Perdeu quem não viu!


Irã e Nova Zelândia estreiam com empate em um jogo épico para quem gosta de futebol

Me prometeram que aumentar o número de vagas para a Copa do Mundo estragaria a competição com “embates mornos” como o enfrentamento entre Irã e Nova Zelândia. Pois é! Me prometeram errado! O Team Meli encontrou os All Whites no Los Angeles Stadium, em Inglewood, para disputar uma partida que encheu os olhos dos amantes deste esporte. Com direito a recorde neozelandês para a história, protesto iraniano do lado de fora e muita bola desfilada em campo, o jogo terminou empatado em 2 a 2. 

REUTERS/Daniel Cole

Quem esperava duas equipes burocráticas e presas na defesa, quebrou a cara logo no início. Do lado de fora, a comunidade iraniana na Califórnia dava o tom político do confronto com protestos barulhentos e necessários contra o regime de Teerã, ecoando o clima tenso que sempre envolve a seleção. No gramado, a resposta veio em forma de uma intensidade absurda. Logo aos 7 minutos de bola rolando, a Nova Zelândia tratou de inaugurar o marcador. Após um bate-rebate confuso dentro da área iraniana, o camisa 9 e veterano, Chris Wood, mostrou oportunismo e serviu Elijah Just, que empurrou para o fundo das redes, castigando a desatenção inicial do adversário.

A resposta para isso foram longos minutos de uma defesa iraniana tentando se encontrar e se reposicionar. Claramente o time de Amir Ghalenoei não esperava levar um gol tão cedo na partida. Depois de muita tentativa e erro, o Team Meli entendeu que talvez a melhor maneira de se defender fosse atacar e passou a adiantar suas linhas, sufocando a saída de bola da Nova Zelândia. A insistência dos iranianos surtiu efeito aos 32 minutos do primeiro tempo. Em uma trama rápida pelo meio-campo, Ramin Rezaeian apareceu com liberdade para finalizar com precisão e decretar o empate, premiando o volume de jogo dos iranianos que dominavam as ações territoriais.

Ambas as equipes tinham muito fôlego, atacando os espaços como um espelho uma da outra. No mais, a Nova Zelândia se mostrou mais estudada, porém aflita, enquanto o Irã lidava com o fato de ter sido um favorito surpreendido logo no início. Enquanto o goleiro dos All Whites, Max Crocombe, protagonizou algumas saídas desnecessárias e extremamente perigosas, quem atiçou a irritação dos torcedores iranianos foi o camisa 9, Mehdi Taremi, que tentou ser extremamente individual em um jogo que pedia claramente pelo coletivo.

A segunda etapa manteve o ritmo elétrico e o roteiro de reviravoltas. Logo aos 10 minutos do segundo tempo, a parceria neozelandesa funcionou perfeitamente mais uma vez. O capitão Wood destilou sua experiência na liderança do ataque e deu mais uma assistência açucarada para Elijah Just balançar as redes, recolocando os All Whites em vantagem e carimbando de vez o ótimo momento dos representantes da Oceania.

Este gol não foi importante apenas por recolocar os Kiwis novamente na frente do placar, mas porque marcou o primeiro doblete de um jogador neozelandês na história das Copas. Aliás, a primeira vez que um jogador neozelandês marca dois gols em uma só Copa. Não em um só jogo, mas na competição inteira. No momento, Elijah Just é o maior artilheiro da história da Nova Zelândia em Copas e comemorou este feito com muita alegria com seus companheiros.

REUTERS/Lisi Niesner

A resposta iraniana, no entanto, veio em grande estilo e não demorou para acontecer. Aos 64 minutos de jogo, Ramin Rezaeian coroou sua grande atuação na partida com um cruzamento espetacular. O levantamento foi tão perfeito que praticamente colocou a pelota na cabeça de Mohammad Mohebi. O atacante testou firme para dentro, sem chances de defesa, estufando as redes depois de um leve desvio na trave e deixando tudo igual novamente.

No fim das contas, o futebol venceu em Inglewood. Duas seleções rotuladas como “figurantes” entregaram um espetáculo de coragem, técnica e movimentação que muito gigante europeu não consegue entregar na primeira rodada – beijos para a Espanha! Se a nova roupagem do torneio vai trazer mais jogos assim, que venham os azarões, porque a bola desfilada na Califórnia foi de altíssimo nível.

Com Ramin Rezaeian escolhido como melhor da partida, o confronto fechou a primeira rodada do Grupo G. No momento, os Kiwis estão na liderança, seguidos pelo Team Meli. Mais abaixo estão a Bélgica de Lukaku, em terceiro lugar, e o Egito de Mo Salah na lanterna. Todos os times estão empatados com um ponto cada. Honestamente? Melhor grupo e o mais equilibrado da competição!

Apesar do jogo incrível e da noite para ficar na memória de qualquer um dos jogadores que lá estavam, o extra-campo segue sendo uma questão para o Team Mali. O capitão Mehdi Taremi não escondeu seu descontentamento com a logística imposta pelos Estados Unidos para receber os iranianos apenas durante o dia dos jogos. O correto – e o que está sendo feito por todas as outras delegações – seria chegar ao local da partida dois dias antes, mas o Irã está chegando de manhã para deixar o país à noite. Eles estão proibidos de se concentrar e dormir nos Estados Unidos, sendo bem honesta, por motivo nenhum.

Essas regras vêm dentro de um pacote de tratamento “especial” que o governo Trump está tendo com seleções e torcedores vindos do sul global que envolve o maior número de burocracias desumanizantes que eles conseguirem adotar. 

Além de ter que deixar o país em direção à Tijuana, no México, logo após a partida, Taremi e o auxiliar técnico, Al-Hawie, ainda foram retidos no aeroporto por supostos “problemas com seus documentos” e tiveram sua viagem adiada em duas horas. Duas horas preciosas para qualquer atleta que esteja competindo em alto nível, quem dirá para uma comissão inteira.

A cada jogo majestoso entregue pelas seleções, apesar do descaso da FIFA, fica mais claro o quão errado Gianni Infantino estava ao manter a Copa do Mundo em um território hostil sob um governo autoritário cujo maior mote é odiar imigrantes e minorias. 

A Copa do Mundo deveria ser a integração de todos os povos igualmente sob a isonomia das mesmas condições de encantar os olhos de quem ama futebol. Pena que neste país maldito, eles nem sabem o que é isso. A Copa do Mundo de Soccer Masculino está fazendo questão de matar este encantamento, enquanto o México e o Canadá tentam protegê-lo.

As equipes retornam aos gramados no próximo domingo (21), para tentar a primeira vitória na fase de grupos. Às 16h, o Irã entra em campo para enfrentar os belgas, enquanto a Nova Zelândia enfrenta o Egito às 22h. Os jogos acontecem no Los Angeles Stadium, em Inglewood, e no BC Place Vancouver, em Vancouver, respectivamente.

Por Luiza Corrêa

Esclarecemos que os textos trazidos nesta coluna não refletem, necessariamente, a opinião do Portal Mulheres em Campo.


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