Austrália amassa favorita Turquia e choca o mundo na estreia da Copa


Com uma vitória por 2 a 0, Socceroos punem as falhas e a lentidão de uma Turquia estéril na posse de bola e sem repertório ofensivo

A Austrália chocou os admiradores do futebol na madrugada deste domingo (14) ao bater a seleção da Turquia por 2 a 0, no gramado do BC Place, em Vancouver. Um verdadeiro amasso tático dos australianos, que construíram uma barreira defensiva impecável que neutralizou os europeus e contra-ataques extremamente rápidos e cirúrgicos que definiram o placar. Foi um clássico choque de estilos entre a posse de bola lenta e improdutiva dos turcos e a contundência física letal dos Socceroos.

O resultado espetacular muda totalmente o panorama da chave e joga uma pressão gigantesca para cima da Turquia, que retornava à Copa sob enormes expectativas após 24 anos de ausência. Diante de 52.497 torcedores em uma atmosfera quente e ensolarada de 22°C, a vitória coloca os australianos na cola da liderança do Grupo D, empatados com os Estados Unidos, enquanto a Turquia amarga a lanterna ao lado do Paraguai. As consequências táticas e psicológicas dessa derrota forçam o técnico Vincenzo Montella a repensar sua equipe para evitar um desastre precoce na competição.

Foto: Reprodução/ Socceroos/X

“Haramball” perfeito e o oportunismo no primeiro tempo
A Turquia entrou em campo achando que ia abafar, ditando o ritmo com 73% de posse de bola nos primeiros dez minutos, mas, na verdade, foram lentos e previsíveis. Aos 26′, Arda Güler pegou de primeira e chutou para o gol. Não foi a finalização ideal, mas o garoto dominou bem a jogada.

Só que, pasmem, menos de 20 segundos depois desse susto, a Austrália deu o troco de forma espetacular. Patrick Beach cobrou rápido para Burgess, que acionou Paul Okon-Engstler no meio. Com uma visão absurda, o jovem de 21 anos descolou um passe por cobertura magistral para a arrancada de Irankunda. A joia australiana botou na frente, deixou Merih Demiral na saudade com um drible seco e, mesmo cercado por três defensores, mandou uma finalização perfeita no contrapé de Uğurcan Çakır. Bola no fundo do gol e festa gigantesca aos 27′!

Com o gol, Irankunda se consagrou, aos 20 anos, como o jogador mais jovem — por enquanto — a marcar nesta edição da Copa, comemorando ao estilo de seu ídolo Tim Cahill, socando a bandeira de escanteio. A resposta da Turquia veio aos 29′ em um lance que quase mudou tudo. A marcação de Harry Souttar subiu, mas a sobra ficou limpa com Abdülkerim Bardakcı, que pegou de primeira, de fora da área, e soltou uma bomba. A bola explodiu na trave, mas só após uma defesa espetacular e milagrosa de Patrick Beach, que desviou com a ponta dos dedos antes de o chute carimbar o poste.

A resposta foi imediata, mas durou pouco tempo. A partir dali, a Turquia tentou acelerar com senso de urgência, mas esbarrou em um bloqueio certeiro. A Austrália recuou, montou uma linha de 5 e instaurou o famoso “haramball”, fechando a área e esperando apenas um contra-ataque. Ficou claro que a Turquia tinha enorme dificuldade na transição. Demiral e Bardakcı são dois zagueiros de muita imposição física, mas de pouca velocidade de recomposição na corrida para trás. Expostos e sem cobertura, eles deram à Austrália o caminho perfeito para controlar o primeiro tempo.

Já nos acréscimos, aos 45+3′, a defesa australiana se jogou na bola de forma heroica para travar uma última investida perigosa de Aktürkoğlu na grande área.

Segundo tempo
No segundo tempo, o jogo continuou sendo o drama turco contra a muralha australiana. Vincenzo Montella lançou Kenan Yıldız a campo para tentar uma faísca de criatividade, mas a noite pertencia ao goleiro australiano. Aos 56′, após falta cometida em cima de Güler na entrada da área, o próprio Arda bateu colocado com veneno. Beach fez mais uma defesa fabulosa de mão trocada no canto inferior; ele deu rebote, mas a defesa australiana, atenta e brigando por cada centímetro, se jogou na bola e tirou dali.

