no grande símbolo espiritual deste elenco remodelado. Ver Lukaku se doar inteiramente, brigar por cada bola aérea, dar o peito para receber pancadas e desabar exausto no gramado após o apito final é a maior justificativa e combustível para que todos os demais companheiros de equipe se doem e corram até o limite absoluto de suas forças. Ele carrega a alma e a dignidade desse time nas costas.
Depois de tantos percalços pesados na preparação, críticas ferozes e impiedosas de grande parte da imprensa europeia, tropeços táticos na fase de grupos e o fantasma incômodo de uma geração que parecia condenada ao quase, a Bélgica está novamente onde merece. Chegou com a casca grossa de quem sabe sofrer nos momentos de pane, com a imponência política de quem não se deixa intimidar pelos bastidores da FIFA e com o futebol vistoso resgatado exatamente na hora mais aguda do torneio.
Agora, com a alma lavada e a moral nas nuvens, os comandados de Rudi Garcia avançam gigantescos para um confronto de titãs contra a poderosa Espanha nas quartas de final, sabendo que recuperaram o respeito e a admiração do planeta do futebol. Quanto aos donos da casa, as malas já estão prontas no pior pesadelo possível dos engravatados da entidade. Os Estados Unidos estão oficialmente expulsos da sua própria festa e sem qualquer chance de recorrer à decisão de campo.
Por Luiza Corrêa
*Esclarecemos que os textos trazidos nesta coluna não refletem, necessariamente, a opinião do Portal Mulheres em Campo.