Mesmo jogando abaixo, Internacional assegura lugar no G4, assumindo momentaneamente a terceira posição
Em meio ao frio de rachar que fazia em Porto Alegre nesta segunda-feira (11), as Gurias Coloradas receberam as Gloriosas pela décima rodada do Brasileirão A1. Em um jogo cheio de faltas e sem muita bola rolando, o Inter teve dificuldades e se viu dominado no primeiro tempo. Mesmo assim, com um pouco mais de concentração na segunda etapa, Darlene mostrou que tem mesmo sangue de artilheira e garantiu a vitória para as donas da casa por 1 a 0.

Os primeiros 45 minutos mostraram dois times bastante diferentes dos que vimos nos últimos jogos. O Botafogo que foi completamente envolvido pelas Braga Girls desapareceu em meio ao vento da capital gaúcha e deu lugar a um time com muito mais vontade, apesar de pouco eficiente. Do outro lado do campo, o Internacional, que brincou de bobinho com as Sereias da Vila, entrou um pouco perdido.
Soll, meia do Colorado, foi uma personagem bastante ativa, considerando o marasmo da primeira etapa. A camisa 30 cobrou uma falta diretamente para o gol de Michelle aos 7 minutos de jogo, mas acabou mandando por cima da trave. Aos 25’, Soll voltou a aparecer cruzando para que Sole Jaimes subisse mais que todo mundo e testasse nas mãos da goleira alvinegra.
O jogo foi se desenrolando com pouquíssima participação das visitantes, que só trouxeram real perigo faltando dois minutos para o fim da etapa regulamentar quando Rebeca invadiu a área e finalizou forte. O primeiro chute no alvo das Gloriosas foi espalmado pela necessária cria da base, Gabi Barbieri, sem demais intercorrências.
Um jogo pouco propositivo e muito reativo, como é o do Internacional, tende a sofrer alguns contratempos ante um adversário menos habilidoso. O estilo de Maurício Salgado necessita enfrentar times com um volume de jogo muito alto para que as Gurias possam roubar a bola e escapar em velocidade. O primeiro tempo entregou duas coisas que matam o bom jogo das donas da casa: um Botafogo muito impreciso e um Colorado muito lento.
A fim de adicionar um pouco mais de velocidade, Maurício Salgado decidiu promover a entrada de Joana e Pati Llanos nos lugares de Soll e Lelê. As mudanças não se mostraram efetivas de imediato, mas aos poucos o Colorado foi se encontrando.
A participação da base novamente se mostrou completamente necessária. A entrada da camisa 18 tornou o meio mais dinâmico, dando mais chance para que a estrela do Celeiro, Aninha, pudesse se mover um pouco mais livremente. Outras duas Pirralhas Coloradas que estavam em campo eram Bianca Martins e Myka e estas foram, além de necessárias, decisivas para a conquista dos três pontos.
Logo no início da segunda etapa, Bianca protagonizou um corte providencial para evitar que a camisa 10 alvinegra, Bebê, pudesse abrir os trabalhos e despejar alguns litros de água desnecessários no chopp das Gurias.
Depois do avanço que o Colorado deu em resposta ao ataque do Fogão, a camisa 14 cobrou um lateral direto nos pés de Valéria que, sempre muito bem posicionada, estava espetada na direita. A ala cruzou em direção a área e, após um desvio, Myka carimbou a trave. Esta finalização foi o ponto necessário para que a bola voltasse e se perdesse em um bate rebate na pequena área. Vendo a pelota sobrando, Darlene fez valer seu título de artilheira colorada e estufou as redes com um chutão aos 11 minutos.
O gol foi muito comemorado por todas as jogadoras, que sentiram um peso desnecessário sair de suas costas. A queda deste peso, inclusive, pareceu ser física, pois o time começou a se postar muito mais leve e veloz em busca da ampliação do placar recém aberto.

Mesmo mais calmas e aproveitando o espaço deixado nas costas da zaga adversária, as Coloradas entenderam rápido que o jogo não havia acabado. Com algumas mudanças promovidas para tentar ser mais ofensivo, o Botafogo acabou foi amornando a partida mais uma vez, acabando com qualquer menção de um bate-bola mais criativo e inspirado de qualquer um dos lados.
Para termos uma noção, as Gurias e as Gloriosas fecharam o jogo com 85 e 99 passes errados, respectivamente, e boa parte destas imprecisões aconteceram na primeira metade da partida. Além disso, o Inter cometeu 13 faltas ao total, enquanto o Fogão teve 17 infrações.
Dado o retrospecto da temporada, podemos notar que as Gurias Coloradas têm realmente entrado abaixo em casa. Segundo a própria atacante Darlene, o fator casa tem sido mais distrativo do que útil ao time, mas ela não disse isso aceitando esse fato. A camisa 7 demonstrou incômodo com a atuação do Inter na entrevista ao NSports, mesmo com a vitória, e afirmou que elas precisam trabalhar mais nisso se querem atingir os objetivos. Objetivos estes que, no início do ano, podiam significar apenas se manter na zona Série A1, ou mesmo se classificar nas posições mais baixas do G8. Contudo, agora se revelaram muito mais. O Internacional está novamente brigando lá em cima.
Sim, nós estávamos esperando uma goleada, mas conseguimos os três pontos dentro de casa e isso já é o necessário.
Eu não quero levantar demais as minhas expectativas pensando em título, ou mesmo em uma classificação para a Libertadores. Não que eu não acredite nas Gurias, que têm me dado todos os motivos necessários para me fazer crer. Eu só não consigo muito enxergar para além do descaso e falta de tato que a diretoria geral do Internacional já mostrou ter com o departamento feminino.
A promoção de Rosângela de Campos, integrante de longa data do Conselho Deliberativo do Inter, à Diretora de Futebol Feminino e a homenagem aos torcedores que acompanham e apoiam as Gurias há muito tempo são boas e necessárias ações afirmativas, mas nada além.
Desde a montagem do time, a torcida e a mídia enxergam inconsistências e até alguns erros. A média de idade elevada ainda é uma questão para mim, pois não há vontade que bata de frente com o cansaço físico, por exemplo. A renovação e o salário elevado de nomes como Pati Llanos e a opção por manter Mari Ribeiro no profissional enquanto precisamos dela nos mata-matas do Brasileirão Sub-20 enquanto temos Kelly para a posição de reserva adulta são outros exemplos da falta de tato que eu mencionei antes.
Mesmo assim, o time chegou à sua quarta vitória seguida, se estabeleceu no G4 junto a equipes como Corinthians, Palmeiras e São Paulo e fez renascer o sorriso na boca dos colorados. Sim, elas fizeram isso com seu talento, mas principalmente com sua entrega, vontade, respeito, amor e lucidez. Darlene é crítica a coisas que qualquer torcedor vê e também quer criticar. Sole Jaimes e Kelly Chiavaro trouxeram sua família para integrar a família que é as Gurias Coloradas. Aninha e Myka mostram em campo a força que a base feminina tem e vai continuar tendo apesar do descaso. Valéria Cantuário mostra jogo após jogo que ser Inter não é só jogar, mas, sim, entender que o Inferno que nós criamos é muito mais doce do qualquer céu azul desbotado.
No final das contas, talvez o nosso plantel não seja o ideal, mas têm se mostrado o necessário.
As Gurias Coloradas voltam a campo no sábado (16), para enfrentar o Bahia, em Salvador, pelo Brasileirão A1, e devem manter a boa fase fora de casa.
Por Luiza Corrêa
*Esclarecemos que os textos trazidos nesta coluna não refletem, necessariamente, a opinião do Portal Mulheres em Campo.