Colorado vence com dominância pela segunda rodada da Copinha e jovens homofóbicos são retirados do estádio após ofensas ao goleiro do CSE
Na manhã desta quarta-feira (7), o Estádio Nicolau Alayon, na capital paulista, recebeu os jogos válidos pela segunda rodada da Copa São Paulo de Futebol Júnior do Grupo 32. A segunda partida, entre Internacional e CSE, teve início às 11h e foi um verdadeiro respiro para a equipe gaúcha. Depois de estrear com um empate bastante contestável pela falta de qualidade, o Celeiro de Ases aplicou um 3×0 convicto nos adversários e viu mais um obstáculo em busca da classificação cair.

Hemos de convir que a gurizada colorada foi um pouco ajudada pela imprudência do atacante da equipe alagoana, Felipe Gabriel, que aos 13 minutos do primeiro tempo decidiu que a melhor jogada seria praticamente dar uma voadora no rosto do zagueiro colorado João Miranda. Na minha opinião, não era caso de cartão vermelho e, sim, de B.O., mas não deu outra: expulso antes da metade da primeira etapa, deixando o time em maus lençóis no ataque. Além da situação desfavorável em campo, o CSE vinha de uma derrota de 2×0 para os donos da casa, Nacional, e precisava de uma vitória dominante para respirar bem na competição.
Se aproveitando da situação desfavorável dos adversários, a gurizada foi pra cima com fome de gol, querendo resolver o jogo o mais rápido possível. A súbita necessidade de se fechar, mas ainda assim buscar resultado, atrapalhou o grupo alagoano. Tentando fazer tudo ao mesmo tempo, acabaram não fazendo nada direito e deixando nas mãos do goleiro Juninho toda a responsabilidade de manter o resultado como estava. Infelizmente – para eles -, Juninho não estava no seu melhor dia.
Então, perto da marca dos 20 minutos, o Inter se mostrou mais agressivo. O camisa 5, Vaghetti, insistia em fazer o goleiro adversário trabalhar com chutes de curta e média distância que se perderam em defesas ou na linha de fundo. O gol colorado ia se desenhando com cores cada vez mais fortes. Foi aí que, aos 21 minutos, o lateral esquerdo, Luis Felipe, levantou na área em busca de um colega, mas acabou deixando a pelota nas mãos de Juninho. O goleiro alagoano não conseguiu firmar a defesa e a bola escapou, para a felicidade do camisa 9, Victor Hugo. Atento e bem posicionado, o centroavante fez o que a posição pede e pimba na gorduchinha para dentro do gol. 1×0 pro Colorado.
A equipe gaúcha seguiu marcando em cima e rascunhando a ampliação do placar, enquanto o CSE se preocupava em se defender e tentar algo no contra-ataque, sem muita sorte. O roteiro parecia estar escrito para que o Celeiro de Ases mantivesse a dominância da partida.
Já nos acréscimos, veio o segundo. Aos 46’, o grupo alagoano ensaiava uma jogada mais agressiva, mas ainda na defesa, decidiram voltar tudo no Juninho e o coitado não conseguiu dominar a bola, afastando-a alguns centímetros de seu pé. Acompanhando essa burrada de perto estava ele, uma das maiores joias e promessas desse time: Gustavo Ulguim! O camisa 11, cheio de fome para deixar o dele depois de ser coroado melhor da partida contra a Portuguesa, mesmo sem nenhum gol, estava atento e preparado. Gustavo avançou pela bola, foi derrubado e, mesmo assim, preferiu levantar para bicar a pelota direto no canto superior direito da goleiro ao invés de pedir o pênalti. Não se desiste da jogada. NUNCA! Que visão e responsabilidade do meu ponta.
O gol de Ulguim deixou o saldo de gols do Inter empatado com o do Nacional, o que é muito importante em competições como esta. Ao final do primeiro tempo tivemos mais uma chance de ampliar em uma cobrança de falta – o que evidenciava que o nervosismo estava sendo o maior inimigo dos jogadores do CSE, que desistiam de jogadas e de um jogo fluído, partindo para travas agressivas e mal pensadas. A cobrança de Ryan foi na barreira e o avanço colorado acabou morrendo em uma falta cometida por Dudu, nosso camisa 10.
