Internacional desbanca o outro time da cidade e avança de fase na copa nacional
No anoitecer da última quarta-feira (27), as Gurias Coloradas receberam as Mosqueteiras no Beira-Rio pela disputa de vaga nas oitavas de final da Copa do Brasil. No tempo normal, o jogo foi equilibrado como pede um clássico deste tamanho acontecendo pela primeira vez de forma eliminatória em âmbito nacional.
Em momentos como esse, é que as verdadeiras heroínas se consagram. Enquanto a capitã delas tremeu na base dentro dos muros do Gigante, nossa goleira, cria da nossa base, mostrou do que ela é feita. 4 a 2 para o grande, e uma classificação histórica dentro de casa.

Muito como foi visto no embate entre Grêmio e Juventude, as tricolores têm se afobado bastante mesmo em jogos mais simples. Esse nervosismo, misturado com a tensão de estar jogando no estádio mais bonito e robusto do Brasil, se mostrou extremamente danoso a elas, que não estão acostumadas com jogos grandes. Ao invés de trabalhar a bola e tentar penetrar na defesa – muitas vezes frágil – do Internacional, elas decidiram só dar chutão de longe.
O meio-campo foi, sim, mais povoado pelas Mosqueteiras, muito pela experiência das jogadoras que ali ficam. Camila Pini, por exemplo, já está em sua segunda temporada no menor do sul e tem se destacado bastante no cenário nacional. Mais à frente está Leidiane, ex-Flamengo – como várias em campo esta noite -, que deveria ajudar a trazer mais sabedoria àquela região. Antes do final do jogo, descobrimos que isso não quer dizer nada.
O Internacional, por outro lado, achou dificuldades em manter a troca de passes, coisa que também vimos contra o Flamengo no final de semana. No final das contas, a qualidade com bola no pé não é exatamente coletiva neste grupo, aparecendo mais em Aninha, Myka e muitas vezes em Valéria, que tem estado mais sumida em campo.
Contudo, se não tem tu, vai tu mesmo, e passando por cima das dificuldades técnicas, as Gurias decidiram fazer da bola parada a sua melhor amiga – aproveitando o quão faltoso é o time das Mosqueteiras. A goleira Raíssa, expulsa no Brasileirão após meter a chuteira no pescoço de uma das Gurias Jaconeras, parecia querer ser o ponto de desequilíbrio entre as boas finalizações coloradas e o gol. Pelo jeito, uma goleira seria decisiva…
O segundo tempo foi muito parecido com o primeiro e escancarou ainda mais a dificuldade do Internacional em criar jogadas e, principalmente, a dificuldade das atacantes coloradas em… fazer gol. O problema não é só no masculino, a centroavante gringa das Gurias também não sabe cabecear sempre.
Ultimamente, a melhor jogadora no nosso terço de ataque tem sido a recém promovida Caty. Além de não ser míope e entender onde fica a meta, a camisa 11 ainda tem muita criatividade para criar jogadas, sem contar um bom drible. Desde que entrou no vexame contra o Bahia, tem se mostrado uma ótima opção para jogos mais conturbados.
Depois de um tempo, o meio campo se tornou a única região ocupada, em um jogo truncado e muito feio – como greNAL tem que ser! O clássico dificilmente pede grandes jogadas, dribles plásticos e finalizações dignas de prêmio Marta. Decidindo uma Copa do Brasil, então, tudo é sobre garra. É sobre raça. É sobre fé. Contudo, talvez, mais do que tudo, é sobre ódio. E se tem uma coisa que a nossa base faz bem, essa coisa é odiar o menor do Sul.
Dizem que a goleira mais testada durante os 90 minutos é a goleira que tende a decidir em uma cobrança de pênaltis. Acredito que seja uma regra, afinal, muitas pessoas acreditam nisso. Mesmo que as deusas do futebol ajam para tal, apenas uma jogadora do tamanho de Gabi Barbieri pode se colocar nesse lugar, em um clássico decisivo da Copa do Brasil, e sair de campo como heroína absoluta. Catou tudo no tempo normal e decidiu colocar a classificação no bolso nos penais.

(Will Anacleto)
Contra o bem do bom futebol e tudo que eu acredito, Salgado decidiu começar batendo com a zagueira. Sorte que Débora estava com o pé bem calibrado e balançou as redes sem demais problemas.
