Reflexões sobre uma despedida no futebol


Entre a dor da eliminação e a gratidão pelas memórias, despeço-me da trajetória de Cristiano Ronaldo nos Mundiais

Hoje, 6 de julho de 2026, é um dos dias mais tristes da minha vida. A Copa do Mundo não está sendo como eu esperava. Às 16h, começou o clássico entre Portugal e Espanha, e esse jogo me trouxe um dos piores momentos que já vivi como torcedora. Não sei explicar exatamente o que sinto,  só sei que meu coração está machucado e ferido. Já chorei e precisei me afastar das redes sociais, porque cada notícia da eliminação funciona como um gatilho para uma tristeza profunda, um sentimento que experimentei poucas vezes na vida. A derrota por 1 a 0 para o adversário foi dolorosa demais.

Foto: Gareth Patterson/AP Photo

O Peso da Eliminação 

É difícil descrever o que um torcedor sente após uma derrota em um jogo tão equilibrado. Portugal entrou bem, não deixou o adversário levar vantagem. Para quem não gosta da seleção, o pior já era esperado, mas, como dizem, clássico se resolve nos detalhes. E foi um detalhe que acabou com o meu sonho, com o sonho do torcedor português, dos jogadores e, principalmente, com o sonho do CR7 de encerrar sua trajetória em Copas da forma mais linda: com o título que falta na sua prateleira. Um gol nos acréscimos, sem tempo para reação… foi assim que a Espanha tornou esta terça-feira o pior dia da minha vida desde que comecei a acompanhar futebol.

Olha que sou cruzeirense! Vivi três anos na Série B e sofri muito com os momentos mais terríveis do meu Cabuloso, mas nem assim senti a dor que sinto agora no peito. Este texto está ficando triste, eu sei, mas é exatamente assim que me sinto após ver Portugal sair da Copa. Eu não estava preparada para esse momento.

O Mundial complexo 

Podemos dizer que este é um mundial traiçoeiro, onde nem sempre quem realmente merece ganhar, irá ser o vencedor. Cito o caso de Cabo Verde, que merecia a vaga para a próxima fase mais do que muitas outras seleções, pois deu a alma em campo, jogou de uma forma que há muito tempo eu não via no futebol e ganhou o coração de todos. Uma simples falta de atenção ou um lance mal avaliado podem tirar o sonho de uma seleção que realmente deveria continuar. Esse período é especial porque vemos surgir novos talentos e heróis, mas, ao mesmo tempo, pode destruir uma bela história por conta de um único erro ou eliminação. É uma competição linda, mas, paradoxalmente, muito traiçoeira.

O Menino do Funchal 

Fico imaginando: quem diria que aquele menino nascido em 5 de fevereiro de 1985, em São Pedro, no Funchal, que teve o nome escolhido pela tia e que a mãe tentou abortar devido à pobreza extrema e ao alcoolismo do pai, chegaria onde chegou? Ele veio ao mundo com um nome que simboliza uma vontade superior, seguindo a tradição católica da família,  já que Cristiano significa cristão. O nome Ronaldo foi escolhido pelo pai, um grande admirador de Ronald Reagan, o ex-presidente dos Estados Unidos, que para ele simbolizava o “sonho americano”: alguém que saiu do cinema para se tornar o homem mais poderoso do mundo. Realmente, ele colocou o seu nome na história do futebol e conquistou tantos fãs que é difícil até de acreditar.

Da pobreza extrema, ele alcançou feitos incríveis: foi o atleta mais bem pago do mundo pela Forbes (2012, 2016 e 2017) e o mais famoso pela ESPN (2016 a 2019). A Time o incluiu na lista das 100 pessoas mais influentes do mundo em 2014. Pela seleção, chegou ao bicampeonato da Liga das Nações na temporada 2024-25, alcançando seu terceiro título oficial.

Preciso acrescentar que, se algum dia eu tiver um filho, serei aquela fã assumidamente “brega” que colocará o nome dele de Cristiano por sua causa, sem me importar com o que os outros pensem. E o pai não poderá reclamar, na verdade, é melhor que ele também seja um fã apaixonado como eu, assim não teremos problemas!