O cenário do segundo tempo não mudou em nada. Continuávamos com um a mais e com muito mais vontade e paciência do que os adversário, que se fecharam muito para segurar o resultado. Contudo, infelizmente, nem só do esporte vivem as partidas de futebol. Aos 13 minutos do segundo tempo, a partida foi paralisada pelo árbitro para a hidratação e, também, para a resolução de algum problema envolvendo jovens da torcida. O problema? Gritos homofóbicos em direção ao goleiro Juninho. Os jovens estavam atrás do gol e ofenderam o goleiro do CSE por conta do desempenho abaixo na partida. Após a paralisação, os meninos foram retirados e o jogo voltou ao normal.
As investidas apostando em velocidade e pressão deram frutos pela terceira vez na manhã aos 18 minutos. Meu centroavante comandou o início de uma jogada promissora pela esquerda de ataque, passando direto para o lateral abençoado, Luiz Felipe. O camisa 6, bem como já havia tentado no lance do primeiro gol, procurou algum companheiro mais centralizado na área, mas, dessa vez, com uma bola rasteira. Invadindo todos os espaços do CES, estava ele, mais uma vez. Gustavo Ulguim, ponta com pinta de centroavante, dominou de qualquer jeito, ajeitou a bola alta e largou um torpedo nas redes de Juninho. 3 a 0 pro Celeiro Ases.
No decorrer do jogo, tivemos chances de ampliar, mas não foi necessário. O resultado obtido foi o suficiente para garantir os 4 e nos catapultar para a liderança do Grupo 32, seguidos do Nacional, que também tem 4 pontos, mas um gol a menos. Mais abaixo temos a Portuguesa Santista, com 2 pontos, e o CSE que ainda não pontuou na competição.
Pensando no futebol taticamente, o resultado é ótimo, mas precisamos entender que existe um contexto de termos jogado com um a mais praticamente o jogo todo com uma equipe inferior na questão futebolística, mas absurdamente inferior no quesito psicológico. Espero que meu Celeiro de Ases me prove errada quando voltar a campo no sábado (10), às 11h, para enfrentar o Nacional na casa deles, o mesmo Estádio Nicolau Alayon, no que promete ser o jogo mais difícil até agora.
E, até é óbvio, mas, infelizmente, o óbvio precisa ser dito, reiterado e vigiado: A HOMOFOBIA É CRIME DENTRO DO TERRITÓRIO BRASILEIRO DESDE JUNHO DE 2019, quando foi equiparada ao crime de racismo e o Supremo Tribunal Federal tornou a prática inafiançável e imprescritível, usando como base a Lei do Racismo (Lei nº 7.716/1989). Ou seja, crime. Crime imoral e inaceitável em qualquer lugar, contudo, muito presente em estádios de futebol. Termos jovens repetindo tais atos é nojento e não pode ser levado como mais um episódio passável em uma competição pequena. Crime cometido na Copinha ainda é crime, independente quem o cometa. Retirar os meninos da volta do campo não é o suficiente, há de se ter conscientização e os responsáveis precisam ser notificados.
Quanto ao goleiro Juninho, é claro que a partida não vinha sendo a melhor de sua carreira – talvez nem tenha sido a pior ainda, mas isso não importa. Independente de sua sexualidade e do seu desempenho no jogo, ninguém merece ser ofendido enquanto exerce o seu trabalho, ou em qualquer situação. Espero que o jogo sirva de aprendizado a ele na questão técnica, mas que seja só isso, sem demais marcas causadas por uma bobagem tão grande quanto a homofobia recreativa de jovens ignorantes.
Não podemos mais aceitar que coisas como essa aconteçam, mesmo que tenha sido tratado como um incidente de menor importância. Não é. Atos como esse são a prova de um dos esportes mais diversos e apaixonantes do mundo ainda é permissivo e incentivador de crimes como este.
O futebol é de todos e ser quem nós somos não é ofensa!
Por Luiza Corrêa
*Esclarecemos que os textos trazidos nesta coluna não refletem, necessariamente, a opinião do Portal Mulheres em Campo.