Seleção de Uzbequistão


O Despertar de um Estreante com um Técnico Campeão

A partir de 11 de junho de 2026, teremos o início de mais uma edição histórica da Copa do Mundo. Sediada por uma tríplice aliança inédita entre Estados Unidos, México e Canadá, expandirá seus horizontes para abrigar 48 seleções, consolidando-se como o maior espetáculo futebolístico de todos os tempos.

Nesse cenário de gigantismo e expectativa, surge uma das histórias mais fascinantes do torneio: a do Uzbequistão, que carimbou seu passaporte inédito para a elite do futebol mundial em junho de 2025.

Foto: Site Fifa

Três décadas e meia após conquistar sua independência, e após sete tentativas frustradas de formas quase cruéis, os uzbeques finalmente alcançaram a “terra prometida”. Para entender o peso dessa conquista, é preciso olhar para as cicatrizes do passado. 

A dor e a superação há muito tempo se entrelaçam no futebol do país, transformando a inédita vaga na Copa do Mundo de 2026 em uma redenção histórica. O grito de gol que tantas vezes ficou preso na garganta, sufocado por eliminações dolorosas no saldo de gols ou na prorrogação, agora ressoa como um tributo à memória daquela geração de ouro do Pakhtakor interrompida em 1979. Mais do que um sucesso esportivo, a classificação é o fechamento de um ciclo de luto e reconstrução, provando que o destino, embora tardio, finalmente fez justiça ao futebol uzbeque. 

A tragédia que mudou a história do país

A tragédia do Pakhtakor Tashkent em 1979 é um dos episódios mais devastadores e melancólicos da história do futebol mundial, comparável aos desastres de Superga com o Torino (1949), de Munique com o Manchester United (1958) e de Medellín com a Chapecoense (2016). Ela não apenas destruiu um time promissor, mas moldou o destino esportivo de uma nação inteira antes mesmo de ela se tornar independente. 

O Pakhtakor era o único clube da República Socialista Soviética do Uzbequistão que conseguia competir na elite da Top League Soviética. Na temporada de 1979, o time vivia um momento mágico. Conhecidos pelo futebol ofensivo, rápido e técnico, eles ocupavam a parte de cima da tabela e contavam com talentos brilhantes, como o jovem atacante Vladimir Fedorov e o meio-campista Mikhail An, ambos atletas da seleção principal e olímpica da URSS. O clube não era apenas um time de futebol, era o maior símbolo de orgulho nacional para o povo uzbeque dentro do gigantesco território soviético.

No dia 11 de agosto de 1979, a delegação do Pakhtakor embarcou em um voo da Aeroflot rumo a Minsk, onde enfrentariam o Dynamo Minsk pelo campeonato soviético.

A tragédia aconteceu a 8.400 metros de altitude, nos céus da cidade de Dniprodzerzhynsk (atual Kamianske, na Ucrânia). Devido a um erro grave dos controladores de tráfego aéreo em solo, que operavam um espaço aéreo extremamente congestionado naquele dia, duas aeronaves Tupolev Tu-134 da Aeroflot colidiram em cheio em meio às nuvens. O impacto foi fatal para todos a bordo. No total, 178 pessoas perderam a vida, incluindo 17 membros do Pakhtakor (14 jogadores e 3 integrantes da comissão técnica). 

Como era comum no regime soviético da época, o governo tentou abafar a notícia nos primeiros dias, mas a comoção em Tashkent foi tão avassaladora que se tornou impossível esconder o luto de uma nação inteira. 

Mesmo com o esforço de reconstrução, a alma do futebol uzbeque havia sido fragmentada. Aquela geração estava no auge físico e técnico para consolidar o Uzbequistão como uma potência regional. Quando a União Soviética se desintegrou na década de 1990 e as novas repúblicas começaram a disputar as Eliminatórias da FIFA de forma independente, o Uzbequistão teve que recomeçar do zero estruturalmente.

