Tetra no campo ou no tapete


Vitória suada mantém o América vivo enquanto o campeonato passa a ser jogado dentro e fora das quatro linhas

O América de Natal venceu o QFC por 1 a 0 na tarde deste sábado (31), às 16h, na Arena das Dunas, em partida válida pela quinta rodada do Campeonato Potiguar. O gol solitário saiu apenas aos 43 minutos do segundo tempo, com Alexandre Aruá, em um jogo que foi resumido em sobrevivência. 

Em um campeonato que virou do avesso fora das quatro linhas, o Mecão entrou em campo pressionado por um roteiro que ninguém gostaria de escrever e saiu com três pontos que valem mais do que a tabela sugere.

Este capítulo não começa com a bola rolando. Começa nos bastidores, onde um erro administrativo grosseiro transformou uma campanha até então sólida em uma corrida desesperada contra o rebaixamento. A punição aplicada pela FNF, perda de 18 pontos pela escalação irregular de um atleta, arrancou o América da liderança e o jogou para a zona de degola, criando um abismo entre o que o time produziu em campo até aqui e o que passou a constar na tabela. 

O caso agora segue para o TJD-RN, com o clube apostando em divergências regulatórias, falta de razoabilidade na pena e precedentes recentes que apontam para punições convertidas em multa. Até lá, o dano está feito e, nesta partida, o elenco precisou lidar com ele.

O reflexo foi visível. De um lado, um QFC invicto, bem treinado e dono de uma longa sequência sem derrotas, que vem desde outubro de 2024. Do outro, um América que parecia carregar mais peso do que o adversário. Não era apenas um jogo, era a tentativa de provar que o livro não foi largado. O público reduzido nas arquibancadas ajudou a dar o tom de protesto, com a torcida alvirrubra digerindo os acontecimentos dos últimos dias.

Em campo, o primeiro tempo foi de controle americano, mas com um protagonista ansioso. O Mecão teve mais posse, ocupou o campo ofensivo e criou as melhores chances, mas pecou justamente onde costuma ser mais eficiente: na tomada de decisão final. Souza perdeu oportunidade clara frente ao goleiro, Iarley e Salatiel tentaram, mas erraram a mira. Do outro lado, o QFC rodava a bola sem profundidade e praticamente não ameaçou a meta de Renan Bragança, que assistiu ao jogo de longe.

Na volta do intervalo, o roteiro seguiu parecido, com o América pressionando consciente de que o empate, dentro da nova realidade imposta, seria o mesmo que uma derrota. Não há espaço para falhas. Ranielle Ribeiro lançou mão do banco, oxigenou o meio-campo e aumentou a presença ofensiva. Ainda assim, o gol insistia em não sair. O América criava muito, sofria demais e resolvia pouco.

Até que, perto do fim, quando o empate já parecia um parágrafo definitivo, veio o plot twist. Souza cobrou falta na área, a zaga não afastou e Aruá apareceu livre para marcar. Um gol contestável, mas, sem VAR, válido. E, naquele momento, pouco importava a regularidade. Era o ponto final que o América precisava escrever.


Foto: Carmen Gabrielli

A vitória quebrou a invencibilidade do QFC e permitiu ao Mecão iniciar, oficialmente, sua escalada para fora do abismo: agora com –5 pontos, ainda respirando por aparelhos, mas vivo. Restam duas rodadas, seis pontos em disputa e uma combinação ingrata de resultados. O caminho é estreito, o erro extracampo está cobrando seu preço e a margem para tropeços simplesmente não existe. Um empate e a esperança alvirrubra de escapar da degola e, talvez, beliscar o título se perde.

Este capítulo não é sobre redenção, tampouco sobre alívio. É sobre resistência. O América segue escrevendo sua história, tentando provar que, apesar das falhas fora das páginas principais, ainda há futebol, elenco e dignidade suficientes para não permitir que um erro administrativo defina todo o livro.

O Campeonato Potiguar, para o América, deixou de ser apenas um torneio e virou uma prova de resistência. A bola segue rolando, os pontos seguem sendo disputados, mas o enredo agora exige muito mais do que futebol. Seja no campo, com suor, organização e vitórias, ou fora dele, em batalhas que se vencem com togas, o América fará o que for necessário para manter o livro aberto. O próximo capítulo será contra o Potiguar de Mossoró, na quarta-feira, às 20h, no Estádio Fião, em Serra do Mel, em mais um confronto que vale mais do que três pontos.

Por Carmen Gabrielli

*Esclarecemos que os textos trazidos nesta coluna não refletem, necessariamente, a opinião do Portal Mulheres em Campo


2 comentários sobre “Tetra no campo ou no tapete

  • Se não tiver interferências externas, o América é capaz de terminar em 6°. O Globo é muito frágil.

  • Já imaginou se a punição é mantida e o América consegue ir ganhando joho a jogo e ainda assim ter o seu tetra?

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