A Jornada na Copa de 2026 

Nesta Copa, Portugal entrou como favorito e alimentou a esperança de que essa última dança teria um final feliz. O primeiro jogo não foi bom, um empate com a República do Congo que gerou milhões de críticas. Eu quase fui “cancelada” de tanto defendê-lo, mas acreditei. Depois veio o Uzbequistão, jogo em que jogamos bem e goleamos, a esperança continuou. O desafio seguinte foi a Colômbia, outro empate, que nos levou à classificação em segundo lugar.

Não dá para saber se o destino seria diferente caso tivéssemos passado em primeiro na fase de grupos, é difícil prever. Independentemente disso, enfrentamos a Croácia nos 16 avos de final,  em um jogo muito complexo, mas conquistamos a classificação e, com ela, o primeiro gol do nosso “Robozão” em mata-matas. 

Na sequência, o caminho cruzou com o de um adversário de longa data: a Espanha. Sabíamos que, naquele clássico, qualquer erro custaria a vaga. E, nos detalhes, e nos minutos finais do segundo tempo, em uma cobrança de falta rápida e um momento de desatenção, o sonho finalizou.

Cristiano foi flagrado desolado no gramado do Lumen Field logo após o apito final de Anthony Taylor. Foto: Ronaldo Schemidt/AFP

O que mais machuca é que não fomos inferiores, foi um jogo equilibrado onde quem falhasse primeiro pagaria o preço. É uma despedida triste, porque o futebol é traiçoeiro: nem sempre o melhor time vence. E nem sempre ter o melhor jogador garante a vitória. O futebol não é linear, cada jogo é uma história. Talvez seja por isso que este esporte é tão fascinante, e por que nós, torcedores, não conseguimos deixar de amar, mesmo quando dizemos que nunca mais vamos assistir.

A Despedida de um Ídolo 

Ao final da eliminação, Cristiano Ronaldo confirmou que disputou sua última Copa do Mundo, após seis participações. Aos 41 anos, o craque chorou no estádio em Dallas após a derrota por 1 a 0.

— Normal, estou triste por sair assim do Mundial. Mas, como eu disse ontem, eu dei tudo, dei o meu melhor, e saio com a consciência tranquila. Esse é o futebol. Às vezes ganhamos, às vezes perdemos, e precisamos continuar. A verdade é que foi o meu último Mundial. Terei tempo para pensar, estar com a minha família, não decidir nada de cabeça quente e seguir com a vida — disse ele na zona mista.

O camisa 7 deixou a seleção com 146 gols em 233 jogos.

— Eu dei o melhor de mim, ganhei três títulos por Portugal. Antes do Cristiano, Portugal não tinha nenhum, e estou feliz. O principal foi 2016 (Eurocopa), que para mim tem a mesma dimensão que uma Copa. Por isso, repito: saio com a consciência tranquila. O amanhã será um novo dia e a vida continua.

Ao ler essa declaração, a dor aumenta. Não consigo imaginar a Copa do Mundo sem ele em campo, nem o futebol sem sua presença. Escrever sobre isso é doloroso, cada frase é uma lágrima. Desculpe por transmitir um sentimento tão difícil de definir, mas estou me sentindo sem chão.

O que ele construiu deveria ter sido coroado com o título que faltava, mas isso não muda quem você é, nem a história linda que escreveu. Dói saber que esta foi a última vez que o vi em campo por Portugal. 

Obrigada por ser jogador de futebol 

Em 2006, tudo começou. Vi você brilhar e ser eliminado pela França na semifinal. Antes daquele dia, o futebol era apenas um esporte,  depois, você mudou a minha vida. A partir daí, o futebol virou minha rotina. Acompanhar seus jogos me fez apaixonar por um esporte complexo, que afeta o psicológico de uma forma única e consegue te fazer amar e odiar em poucos segundos.

Obrigada por todas as emoções que vivi por sua causa. Obrigada por ter escolhido o futebol, por ser minha admiração e por ser quem você é.

Mais que tudo, obrigada por nunca ter desistido. A mídia sempre te criticou, te comparou com quem não deveria, mas você suportou tudo. Porque cada pessoa é única, é não precisa ser comparada. 

