O Team Melli busca fazer história em solo norte-americano
Se tu acompanha futebol para além dos campeonatos europeus plastificados, sabe perfeitamente que o esporte no Oriente Médio não é um passatempo de fim de semana. O esporte é um fio condutor de identidade. Para o povo iraniano, o Team Melli representa um dos raríssimos pontos de consenso, um manto sagrado capaz de unir uma nação inteira sob a mesma bandeira. Ver essa camisa pela sétima vez no maior palco da Terra é a consagração de uma geração que se acostumou a jogar com o vento contra. Mas, desta vez, o vento contra começou muito antes da bola rolar no gramado, na frieza burocrática dos consulados.
Mesmo antes da estreia na Copo do Mundo, para enfrentar a Nova Zelândia na segunda-feira (15) às 22h, os problemas extra campo já mostram que não darão um tempo nem em época de festa. Uma ironia é saber que a seleção iraniana estreia no SoFi Stadium, em Inglewood, local cujo 28.7% da população é imigrante. Como pode a casa dos estrangeiros ter tanta dificuldade de assinar os vistos para receber os Team Melli na que deveria ser a festa mais democrática do futebol?

Lidar com os Estados Unidos sendo iraniano – ou simplesmente estrangeiro – é uma missão que exige uma resiliência quase sobre-humana. Enquanto outras seleções se preocupam apenas com a carga de treinos e a logística de voos, os jogadores do Irã se viram imersos em uma espera angustiante por vistos, reféns de uma barreira política que tenta barrar no papel o direito conquistado no campo. É o cúmulo do absurdo que o esporte precise pedir licença para a geopolítica, mas se os estadunidenses acham que a lentidão dos carimbos ia minar o foco desse grupo, eles não entendem nada sobre a alma persa.
A caminhada nas Eliminatórias foi longe de ser um conto de fadas pavimentado. Enquanto o eixo mundial esbanjava a paz de saber que não seria desrespeitado pelos anfitriões, o Irã transformou o caldeirão de Teerã em uma fortaleza intransponível, onde a paixão da arquibancada empurrava a bola para dentro na marra. Não há tática no mundo que anule o colosso de um time que joga sabendo exatamente quem está defendendo.
Para esse retorno monumental, a lista de convocados traz uma alquimia perfeita de veteranos calejados e garotos abusados. Temos a muralha de Alireza Beyranvand sob as traves, a liderança incontestável de Ehsan Hajisafi na cozinha e a genialidade fina de Saman Ghodoos e Alireza Jahanbakhsh ditando o ritmo do meio de campo. Na frente, a fome de gol fica por conta do craque Mehdi Taremi e da ousadia de garotos que querem chocar o mundo.
Aqui estão os 26 escolhidos que aguardam o sinal verde da burocracia para calar o planeta:
- Goleiros: Alireza Beyranvand, Hosein Hoseini e Payam Niazmand.
- Defensores: Shoja Khalilzadeh, Hosein Kanaani, Ali Nemati, Daniyal Eiri, Ehsan Hajisafi, Milad Mohammadi, Saleh Hardani e Ramin Rezaeiyan.
- Meio-campistas: Saman Ghodoos, Saeid Ezatollahi, Rouzbeh Cheshmi, Amir Mohammad Razagah Niya, Mohammad Ghorbani, Mehdi Ghayedi, Ariya Yousefi, Alireza Jahanbakhsh, Mehdi Torabi e Mohammad Mohebbi.
- Atacantes: Mehdi Taremi, Amirhossein Hosseinzadeh, Denis Dargahi, Ali Alipour e Shahriyar Moghanloo.

A grande mídia ocidental, sentada em suas redações confortáveis em Nova York ou Los Angeles, já fez as contas no teclado e olhou o ranking da FIFA apenas sob a ótica do jogo. O que eles esquecem é que, para os iranianos, pisar em um gramado nos Estados Unidos carrega uma carga geopolítica impossível de ser ignorada. Décadas de sanções econômicas severas, isolamento internacional e humilhações diplomáticas ditadas diretamente de Washington transformaram essa viagem em um campo de batalha simbólico.
Ver os heróis iranianos cruzando essas fronteiras de cabeça erguida, após vencerem a própria barreira dos vistos que tenta invisibilizá-los, é uma afirmação de existência que rasga qualquer protocolo da Casa Branca. O futebol tem uma mania deliciosa de ignorar a lógica das superpotências mundiais e mostrar que, dentro das quatro linhas, a soberba imperialista não dita as regras do jogo.
Ganha quem jogar mais e tiver mais perna nos acréscimos, com certeza. Mas esses caras não cruzaram o planeta para pedir desculpas ou assinar tratados. Eles foram reivindicar sua soberania através do jogo. E, eu não sei vocês, mas eu não experimentaria cutucar o guepardo-asiático com uma vara curta como a de Trump. Quanto mais o sul global apanha, mais raiva ele adquire e só a gente sabe como transformar isso em combustível. Preparem-se, porque o Irã vai entrar em campo com a força de quem sabe exatamente a importância de estar de volta!
Por Luiza Corrêa
*Esclarecemos que os textos trazidos nesta coluna não refletem, necessariamente, a opinião do Portal Mulheres em Campo