O golpe de misericórdia dos Socceroos veio aos 74′. Em uma saída de bola horrorosa da Turquia, o toque bizarro da marcação de İsmail Yüksek virou uma assistência perfeita nos pés dos australianos. Connor Metcalfe recuperou a bola na intermediária, levou, conduziu com extrema liberdade, teve todo o espaço do mundo e bateu cruzado, de perna esquerda, mandando a bola direto para o fundo do gol. 2 a 0 e uma festa dourada no BC Place Stadium. Desesperada, a Turquia tentou os chuveirinhos, mas sem sucesso.

Aos 85′, em outra cobrança de falta de distância muito parecida com a primeira, Hakan Çalhanoğlu buscou o ângulo, mas Beach voou para agarrar. Aos 88′, o goleiro australiano fechou seu recital particular com mais uma defesa de espetacular em cima do ataque turco, frustrando completamente os rivais e carimbando uma vitória monumental.

Foto: Divulgação: Türkiye Futbol Federasyonu

Goleiro-líbero com espírito de Neuer e zaga gigante: como atuou a Austrália
A Austrália entregou tudo o que a sua torcida sonhava. O grande destaque da noite foi o goleiro Patrick Beach, de 22 anos, que simplesmente encarnou o Manuel Neuer de 2014. Ele atuou como um autêntico goleiro-líbero: super adiantado, cortando bolas fora da área e realizando nada menos que oito defesas milagrosas. O técnico Tony Popovic arriscou tudo ao barrar medalhões como o goleiro Mathew Ryan e o meio-campista Jackson Irvine, mas o resultado foi divo.

Outro monstro defensivo foi o zagueiro Harry Souttar. Capitão na noite, o gigante de 1,98 m deu um “captain’s knock” na defesa, ganhando absolutamente todas pelo alto, rebatendo cruzamentos e liderando com maestria uma zaga muito jovem.

Deserto criativo, decisões questionáveis e Arda Güler isolado: como atuou a Turquia
Para a Turquia, o jogo foi um choque de realidade doloroso. Apesar de ter dominado a bola com 72% de posse, o time apresentou um futebol estéril, lento e sem repertório, incapaz de romper as linhas de marcação. O grande retrato dessa pobreza coletiva foi o isolamento de Arda Güler. O craque do Real Madrid jogou praticamente sozinho, lutando contra o mundo todo para criar jogadas. Güler deu sete finalizações e acertou 71 passes, mas precisava recuar até o círculo central para buscar a bola porque o meio-campo simplesmente não andava.

O técnico Vincenzo Montella também foi alvo de críticas pesadas por suas substituições sem nexo. Sabendo que a zaga australiana tinha gigantes como Souttar (1,98 m) e Burgess (1,94 m), optou por lançar o centroavante de área Deniz Gül em vez de um atacante de drible curto e drible móvel como Can Uzun, facilitando a vida da marcação e matando o dinamismo ofensivo da equipe. O capitão Çalhanoğlu, que havia dito na véspera que a Turquia era muito mais talentosa e dominaria o jogo, teve que engolir a derrota humilhante.

O Grupo D pega fogo na próxima rodada
Quem esperava pouco futebol do Grupo D recebeu, na verdade, um início espetacular com as melhores partidas da Copa até aqui, e pode ter certeza de que tem muito mais resenha para acontecer ainda nos bastidores. O grupo está pegando on fire e a próxima rodada promete ser eletrizante, com os dois confrontos decisivos agendados para a próxima sexta-feira, 19 de junho.

A Turquia, totalmente pressionada e sem pontos na tabela, vai para um jogo de vida ou morte contra o Paraguai, no Levi’s Stadium, em Santa Clara. Ambas as seleções chegam derrotadas nesta rodada e sabem que um novo tropeço pode significar o fim precoce do sonho. É vencer ou arrumar as malas mais cedo.

Já a Austrália, queridinha da rodada após essa vitória histórica, vai encarar os donos da casa, os Estados Unidos, no Lumen Field, em Seattle. O duelo promete demais, já que ambas as seleções chegam embaladas por vitórias épicas e jogam diretamente pela liderança isolada e pela classificação antecipada para as oitavas de final.

Por Adrielle Almeida 

*Esclarecemos que os textos trazidos nesta coluna não refletem, necessariamente, a opinião do Portal Mulheres em Campo


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