Você faz parte da minha história. É melhor de tudo: vou sempre dizer que vi você jogar. Vivi seus melhores e piores momentos. Eu não torço para um time, eu torço para o Cristiano Ronaldo. Onde você jogou e joga, lá estou eu. Nada vai apagar esses 23 anos. O que mais me emociona é ver que você sofre nas derrotas como se fosse a primeira, e comemora cada título como se fosse o início de tudo. Acho que é isso que me faz te amar cada dia mais (sei que é platônico, mas não posso fazer nada).

E, para piorar, o destino me fez escolher ser apaixonada pelo atleta que mais foi criticado e comparado ao longo de toda a sua carreira. Nada do que ele construiu pareceu ser o suficiente para muitos, que insistiram em críticas e desrespeito à sua história. Ainda assim, ele é a pessoa que me ensina que as críticas servem para nos impulsionar a buscar a nossa melhor versão e a nunca desistir dos nossos sonhos. Então, Cristiano, não importa o que digam: para mim, você é o maior de todos os tempos, o melhor da minha história. Afinal, cada torcedor tem o direito de escolher quem admirar e quem considerar o maior de todos.

Você é frequentemente considerado o futebolista mais completo, e seus atributos físicos, sua fome de gol, sua mentalidade vencedora e seu desempenho sob pressão fazem de você um verdadeiro gigante. Sei que este texto deveria ser apenas sobre a eliminação, mas o fato é que sua seleção poderá disputar outros Mundiais, e você não. Você encerra sua história exatamente onde te conheci: na Copa do Mundo, jogando pelo país que colonizou o meu. É a ironia da vida: fui me apaixonar, logo eu, justamente pelo jogador desse país.

Ver você saindo de campo chorando, desolado, me machuca demais. Foram 9 participações em Copas, em 6 delas você estava lá, carregando o time nas costas e quebrando recordes. Dói perceber que, por muitos anos, a sua própria seleção não te deu o suporte necessário, mesmo que você sempre tenha demonstrado respeito e amor pelas cores de Portugal.

O Jogo: 

Os primeiros minutos foram intensos. A Espanha assustou com Oyarzabal, mas Diogo Costa trabalhou bem. Reclamamos de um possível pênalti em Cristiano, mas o árbitro mandou seguir. A Espanha controlou, Diogo Costa brilhou em chutes de Lamine Yamal e Baena. Aos 36, Bruno Fernandes cruzou para João Félix, que ajeitou para Cristiano finalizar de primeira, mas sem força. O primeiro tempo terminou zerado.

A Seleção de Portugal ficou sem reação ao apito final e não conseguiu ‘revanche’ contra Espanha pela eliminação na mesma fase da Copa de 2010. Foto: Molly Darlington/Getty Images via AFP

No segundo, tentamos pressionar, mas a Espanha recuperou o controle. Quando o jogo caminhava para o empate, aos 45 minutos, Ferran Torres girou sobre a marcação e encontrou Mikel Merino livre, que marcou o gol da vitória. Um castigo para quem resistiu tanto.

Legado e Gratidão 

Foi dessa forma que vimos CR7 em sua última Copa. Não teve o final feliz que todos esperávamos, mas a vida é assim: nem tudo acontece como planejamos ou sonhamos, e ela nos impõe desafios que, por vezes, não conseguimos desvendar. Ainda assim, é preciso manter a cabeça erguida, pois você fez o seu melhor, fez o que estava ao seu alcance. Não foi suficiente, mas você tentou. No fim, só é possível haver um vencedor, e para que isso aconteça, é necessário ir eliminando os adversários. 

E como você sempre diz: “Eu não procuro ser perfeito, apenas procuro ser melhor do que ontem”. Esta mentalidade de evolução é o que sempre te definiu. E o seu grito de “Si!”… acho que é do que vou sentir mais falta. 

Finalizo o meu texto com a  minha frase favorita: “Vencer é importante, mas o mais importante é a maneira como se vence”. Para você, a ética, o respeito e a humildade sempre estiveram acima de tudo. Obrigada, Cristiano. Você é eterno.

Por Mury Kathellen

*Esclarecemos que os textos trazidos nesta coluna não refletem, necessariamente, a opinião do Portal Mulheres em Campo.


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