Calendário livre, ferida aberta


Flamengo é eliminado pelo Vitória e transforma o alívio no calendário em debate sobre ambição esportiva

A eliminação no Barradão talvez diga mais sobre o Flamengo de 2026 do que qualquer goleada recente. Não pelo resultado em si, só perde quem joga, mas pela naturalidade quase protocolar com que o clube parece aceitar a ideia de abrir mão da Copa do Brasil para sobreviver ao calendário que ele mesmo escolheu priorizar.

O Flamengo chegou a Salvador carregando uma vantagem mínima construída no Maracanã, um elenco milionário, uma sequência de dez jogos sem perder e o peso inevitável do favoritismo. Saiu derrotado por 2 a 0 pelo Vitória, com direito a um golaço do adversário com apenas seis minutos de bola rolando, dando adeus à competição ainda na quinta fase. O Barradão pulsava como se fosse final de campeonato. O Flamengo, em muitos momentos, parecia disputar apenas mais uma partida no meio do caminho.

E talvez fosse exatamente isso.

Foto: Reprodução X: @arrascapgvl

Desde antes da bola rolar, o discurso já preparava o terreno. O presidente Bap havia deixado claro dias antes a ordem de importância das taças: Brasileirão, Libertadores e, por último, Copa do Brasil. Leonardo Jardim reforçava a ideia de “manter o elenco inteiro” para as competições principais. O revezamento virou filosofia, quase um manifesto. O Flamengo não abandonou oficialmente a Copa do Brasil, mas também nunca deu sinais de que pisaria nela com a mesma obsessão que pisa em Libertadores.

No fundo, parece existir uma matemática silenciosa dentro do clube: o desgaste de atravessar todas as frentes pode custar justamente os títulos mais desejados. E, traumatizado por temporadas em que o time chegava morto fisicamente nos momentos decisivos, o Flamengo resolveu escolher onde quer gastar energia.

O problema é que futebol não respeita planejamento corporativo.

Porque enquanto o Flamengo calculava minutos, rotações e desgaste muscular, o Vitória fazia o jogo da vida e isso fez diferença desde o primeiro minuto. A pressão sufocante do time baiano empurrou o Rubro-Negro para trás, e Erick acertou um daqueles gols que mudam atmosfera, confiança e roteiro. Rossi sequer teve reação; só observou a bola morrer no ângulo.

Ainda assim, o Flamengo teve o controle do jogo durante longos períodos. Terminou com posse esmagadora, empilhou 26 finalizações e criou chances suficientes para resolver a classificação. Carrascal teve cabeçada salva por Lucas Arcanjo. Bruno Henrique também. Emerson Royal cruzava bolas perigosas. Pedro brigava sozinho entre zagueiros. Mas faltava o principal: contundência.

Era uma posse menos estéril do que em outras noites, como Leonardo Jardim fez questão de destacar depois da partida. O Flamengo criava, só não concluía. E existe algo quase simbólico nisso: um time tecnicamente superior, dono da bola, dominante em números, mas incapaz de transformar controle em sobrevivência.

Quando Luan Cândido aproveitou a sobra após escanteio curto e fez o segundo gol, o jogo ganhou um ar inevitável. Leonardo Jardim respondeu enchendo o time de atacantes, colocando Pedro, Cebolinha, Varela, empurrando o Flamengo para frente num abafa tardio. O Vitória recuou, resistiu e encontrou em Lucas Arcanjo um personagem decisivo. O goleiro virou muralha justamente na noite em que o Flamengo mais precisava transformar volume em gol.

E talvez seja aí que mora a grande ironia.

Foto: Gilvan de Souza/Flamengo

O Flamengo trata a Copa do Brasil como terceira prioridade justamente porque acredita que precisa preservar forças para vencer o que considera maior. Mas a eliminação também cobra um preço: financeiro, esportivo e emocional. São menos jogos decisivos, menos margem para erro no restante da temporada e uma pressão inevitavelmente maior sobre Brasileirão e Libertadores. O próprio Leonardo Jardim admitiu isso ao fim da partida: “Não é vexame, mas é inesperado.”

E é mesmo. Porque por mais racional que pareça liberar datas no calendário, o Flamengo nunca será um clube desenhado para naturalizar eliminações precoces. O elenco caro, a torcida gigantesca e a cultura recente de conquistas impedem isso. O torcedor pode até entender o planejamento. Aceitar já é outra história.

No fim, o Flamengo deixa Salvador com sete semanas livres no calendário até o fim da temporada. Descansa. Treina. Recupera jogadores. Respira. Tudo exatamente como o planejamento imaginava.

Só não imaginava que o preço seria ir embora cedo demais.

Por Rayanne Saturnino 

*Esclarecemos que os textos trazidos nesta coluna não refletem, necessariamente, a opinião do Portal Mulheres em Campo


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