E então, logo de primeira, Jessica de Lima mandou sua melhor jogadora. A craque. A rainha do meio campo. Goleadora, entregadora de assistências e uma grande atleta, realmente. Contudo, esta terra tem patroas e Camila Pini veste a camisa das filhas toda vez que entra em campo. A craque gremista bateu, mas Gabi Barbieri nem se deu ao trabalho de tomar conhecimento dela. Bola nas luvas da goleira e segue o baile. Uma loira decisiva estava em campo e, felizmente, ela não veste azul.
Seguindo o baile da base resolvendo quando precisamos, Joana – que merece ser titular nesse time – bateu e deixou Raíssa em maus lençóis. Brenda Woch converteu a segunda cobrança para as Mosqueteiras. Alice foi a próxima a bater e deixou 3 a 1 para as Gurias Coloradas. Quando a experiente, goleadora, guerreira e vários blá blá blás tricolores, Leidiane, cobrou o seu penal, ele acabou novamente nas mãos de Gabi Barbieri. Elas podem chamar as suas jogadoras do que quiserem. Absolutamente todas elas são menores que a minha goleira.
Então, nos vimos em uma situação já conhecida. Em 2023, disputando a semifinal da Libertadores, Barbieri fechou o gol no tempo normal e na cobrança de pênaltis contra as Brabas. Contudo, uma de suas zagueiras, cria da base e absolutamente importante no tempo normal, acabou errando uma das cobranças. Naquele dia, além dela, a capitã acabou errando também e, apesar dos esforços da goleira, acabamos caindo para elas.
Contra o Grêmio, Bianca acabou sendo a Guria a errar dessa vez. E tudo bem! Bianca tem fechado a zaga correndo praticamente sozinha em todos os jogos. Ela finaliza bem, apesar de não ser sua função principal, e pode ter sentido o peso do jogo. A menina não merece nenhum tipo de retalhamento pelo erro, visto que só existiram pênaltis porque ela fez um grande jogo.
A partir dali, era jogar para não permitir que Bianca se sentisse responsável por uma possível derrota, pois seria injusto. Amanda Brunner cobrou para elas e Barbie não conseguiu agarrar, mas o pênalti decisivo era nosso.
Então, Caty se aproximou da bola. Ela precisava desse gol para coroar a sua atuação, a atuação de Bianca, a atuação de Barbieri e a raça de todas que entraram em campo ou apoiaram do banco. Caty precisava desse gol para agradecer todas as torcedoras que saíram de suas casas para dar som ao Beira-Rio. Caty precisava de um gol para levar o Colorado às oitavas de final da Copa do Brasil e permitir que todas as jogadoras que já se apaixonaram pelo clube possam jogar mais decisões vestindo a camisa vermelha.
Tu tem alguma dúvida de que ela iria acertar? Em casa, nos braços da torcida, movida pelo vento da beira do rio Guaíba, embalada pelos cânticos mais copiados do Brasil e aquecida pelos braços de suas colegas, a camisa 11 decidiu como uma atacante tem que fazer.
Goleira de um lado, bola do outro e a corrida em direção às parceiras como só uma jogadora decisiva pode correr. Caty fechou as cobranças e a torcida foi à loucura cantando mais alto, mais forte, gritando e podendo ver na cara de cada uma das Gurias a felicidade, o alívio e orgulho de ir para a pausa do futebol feminino depois de eliminar as rivais de uma competição tão importante.
Não, o nosso time não é o mais habilidoso. Não tem os nomes mais badalados. Muitas vezes, ele nem tem peças que eu gostaria que ele tivesse. Entretanto, esse time sangra vermelho por uma pele que sua e sabe o peso de vestir a Camisa Vermelha.
E então, embaladas pela bateria da torcida, as Gurias da base, as antigas, as novas e todas que estão entre essas classificações cantaram as nossas músicas empunhando a nossa bandeira. Darlene, aliviada, ignorou a dor no braço para tremular um bandeirão sabendo que momentos como este pedem além da nossa capacidade física.
Quando elas cantam que vão lutar até morrer, eu preciso acreditar pois eu vejo em cada par de olhos a mesma vontade que eu tenho. Quando elas cantam que seremos campeãs, eu não posso me dar ao luxo de duvidar. Afinal, elas já entenderam que greNAL se GANHA!
Vamos, vamos, meu Inter!
Nos vemos na volta da Copa, contra o Fluminense. Mal posso esperar para passar mais raiva com vocês!
Por Luiza Corrêa
*Esclarecemos que os textos trazidos nesta coluna não refletem, necessariamente, a opinião do Portal Mulheres em Campo.