O Colorado recebe o arquirrival no Estádio Beira-Rio precisando reverter a desvantagem e transformar o Gre-Nal 451 em mais um capítulo improvável da história do Campeonato Gaúcho
Dentro de casa, na altura do número 891 da Avenida Padre Cacique, o Colorado entra em campo pela final do Campeonato Gaúcho, para tentar reverter um resultado amargo no clássico 451. Às 18h deste domingo (8), recebe o arquirrival depois de um jogo de ida que terminou em uma conta negativa de 3 a 0 para o Clube do Povo.

Num pedaço de chão que já foi rio, em um espaço sagrado levantado tijolo a tijolo — selado entre promessas e juras de amor sussurradas entre gritos de gol e silêncios ensurdecedores que fazem curva na direção da bola — há de se disputar um jogo que virou guerra. Uma guerra que durou infinitos minutos além do apito final e que parece perdurar sem intervalo até que, de fato, a bola volte a rolar e tudo volte a ser apenas futebol.
Dentro de campo, a partida de ida fez um recorte de futebois que não se encaixa na realidade. Se o Clube do Povo foi totalmente desconexo, desatento e até desonesto consigo mesmo, do outro lado também houve a inverdade de um futebol que não costuma ser regra. E assim entra em campo o Inter precisando de uma reviravolta, carregando o peso de um placar elástico promovido pelo rival no jogo de ida. Na beira do Guaíba, terá mais uma vez fazer-se diferente.
Dentre os tijolos que constroem o Beira-Rio, entre choros, cantos, palmas e gritos — e todas as promessas de amor incondicional feitas na presença de estranhos que vivem entrelaçados por esse amor enlouquecedor, ensurdecedor, irracional, desproporcional e cataclísmico pelo Clube do Povo — haverão de levantar-se almas de todas as mandingas. Rezas, patuás, novenas, orações e toda forma de entrega aos deuses do futebol e às promessas de insanidade.
Porque as finais também são feitas de fé. E quando a bola voltar a rolar no Beira-Rio, não será apenas um time tentando reverter um placar — será uma arquibancada inteira tentando dobrar o destino e provar que, no futebol, impossível é apenas uma palavra dita antes do jogo começar.
Tecnicamente, a missão de Paulo Pezzolano passa por transformar urgência em organização. Para buscar a reviravolta no Gre-Nal 451, o Colorado deve assumir uma postura agressiva desde o primeiro minuto no Beira-Rio, empurrando o rival para trás e tentando encurtar o campo. A tendência é de um time posicionado mais alto, com laterais projetados e Alan Patrick atuando mais próximo de Borré, aproximando o principal articulador do homem de referência do ataque para acelerar associações no último terço.
Com os extremos atacando os espaços às costas da defesa adversária, o objetivo passa a ser transformar a posse em presença constante na área. Mais do que volume ofensivo, a chave pode estar na pressão após-perda: recuperar a bola rapidamente, impedir respiros e transformar cada ataque em permanência no campo rival. Num cenário em que o relógio também joga, intensidade, ocupação do último terço e coragem para arriscar podem ser as armas de um Clube do Povo que precisa transformar posse em avalanche.

Tecnicamente falando, Pezzolano terá de realizar alterações na escalação pela ausência — triste ou alegre — de Bernabei, expulso no jogo de ida. A recomposição deve vir com a improvisação de Braian Aguirre no lado esquerdo, com Bruno Gomes complementando o lado direito. No mais, a base tende a ser a mesma que foi a campo no último domingo (1). Assim, o time que deve ir a campo tende a ser: Rochet; Bruno Gomes, Gabriel Mercado, Félix Torres e Aguirre; Ronaldo, Paulinho, Vitinho, Alan Patrick e Carbonero; Borré.
Se esta final de Campeonato Gaúcho enalteceu-se como um confronto de guerra — um embate que, ainda que carregue a força do clássico de maior rivalidade do país, ganhou peso de ouro — é bom lembrar que o impossível já foi desafiado outras vezes por estas bandas da Padre Cacique. Um estádio nasceu sobre as águas do rio, um campeão mundial caiu diante da obstinação vermelha na caminhada da primeira Copa Libertadores da América, e o mundo assistiu ao improvável quando o gigante catalão tombou na final da Copa do Mundo de Clubes. Por isso, quando a bola rolar outra vez, talvez não se trate apenas de reverter um placar — mas de lembrar, mais uma vez, que a palavra impossível costuma perder força quando encontra o Clube do Povo pelo caminho.
E domingo pode ser mais uma dessas noites.
Por Jéssica Salini
*Esclarecemos que os textos trazidos nesta coluna não refletem, necessariamente, a opinião do Portal Mulheres em Campo