As tentativas de se classificar para o mundial

Na corrida para o Mundial de 2006, a vaga escapou de forma traumática pelo critério de gols fora de casa contra o Bahrein, em um confronto polêmico que chegou a ser anulado e repetido por um erro grotesco de arbitragem. Quis o destino que, exatas duas décadas depois, o comandante dessa redenção inédita fosse justamente o italiano Fabio Cannavaro, o homem que, como capitão da Itália, ergueu a taça daquela mesma Copa de 2006. 

Anos mais tarde, no ciclo de 2014, os fantasmas da quase-classificação voltaram a assombrar o país quando a eliminação veio nos pênaltis diante da Jordânia.

Mas o futebol é mestre em reescrever histórias. O grito tantas vezes sufocado por traumas passados agora ecoa como uma merecida justiça histórica, coroando uma nação que aprendeu a transformar suas maiores feridas em combustível para vencer.

A Geração de Ouro e classificação inédita para mundial 

A caminhada do Uzbequistão nas eliminatórias da AFC começou em ritmo avassalador. Logo na segunda fase, a equipe mostrou a sua força ao arrancar dois empates impressionantes contra a poderosa seleção do Irã. Somados a quatro vitórias categóricas, esses resultados carimbaram o passaporte do país para a terceira e decisiva fase.

O início da etapa seguinte manteve o mesmo tom fulminante: três vitórias e um empate nos quatro primeiros jogos. O único tropeço no percurso veio na quinta rodada, em um doloroso 3 a 2 fora de casa contra o Catar, resultado que adiou temporariamente o grito de classificação.

Apesar da derrota, aquela partida serviu para consolidar o talento de um jovem astro: Abbosbek Fayzullaev. Aos 22 anos, o dinâmico atacante chamou a responsabilidade e marcou os dois gols uzbeques na ocasião, iniciando ali uma sequência individual brilhante. 

Nos jogos seguintes, Fayzullaev foi decisivo: marcou o gol da vitória por 1 a 0 sobre a Coreia do Norte (em campo neutro, no Laos) e voltou a balançar as redes no eletrizante empate em 2 a 2 contra o Irã, em Teerã, um resultado que deixou o país às portas do paraíso.

A redenção definitiva aconteceu em 5 de junho de 2025. Em um contraste poético com o passado de derrotas dramáticas nos minutos finais, a consagração uzbeque veio através da solidez e do pragmatismo: um empate sem gols contra os Emirados Árabes Unidos, em Abu Dhabi. O placar econômico coroou uma campanha impecável e consistente.

Essa equipe de 2025, repleta de jovens que eram apenas crianças quando o país chorava suas eliminações mais cruéis, finalmente mudou o destino da nação. Foi uma conquista que, infelizmente, não chegou a tempo de ser vivida dentro de campo por lendas nacionais como Server Djeparov, Odil Ahmedov e Ignatiy Nesterov. No entanto, o legado e o suor desses antigos ídolos pavimentaram a estrada para que a geração de Fayzullaev cruzasse a última fronteira rumo à glória mundial.

Da Glória em 2006 ao Desafio Uzbeque: A Nova Odisseia de Fabio Cannavaro 

A caminhada rumo à classificação inédita teve a assinatura de uma lenda local. Timur Kapadze, um dos jogadores mais emblemáticos da história do país, foi o técnico do Uzbequistão durante a brilhante e bem-sucedida campanha nas eliminatórias. Por isso, houve um choque generalizado quando o ex-meio-campista foi afastado do comando em outubro de 2025.

Em um movimento ambicioso, a Federação de Futebol do Uzbequistão (UFA) decidiu somar forças: depositou sua confiança na grife e na bagagem internacional de Fabio Cannavaro para liderar a equipe no Mundial, enquanto Kapadze aceitou o papel de auxiliar técnico. 

Foto: Shaun Botterill/Getty Images

A UFA buscou a aura de um campeão mundial para dar o estofo psicológico necessário a essa nova geração de atletas uzbeques que fará sua estreia no maior palco da Terra. A entidade entendeu que a vivência de quem já esteve no topo do mundo seria o fator decisivo para guiar o país em território desconhecido e blindar o elenco jovem contra o peso da ansiedade.

Com o acerto, o técnico italiano passará a integrar o seleto grupo de profissionais que atuaram e treinaram em uma Copa do Mundo. Em nota oficial, a federação destacou o peso dessa escolha:

“A Federação de Futebol do Uzbequistão assinou contrato com Fabio Cannavaro, um renomado especialista, um dos melhores zagueiros de sua geração, participante de três edições da Copa do Mundo e vencedor da Copa do Mundo da FIFA 2006. O técnico italiano comandará nossa seleção nacional na preparação para a próxima Copa do Mundo.”

O que falar dessa escolha? Para mim, ela mexe com a memória afetiva de forma profunda. Lembro-me bem de acompanhar a Copa de 2006 e ver Cannavaro em campo,  ele era um dos meus jogadores preferidos daquela época,  embora no mesmo campeonato eu tenha conhecido o maior de todos, CR7 ❤️.

Mas aquela Copa de 2006 teve um sabor completamente diferente. Ver a Itália erguer a taça me trouxe de volta às raízes dos meus avós italianos que vieram para o Brasil,  foi uma emoção que transcendeu as quatro linhas. E, naquele triunfo monumental, o grande símbolo da conquista foi justamente a estrela que liderava a equipe: o capitão Cannavaro.

Falar dele é evocar a própria essência da arte de defender. O ex-zagueiro desafiou os clichês do futebol moderno: com apenas 1,76m de altura, estatura considerada baixa para a posição, ele se impôs diante dos atacantes mais temidos do planeta com uma antecipação cirúrgica, posicionamento impecável e uma liderança feroz. 

O ápice de sua trajetória ocorreu naquele mesmo ano de 2006, quando capitaneou a Azzurra no tetracampeonato mundial na Alemanha. Naquela campanha, o desempenho da retaguarda italiana sob o seu comando foi tão avassalador que lhe rendeu a Bola de Ouro da France Football e o prêmio de Melhor Jogador do Mundo pela FIFA, um feito raríssimo para um defensor.

O grito tantas vezes sufocado por traumas passados agora ecoa como uma merecida justiça histórica para os uzbeques. O Uzbequistão não apenas curou suas feridas de eliminatórias passadas, mas cercou-se da realeza do futebol para garantir que o debute dessa nova geração seja monumental.

A Trilha do Uzbequistão na Fase de Grupos

Rodada 1: Uzbequistão x Colômbia

Data/Local: 17 de junho – Cidade do México (México)

O Uzbequistão começará sua história em Copas do Mundo em um dos templos sagrados do futebol: o Estádio Azteca. O desafio aqui é duplo: enfrentar a intensidade técnica e o futebol caliente da Colômbia e, ao mesmo tempo, guerrear contra a altitude da capital mexicana (mais de 2.200 metros).

Sob o comando de Fabio Cannavaro, a equipe deve adotar uma postura defensiva sólida e compacta (estilo bem italiano). Tentar propor o jogo contra a Colômbia na altitude seria um suicídio físico. A meta será fechar os espaços, suportar a pressão inicial e explorar os contra-ataques rápidos. Um empate aqui será visto como uma vitória maiúscula e dará a confiança necessária para o resto do torneio.

Rodada 2: Portugal x Uzbequistão

Data/Local: 23 de junho – Houston (EUA)

Na segunda rodada, os uzbeques viajam para o Texas para enfrentar o adversário mais temido do grupo. Portugal entra em campo com o favoritismo absoluto, contando com um elenco recheado de estrelas mundiais e vasta experiência em torneios de tiro curto.

Este é o jogo onde a experiência de Cannavaro como campeão do mundo fará a diferença no vestiário. O Uzbequistão precisará de uma partida tática perfeita. O clima no verão é extremamente abafado, o que pode desgastar os jogadores rapidamente. A palavra de ordem será resiliência. Bloquear as linhas de passe de Portugal e travar o jogo no meio-campo será vital para evitar uma goleada que possa prejudicar o saldo de gols. Qualquer ponto conquistado contra Portugal será um bônus histórico. O foco principal é manter a cabeça no lugar para a “final” que virá na última rodada.

Rodada 3: RD do Congo x Uzbequistão

Data/Local: 27 de junho – Atlanta (EUA)

Independentemente dos resultados anteriores, a terceira rodada em Atlanta tem tudo para ser a decisão da vaga para a próxima fase (seja em 2º lugar ou como um dos melhores 3º colocados no novo formato de 48 seleções). A República Democrática do Congo é uma seleção historicamente muito forte fisicamente, veloz e de transições rápidas.

Diferente dos dois primeiros jogos, onde o Uzbequistão jogará claramente como “zebra”, contra a RD do Congo os comandados de Cannavaro precisarão propor um pouco mais de jogo. Será um confronto de choque cultural futebolístico: a organização e consistência defensiva do Uzbequistão contra a força e imposição física dos congoleses. É o jogo ideal para o Uzbequistão buscar sua primeira vitória na história das Copas. Vencer aqui significa manter vivo o sonho de avançar ao mata-mata logo na sua estreia mundial.

O Uzbequistão pegou um grupo cascudo, mas perfeitamente equilibrado para quem busca surpreender. Se a consistência defensiva demonstrada nas eliminatórias da AFC se mantiver sob o comando de Cannavaro, o Uzbequistão tem chances reais de beliscar uma vaga na fase eliminatória, escrevendo mais um capítulo inacreditável em sua jornada de superação.

A convocação:

A espera chegou ao fim. Nesta terça-feira (02/06), o técnico Fábio Cannavaro revelou os 26 guerreiros que terão a missão de representar o Uzbequistão na Copa do Mundo de 2026, um momento histórico para uma seleção que sonha em deixar sua marca no maior palco do futebol mundial.

Integrante do Grupo K, ao lado de Portugal, Colômbia e Congo, a equipe asiática já conhece o primeiro desafio da caminhada. A estreia acontece no dia 17 de junho, no lendário Estádio Azteca, no México, diante da forte seleção colombiana. Um teste de fogo para um elenco que carrega a esperança de milhões de torcedores.

Antes de definir a lista definitiva, Cannavaro havia convocado 30 jogadores para o período de preparação. Após semanas de observação e ajustes, o treinador precisou tomar decisões difíceis e reduziu o grupo para os 26 nomes permitidos pela FIFA. Os atacantes Umarali Rahmonaliyev, Jasur Jaloliddinov, Ruslan Zhiyanov e Sherzod Temirov acabaram ficando fora da relação final.

A delegação uzbeque chega ao Mundial com um elenco equilibrado, formado por três goleiros, dez defensores, dez meio-campistas e três atacantes. Agora, com a convocação definida, o país volta suas atenções para a contagem regressiva rumo ao torneio, alimentando o sonho de surpreender o mundo e escrever o capítulo mais importante de sua história no futebol.

Foto: Reprodução

Os convocados são:

Goleiros: Otkir Yusupov, Abduvohid Nematov, Botirali Ergashev.

Defensores: Abdukodir Husanov, Hojiakbar Alijonov, Farruh Sayfiyev, Rustam Ashurmatov, Umar Eshmurodov, Sherzod Nasrullayev, Abdulla Abdullayev, Avazbek Olmasaliyev, Jahongir Orozov, Behruz Karimov.

Meio-campistas: Akmal Mozgovoy, Otabek Shukurov, Jamshid Iskanderov, Odil Hamrobekov, Jaloliddin Masharipov, Oston O’runov, Dostonbek Hamdamov, Aziz G’aniyev, Abbosbek Fayzullayev, Sherzod Esanov.

Atacantes: Eldor Shomurodov, Igor Sergeyev, Azizbek Omonov.

Que os gramados da América do Norte testemunhem, enfim, o desabrochar de uma força há muito guardada. Que esta estreia histórica seja o palco onde o Uzbequistão deixará para trás as cicatrizes e os fantasmas do passado, transformando velhas lágrimas em combustível para a glória. 

Mais do que disputar uma Copa do Mundo, essa seleção entra em campo para dar voz ao orgulho de uma nação inteira e escrever, com letras douradas, o capítulo mais bonito, inédito e merecido de sua história. O mundo do futebol saúda os Lobos Brancos: que o rugido uzbeque ecoe forte em 2026! 

Por Mury Kathellen 

*Esclarecemos que os textos trazidos nesta coluna não refletem, necessariamente, a opinião do Portal Mulheres em Campo.


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